08 dezembro, 2010

Da minha varanda vejo o rio...!




Saíamos ao som de todas as musicas e baralhávamo-nos a descompasso, agarrados pele na pele, mão na mão e línguas tocadas como melodias de Bach.

Esbarramos nas esquinas do passado e enfrentamos dolorosamente os trajectos do futuro.
Faço vénias à tua presença em mim, repiso os teus passos, e busco a alma em labirintos traçados a régua e esquadro, pensados ao pormenor, para nos perdermos, inquietos amantes.

O calor do teu corpo no vidro da janela, o sopro no coração que me repela, e ecos de desejo como restos de beijos ao desbarato que deixamos impregnados em nós.

Não adormeço nos teus braços mas ancoro a minha existência no teu porto de abrigo enquanto sonho vigílias da tua ausência.

Da minha varanda vejo o rio.
Barcos ancorados como pranto de criança, rastos de sonhos, e as nossas unhas espetadas arranhando ao de leve na franja do estuário, enquanto gaivotas esvoaçam, trazendo acoplados recadinhos de anúncios em escapadelas de beijos e abraços.

Tenho-te como música enquanto baloiças o teu no meu corpo e me fazes cobardia e coragem, céu e inferno, sol e açúcar, sorrisos e lágrimas.

Tenho a tua na minha boca e arrebanho-me aos bocadinhos na memória e na minúcia de Rembrandt, enchendo-me de palavras para me esvaziar de ti, pecado de quadro perfeito.

Gosto de ti em dose inteira ou meia-dose, aos bocados ou colheradas, com a soberba da ganância ou a ponta dos dedos, lambuzado e digerido, refeito do doce na língua, engalanada do teu sabor.

Da minha varanda vejo o rio, Tejo ao fundo em demasia, adormecido cansado, arritmias inquietas, e o teu abraço, despertador.

Da minha varanda vejo o rio,
Gaivotas agitadas em desatino, barcos sem leme,
O teu sabor na minha pele, o sal da nossa vida, passos teus em labirintos meus e beijos de língua no teu sonho ao de leve, e o meu coração o teu porto-de-abrigo.

07 dezembro, 2010

No teu livro, uma linha.



Havia pão acabado de cozer no forno a lenha, tijelas de marmelada na varanda e compotas em cima da mesa.

A lua boiava no céu, o sol espreitava atrevido, o sino tocava e o adro da igreja enchia como domingo.
Mantive os portões abertos, os muros cobertos de heras e o brilho da tua pele franqueava-me um sorriso.

A tua parcimónia de palavras, o teu rosto que se fechava, o conhaque no meu copo aquecido. E no entanto, as mãos dadas, o teu perfume, o gato persa nas tuas pernas o meu ronronar em ti e nem um afago.
O teu afago simples, sensível, vertiginoso em mim.

E eu no teu livro apenas uma linha.
Nem um capítulo, nem uma vírgula, apenas uma linha.

Refugio-me em escapatórias e um raio oblíquo de sol empastela-me, salpicando-me os olhos de lágrimas furtivas.

E vinha nas análises, que me circulas nas veias, enquanto taquicardias evitam correrias extremas por entre a bílis que segregas.
Preciso de me desmontar e reciclar, e adensar com picaretas, cimento armado, areias e marfins, numa reconstrução dolorosa, sem prazo, rebolando pelo interior de mim.
Dislates esquizofrénicos, tremuras diabólicas e pantominices felizes, como um qualquer diabo deve ser.

Aí chegado, requalifico o ar, suspiro como Vinicius e Jobim e cada palavra minha em texto teu, será como golpe no teu rim, emplastro no teu olhar e movimentos embaciados tricotando a alma, enquanto eu adocico a língua, ofereço-me palato lambuzado e repito a dose dessa nata com canela.

Pode até sobrar lençol na tua cama, esfriar a meia de leite a dois e a lua baloiçar no céu.
Vou tocar o sol e resplandecer sorrindo da nuvem que te povoa, enquanto o pão cozido estala na varanda, quente para manteiga, soberbo para compota.

E tu fingimento escarnecido, serás retocada a tinta-da-china, lembrada em papel pardo e atirada ao mar como barquinho de papel dos meus sonhos de criança.

Fechei os portões, as janelas trancadas, o brilho que me espreita pela frincha e a chave do coração encerrado para obras.

14 novembro, 2010

PEDAÇO DE ALMA



Às vezes a bruma sobe pelo rio e o outro lado desaparece levando com ele barcos ancorados e gente dispersa.

A ponte deixa-se ficar e espraia-se por entre telhados enquanto o comboio vagaroso sublinha reticências, na esperança de chegar ao fim.

Os rabelos dormem pachorrentos e a falésia cor de barro agita as gentes dos guindais.

Um homem gordo de bexigas e ar altaneiro a vociferar, deslumbrado com as miúdas galopantes, tipo ardósia aos guinchos que desaguam pelas vielas.
Ele tisnado, lençinho ao pescoço, cachucho no dedo mindinho e os suores alagados na base da testa.

E nisso, o teu estendal de roupa com molas cores de fruta e o som da cidade a descompasso.
Flashes do presente, sonhos do passado, os mesmos passos em labirinto sem saída.

Os gatafunhos que te lia, o caderno quadriculado com um piano de cauda desenhado, a tua mão destreinada e os tremores que já na altura te agitavam corpo e alma.

As tuas pálpebras caídas sobre o meu rosto cansado, salpicam promessas, enquanto estirada ao sol o calor evapora do teu corpo em golfadas de desejo.

Sabíamos de tudo e quase nada.
Eu e letras, imagens comigo. Frases semi-nuas abandonadas a um canto, preenchia espaços entre elas vestindo-as de roupagens novas.
Criava poesia com tenra idade num coração desabitado, desolado, amarfanhado. Sinapses disparadas e um vazio num amontoado de cicatrizes.
Tu e desenhos mascarados na arquitectura do piolho, café que habitávamos a destempo.

A cidade espreguiça-se e nós temos o amor das coisas simples, estudantes juvenis e inquietos.

As tuas mãos cor de Outono, a linguagem crua do prazer, os amigos comuns e noites de S. João, o teu corpo desprevenido e as amarguras repousadas.
Aparvalhados como garotos, pele de textura única, e o mundo o nosso recreio.

Remendas-te com bocadinhos meus – dizes, e eu a perder-te uma e outra vez.
Madressilvas soalheiras na mercearia de esquina, beijos molhados pelas franjas da madrugada, sonhos encharcados pela fímbria da manhã, as minhas mãos nos recantos do teu corpo.

Gritos imperfeitos na Ribeira, bruma dissipada e barcos encalhados.
A tua despedida, conversas meigas já sem força, resquícios de um suspiro que atravessa as malhas do tempo, o comboio que lento, cedo, atingiu o fim.


Foste na noite e acabou, a pedra tosca da tua casa, os rendilhados da tua mãe, a invernia que espreita, e a esquina onde ainda hoje te espero.

Às vezes a ponte fica mais longe, a ribeira alagada das marés, as varinas num engasgo de sílaba e a juventude num ápice perdida no funicular dos guindais.

Um dia, é isto e quase nada, passado perdido na memória entre espaços de tempo e lembranças penduradas em pedaços de pele, corpo e alma.

26 outubro, 2010

ILUSÃO



Passamos o tempo “ocupados” com pequenos nadas, frenético consumo, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar, carros topo de gama estacionados, roupas de marca, festas e festarolas, conversas de ocasião,

Passam por nós, novos e velhos, desenganados e coitados, cabisbaixos e sujos, melancólicos e doentes, gente de um tempo perdido, numa crueldade que o tempo marcou, indiferentes pela vida, sem sonhos nem fantasias nem esperança no futuro, vegetando em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho, passando e cruzando o nosso caminho, que evitamos a destempo, e saltamos de apeadeiro em apeadeiro enchendo a memória e o olhar, despejando na estação próxima, enquanto no vagão da vida saltam lágrimas em rosto de criança a quem foi prometido um mundo… e deram… nada.

E estendem-nos a mão de conveniência, numa catarse mitigada, sociedade travestida e vazia de valores, tão repleta de indiferença.

E sobram os costumes e as coscuvilhices num linguarejar de vidinhas, enquanto o ordenado é sugado em impostos, o carro na fila que não anda, os diálogos refugiados em monólogos.

Chicanas de café em chás para quatro, argumentos pestilentos sobre os outros, lama espirrada na direcção de alguém, enquanto abanam o seu enlatado e sacodem os fantasmas dos armários na penumbra dos dias.

E é este o jeito de um povo/país, indiferente a tudo e a todos, metido em “umbiguismos” de poder, discursos ofendidos, realçando o seu “EU”, como se a Bastilha tomasse.

Negrume vida, futuro incerto, pacóvios e papalvos, sem trincheira para se esconder, vidas a céu aberto, volantes de couro e tejadilho de cristal, num estado sonolento em sonhos ancorados.

Inquieta vida de mentira, palhaços e ilusionistas, malabaristas e desgarrados, opulentos e miseráveis, sortudos e azarentos, favoráveis e opositores, reis por segundos e povo da vida por inteiro, sem alcance nem valor.

E irás andar em ziguezague, montanha russa da vida, rebuçados oferecidos em colher de latão e a tudo e a todos dirás… nada… num entediante costume de bonança, bonacheirão típico e carácter de brando costume.



... publicado também em http://www.retratoseteatros.pt.to/...

20 outubro, 2010

UMA FOTO




As ruas estão vazias, a aldeia só tem velhos, as crianças não choram, na calçada, quase não há cães.
O musgo acumula-se nas paredes e falta vida neste espaço, temos apenas o tom sépia do tempo.

O meu Pai e a gabardina bege, olhos azuis, perfil estático e imponente, um anjo equilibrado dos dois lados da vida. A cortina que afastamos da janela, uma réstia de sol.

Tu pequenina montada num cavalinho de pau, eu no jogo da bola às vezes perdido entre ramagens.
Já não reconheço paisagem, a Lagoa esbraceja e forma correntes diferentes. A “aberta” mudou de lugar e afeiçoa-se aos novos métodos.
Estranho as correntes, como por vezes me estranho a mim, perfeito solitário no interior da alma.

Não gosto de te olhar quando muda a hora ou o lusco-fusco nos entra pele e olhos, nem gosto dos dias curtos e da indiferença do meu caminhar em ti.

Já não nos alimentamos de rebuçados de amor nem chocolates de paixão, mas sei que nos dias pares te adoro e nos ímpares te duvido e sei da minha inconsciência juvenil e das falanges dos dedos que te povoam cabelo e da imagem que o espelho não traz.

Não gosto do Outono que adivinha almas perdidas, folhas secas, um frio incompleto de agasalho e o cheiro a castanha assada e água-pé.

Mas gosto da foto de ti no cavalinho de pau, cores rebatidas e o meu não sorriso, a tristeza da distância do tempo, das partidas da vida e a minha avó no canto da sala a fazer “naperons”.

A tua foto e a minha memória, a maré que sobe e agasalha a areia matinal, e o meu acordar cansado da madrugada titubeante arrebatada à dureza da noite em diálogos interiores.

A minha Avó ainda no canto da sala, e argolinhas do “naperon

A ciranda em que dançamos, o imaginário, olhos rasos de mil pedaços cruzando silêncios em mãos moldadas. Um papel dobrado em dois, o teu estilo, o meu percurso, a baunilha no teu perfume, uma mesa para um em vez de dois, a toalha branca e o meu prato preferido.

Gosto deste silêncio e deste vazio., como do teu retrato na moldura e a minha avó ainda no canto da sala.

20 setembro, 2010

O meu violino



O meu violino, a musica e o meu anjo-da-guarda,
tudo encorpado e palavras dengosas.
Este meu pranto sem vontade, este sono que não durmo, esta água que não bebo
e esta morte tão perto que a cheiro.

O meu violino.
Esta musica que me povoa e agita e me confunde entre os sons o sono e a memória.
O arrastar do meu corpo para a sombra e esta alma sem sentido.

O meu desdém calcinado, a tabuleta que trago espetada em mim – trespassa-se – o meu corpo sem alinho nem prumo nem remendos.
Esse som que me arrasta, que me traz de novo, que ressuscita uma mente estúpida e povoada de imbecilidades.

O meu violino e tu, e eu aos poucos, desperto, atento, menos surdo, redimido e absolvido em confissão.

Liofilizo-me, vibro com oboés e flautas de bisel, sons no coração espetados com alfinete bebé.

Desempoeiro a alma, dois caminhos sem sentido, um sentido único.
Desconhecimento bíblico, ideia peregrina de sinfonias numa implosão enunciada.

O meu violino que derrapa acordes rateados e o meu passo emplastrado de loucura decepada.
Musica como aritmética de sobrevivência e um texto premonitório, corpos embalados, bolas de fogo, boca fora.

O passar oxidante do tempo, musica e um violino, traços incertos de dedos pequenos.
Tolos desmandos e um arremedo de paz, resgates em mar alto, um sonho agitado, figurinhas encenadas, perfil seráfico e um descanso “gourmet”.

Dias bipolares, ternura pouco-a-pouco, pingando como torneira mal fechada num coração desabrigado, de sonhos indecifráveis.
O meu violino, e eu.

Esboços



Esboços de memória.
O Sol pintado com um sorriso aberto, uma árvore com frutos e um verde a espraiar-se.
Uma bicicleta, duas rodas dezoito, o mar em ondas, uma expressão estética mal conseguida.
Nunca faço a lápis sempre a tinta, e contorno, modifico, e renovo a textura.
Salto entre sofá e mesa e de novo sofá, numa inquietação sofrida, leis misteriosas do meu corpo.

Quantas vezes soluços de cuco, saídos da portinhola interior. Gemidos como corda acabada de dar no relógio.
Na minha memória um piano de cauda, sons do mesmo, os meus dedos que fervem no dedilhar constante.

Caíste-me num beijo pintado em tons de azul e eu absorvido por ti, nem me dei conta do tempo em que estive.
É a tua sombra que me persegue, laivos fugazes do que foste.
Tenho espaços vazios por preencher e receio da falta de ar ou da sobredosagem, que possa vir.

Deixo a alma, frases, e pele por entre espaços.
Fisgadas nos pássaros, corridas de carros de rolamento avenida abaixo, calções rasgados, memórias dependuradas em mim, às minhas costas, dentro da alma, apertadinho.

Tenho permanente a tua profilaxia nas minhas veias, gotículas do que foste e um vazio na memória que me afasta urdiduras.

Um deslizar sulfuroso pelas tubagens do meu interior numa quebra súbita de tensão.
A minha bica meio-cheia, o teu corpo vazio o nosso guerrear na minudência, e o teu sorriso malandro que me engasga reticências.

26 agosto, 2010

DOURO




Range metal sobre metal numa chiadeira estridente.
Prolongamento de memórias, nostalgia e deslumbramento, suspiros nas curvas apertadas.
A canícula que desaperta os ossos, a encosta da serra, telhados românticos, árvores que cercam o casario, videiras entrelaçadas.

Sombras de nuvens, fantasmas que se demoram em cada traço do caminho que percorres.
A incessante criatura sem rosto que vislumbras ao longe no socalco, imergindo do verde da planície, um caos ilógico na arrumação dos campos.

E tu como relógio, mostradores inquietos, ponteiros pontiagudos como a verve que evaporas boca fora.

Sons do tempo, enevoado e frio, folhas de árvores que se riem a cada passo teu.
A tua sombra do lado esquerdo de encontro ao muro, esmagada de encontro ao muro.
Piadinha entre folhas, risinhos histéricos e a árvore frondosa que as manda calar.

Já falaste com alguma árvore?

A subida da colina serpenteante, carregando um calvário completo. Um remorso vivo, como a dor.
A dor e uma árvore sem galhos, nem folhas, nem diálogos entre elas.
Apenas a dor a apertar, parecendo distante por não a querermos.

Range o som metálico e frases aos solavancos, despovoadas.
Sombras, restos de gente a agitar, misturas de luz, estrelas e vozes.
A voz como o andar da noite, vagarosa, incompleta.

Uma impressão digital a enganar o diabo.
Pinturas ancestrais no povoado, pedras colocadas por defeito, provas de vinhos que afastam maus augúrios, o diabo e as tropelias.

Cestos de vime repletos de morangueiro, uva branca e preta, engalanados com parras de cheiro fresco.

Caminhantes sozinhos, vertigens de cor e paz, refluxos de emoções partilhadas, substitutos de existências por memória.

Metal sobre metal, uma chiadeira de risinhos estúpidos, de folhas assustadas como se o Outono chegasse.

Já falaste com alguma árvore?

19 agosto, 2010

O teu feitiço



O teu segredo… a meiguice sem medida, o destempero em que te soltas, jorro de afectos sem espera.
Alquimia na tua pele que entendo como obra do “Demo” tal a inquietação que provoca. Tanto me tira o ar como me solta o riso.

O teu feitiço
Esse arrastar de mãos, suave e ardente como conhaque velho.
Palavras quebradiças, resignadas à sorte que lhes caberá.

Esgueiras-te entre brechas como refúgio
Afasto-me de mim tantas vezes e observo-me ao longe como Rembrandt os quadros inacabados.

As assistolias, um suporte de vida, apito agudo constante, linha ténue marcando a partida, o sopro final e eis que tropeço no teu olhar e desperto para a vida num trago.

Colo-te palavra por palavra, gesto por gesto, pedaços de corpo em corpo de mulher, o teu feitiço.

Não, não és tu que me baralhas, sou eu que me confundo nesta geometria perfeita de enganos, naufrágio de constelações inteiras.

O teu segredo em ritmos pachorrentos, circuitos entre vielas antigas, a nossa casa de madeira em Hoshinoya /Quioto, candeeiros de bambu e biombos de papel de arroz que se espreguiçam na nossa direcção.
Dias que despojo do corpo estropiado por toques subtis. Os minutos que não temos e o meu cansaço nas tuas costas, confinados a um espaço que se deseja intemporal.

O paradoxo de nos arrastarmos na sombra, embalados por nocturnos silêncios, parágrafos completos, baixos-relevos, heráldica amorosa e delimitas os meus lábios como partitura para orquestra sinfónica.

O teu feitiço
E eu, sem reacção, resposta ou oposição, olhar tosco, palavra siderada, inquietude orgânica, abano de esqueleto, coisa feia, coisa má, coisa minha e coisa tua.

Sou eu afinal… o teu feitiço.

19 julho, 2010

Do I look Alright?




As tuas brincadeiras de criança.

A necessidade que tenho de te puxar “às cordas”, para te abocanhar atenção.
Sempre a tua partitura interior, distraída, um franzir de testa, risquinhos marcados como ondas irrepetíveis.

A minha mão direita na tua calça de ganga, marcada, rasgada e o meu peito no teu e um beijo enregelado, tacteado como cego no teu interior.

A minha boca em espera, ainda.
Beijos de ontem, na espera.

Do I look alright?

E roubo-te aos bocados.
Com as duas mãos, enrolada na ponta dos dedos amassada ao teu desnorte, fundida em mim.
Gestos nos gestos que a mão faz sem contar.
Perímetros em subtracção, volteando corpo, escondida no olhar
Dedos de pintora, modeladora, alquimista da alma,

Fechadura e torniquete no coração, ventos de luz e um dobrar de pálpebras

Conto as palavras que te digo para não exagerar, nem a mais nem a menos.

As minhas mãos que não chegam para tanto de ti, luzes que não se acendem e os fantasmas que nos habitam, que nos acorrentam, que nos secam feridas, que nos sabem caminhos sem mapa nem bússola

Do I look alright?

A minha boca em espera,
Dragões nas curvas do céu, peça por peça para te construir, riscos de chuva, nuvens como telas, pinceladas.

E as mãos macias, ternas, gulosas, vadias.
Uma bolha parada no tempo, um toque amargo nos lábios e nós dentro do tempo a recuperar o doce,

Gaivotas com mensagens de textos alinhados na memória, as tuas brincadeiras de criança, os gestos largos irrepetíveis, as mãos frescas e doces, o teu olhar, alquimia de alma.

Do I look Alright ?
Yes, you look wonderful tonight!

17 julho, 2010

VERGONHAS



Manténs o riso rasteiro a valsar na tua boca envergonhada, enquanto olhas o chão e ruborizas vergonhas como puto mimado.

Estás como que gasto, um amor velho e desmazelado.
Cheio de lamechices, olhos sem auspícios de cama, apenas um franzir de sobrolho que te sobra na memória.

Vejo-te sem mundo, magoado, engelhado, sem pele nem cor dominante onde te agarre interesse, pálpebras caídas, arrepiado.

Pede-se magia, um truque de feira, pomada milagrosa, uma corrida no poço da morte.
Enrola e desenrola, levanta o queixo e aspira saúde, faz a barba a três quartos, espalha rubores pela cara e açoita esse animal.

Ronrona baixinho e compõe geometrias enquanto arqueias papa-léguas e te mostras felino quando os pelos se eriçam.
Faz-te animal bravio, sapato desemparelhado, cueca solta e um fantasma que te habita a espaços.
Abre-te de espanto, liquida silêncios e palavras meias, calibra o riso e o acento tónico, toca polegares no corpo dela e abala-lhe os sentidos.

Fica alerta com punhal afiado, mareando ondas de supetão, ajusta zoom interno e intensifica a voz aguda na face esquerda dela, enquanto lhe cais na direita como futebolista em falta na entrada da área.

Faz-lhe da boca desatenção, contorna-lhe pescoço desabrigado e escorrega-lhe preguiças pelo corpo.

Ris-te da volúpia contorcionista em becos sem saída, num desejo circular e redundante.
Pede-se de novo magia, polegares ao alto, jogada p´ra golo, numa malícia de mãos afogadas nos teus lábios, enquanto te atiras de cabeça para o poço da morte.

Valsa mais firme o sorriso na boca envergonhada.

03 julho, 2010

Memórias



Tenho cinco anos e o meu Avô morreu.
Deitado, despede-se da família, a minha mãe no seu braço, e o silêncio respeitoso por quem parte.
Olho por cima do ombro da minha vista, um suspiro que ninguém ouve, um bater de porta, sapatos de verniz que me alcançam.
A minha avó num movimento estranho, o grito suspenso, a bênção Tio e o anel de família no topo do mundo.

Folhas que abanam o quintal da casa, um som de fundo indefinível, as vozes que se misturavam até não parecerem mais vozes. As que se aproximavam, as que se afastavam.

Os choros contidos, os mais soltos, assim juntos numa melodia, até não serem mais tristeza ou perda, mágoa ou queixume, sequer arrependimento ou culpa.
Não era nenhum e contudo, todos simultaneamente.

Os homens afastavam-se depois de semearem mais diálogos fortuitos, as mulheres de negro junto ao chão da terra revolta em esgar de dor.

O miúdo preferiu adormecer. Sonhar amanhã e imaginar como ontem.
Pés em filas de passos desnecessários, curvas na memória e os dias que morrem em fila, ordenados.

Compêndios de história, cestos de vime, de como se faz das tripas coração, da luta contra Salazar, falado em sussurro inquietante.
O aprumo de marinheiro, porte altivo. Água mole em pedra dura…
Não desaparecias nunca assim, dizias...
Afinal há mil maneiras de morrer.

O fim e o abandono, corpo deitado, e o olhar que ignoro que me olha.
Pedro como eu. Alto, frontal, enérgico., mas doce, muito doce.
Aprendi contigo a fazer a soma de silêncios e a ver o tempo nas pausas, na tal solidão interior.

Até um dia, daqui a muito tempo como um piscar de olhos entre a eternidade e o fim.
É já ali.

29 junho, 2010

Já é tarde



Podes até ler na palma da mão, nas linhas da vida e do destino.
Podes querer apenas a cumplicidade dos caminhos, os sorrisos que se cruzam, os teus projectos, as idas e voltas em viagens soalheiras os encontros confidentes que nada trazem.

Podes até dizer-me do novo amor, do encontro/reencontro, dos beijos sabor a sal e saber dos meus neurónios e o que valem.
Podes repetir até dez vezes que o tens como teu até desoras aflitas e nocturnos encantos.

Podes confidenciar-me não ser esta a tua praia, o teu lençol de linho, mas esmagas novidades e sorrisos de felicidade em mim, como percorres caminhos tortuosos e saltas entre nuvens ao meu encontro.

Podes falar-me do teu atraso menstrual, do que ele te confessou, das palavras mal geridas, do olhar dos teus pais e da tua imagem ao espelho.
Podes avançar três casas e recuar quatro no Monopólio entre avenidas, ruas desertas e lojas sem decorador.
Podes retalhar cada pedaço teu na procura da verdade em cada pedaço dele, mas sentes que encontras sempre espaços errados, enganos teus, o teu olhar em mim.

Já me falas em sorrisos cúmplices, que enches o vazio no meu olhar e que te sentes a naufragar em humores bipolares.

E tu um barco ancorado, um mastro torto, nó de marinheiro desfeito.
Mala de mão com o amor lá dentro, guardado, apenas teu, como guarda de elite Inglesa,

Podes até falar em ocupares-te de todos os recantos do meu corpo da inevitabilidade do reencontro tardio, que ainda me cobiças os lábios… mas tarde de mais.

Vou expiar toneladas de suspiros, arredondar minutos de alheamento, horas de concha, interiores de tempestade sem bússola, perdido, cego de ti num desnorte a bom porto.

Vou sentir o segundo que antecede a morte, o resquício do beijo, a mansarda partida, o buraco negro do ozono, a coreografia arrojada, mas não me tens na palma da mão, nem em nocturnos encantos, nem linhas de vida nem destino, nem em remoinhos de dor.

Podes até falar, mas já me saíste da ponta da língua, pelos nós dos dedos, escoada pelas chuvas neste Verão crepitante, curtido e defumado, desintoxicado dos contornos de ti.

Até podes, mas já é tarde.

23 junho, 2010

"Amo-te Maria"



Tens pirateado as emoções e eu, um rancor que me enrola a pele e me faz liquido em combustão a gerir a saudade e o desejo.

Eu sou mais que isso.
O grito que abafo, a mão que protege, o peito que te ampara e o musculo que te absorve.

As plantas, tal como tu, deviam falar. O Sol também. O Mar devia dar opinião, tal como a chuva e o vento. E nós calados, a escutar a reclamação das marés.

No entanto apenas a sombra de uma voz. E o teu sorriso.
Basta sorrires para ser verão.

Mesmo que não cheguem as férias, mesmo que a Cotovia não cante, mesmo que a árvore seque.

No entanto é o teu sorriso que me afasta dos dias amargos, dos relógios gordos, arrebitados, muito gorduchinhos como o Sol ou meia-lua.
E as horas que passam e o Cuco que não sai da gaiola.
As badaladas da Torre dos Clérigos, o raio de Sol que ilumina o Templo de Diana, o teu sorriso na Madragoa com vestes de Santo António.

Tanta gente e no fundo, gente nenhuma.
Nas paredes do Metro, “Amo-te Maria”.
Na parede o spray, conta-gotas de qualquer coisa ou coisa nenhuma mas a frase em spray.
E eu, cauteloso a escrever frases, sem saber o quê.
Quem nunca escreveu uma frase?

E o sorriso que vem a caminho no metro e encontra o Spray na parede e o “Amo-te Maria” escarrapachado, sem mais nada.
E no entanto todos lêem e alguns comentam.
Eu, seguro a opinião nos lábios, enquanto penso, a sombra na voz, a combustão da saudade que me abana o esqueleto.

Isto do Amor é estranho e esquisito.
Há-de haver quem saiba. O tipo do Spray e a frase na parede. Ninguém sai intacto.
E no entanto tocam acordeão no metro, linha azul.
Estações que passam, uma escuridão no túnel e as luzes que iluminam o “Amo-te Maria”.

E o tempo fatiado, estrelas que pintam o céu como Dali os quadros.
As frases inacabadas, palavras semi-nuas sem sentido e o corpo adormecido de nada.

E vou acordando, sem sonos ritmados, na inquietude da carência que me pinta a cor da alma.

A falta dos doces da minha Avó, do beijo e abraço do meu Pai os olhos dos meus filhos, o teu azul que inquieta, e eu a beber-me em goladas de sílabas a matar esta saudade mafiosa que tenho de ti.
Parágrafos que deslassam os abraços ferozes em gestos mímicos numa vontade ociosa de sermos hoje melhores que amanhã.

Pirateamos emoções, desfazemo-nos em risos inocentes, partilhamos pedaços de maldade nas brechas deste encanto infantil, enquanto sorrateiramente te armazenas em mim.

No Spray da parede do metro, “Amo-te Maria” a conta-gotas, e o sorriso a caminho de nada.

Basta sorrires para ser Verão.

11 junho, 2010

Mesmo aqui ao lado




Estou mesmo ao teu lado.

Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela
cintura adelgaçante. Salta a culpa, esquiva-te da indecisão e solta o
riso que me acolhe.

Não ligues ao vizinho do lado, que rosna a cada bater de porta, nem ao cheiro a fritos do
óleo-três-semanas nas bifanas do Quim-Zé.

Preparo as entradas e ponho a mesa de copo de tinto na mão, encontro de dedos,
o teu queixo, um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca.

Já não tenho jeito para parágrafos nem interrogações. Sou mais linhas curvas, sílabas tónicas
e a tua indiferença que me reduz a pó.

Nunca entendi essa partilha de beijos não trocados, de abraços esquecidos,
e as águas de Abril reluzentes nas poças do caminho.

Sabes-me como colheradas de rícino nas veias latejantes em silêncio murmurado.

Sou invólucro do que já fui, palavras que me escapam entre os dedos,
fogem a sete-pés, e sete palmos de terra que me acolherão lábios
cerrados à força do riso por mim escondido nas paredes da garganta.

Tranco-me de novo a sete-chaves, não vás aparecer, e aguardo na masmorra escura de mim,
o tempo que se apaga.

Ando aqui com perífrases, enxoto alcovitices da vizinha de cima, mais o pão amassado,
o açúcar que falha, e o meu cérebro tosquiado numa colheita Alentejana e violinos de “Bach”.

Já sequei as roseiras e os sorrisos abertos e sinto motins de inferno dentro de mim,
desactivando-me na perfeição.

Não te faço falta, sou-te dispensa vazia, a tua agenda Moleskin, os amigos e o papagaio,
as festas e a aridez do teu discurso.

As paredes de casa espreguiçam de cansaço, tenho a tua sombra em mim e a pele em chagas
de incisões que me fizeste.

Raios-parta-a-velha, mais o latido do cão, os teus passos na varanda, o fígado que me ataca
e o amor espalhado por aí.

Estou mesmo por aqui,

Três quarteirões em redor, duas vielas depois, uma contracurva apertada,
 vendilhões do tempo que me assolam, verdugos de penumbra e gente sem rosto.

Vou fechar gavetas e janelas, portas sem fechadura, afastar as carpideiras que correm
 com vampiros de mão dada, mergulhar no mar salgado e secar-me dos restos de memória.

Finjo não ver a desmesura teatral que me atiras, estado liquido, desfeito,
num gerir de saudade, mal resolvida por partes iguais.

A gulodice no teu olhar, braços apertados no não perder, misturas subversivas
no corredor e a luz que desligas para tacteares o calor que de mim foge.

Já não sorrio no escuro, como na fímbria da manhã, e sim longe, e
nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.

E eu...aqui ao teu lado.

09 junho, 2010



Já nada me surpreende em ti, nem nas árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular.


Esta onde moro tem nome de gaja, cotovelo curto na encosta. Estatuas fálicas, igrejas grandes, e um tipo qualquer que já morreu e nunca morou aqui.

Despejam gente no arraial da aldeia, farinha frita e filhós, açúcar em carradas de farturas e barrigas inchadas dos achaques da cerveja.

Frios cinzentos de “néons”, almas esquecidas vagueando na correnteza esboroada do prédio de arquitectura mortuária.

A senhora gorda, papuda, de mão na testa como medidor altímetro, e o seu mais que tudo em contornos de corpo arqueando braços e mãos, despejando salinas de suor no vestido carmim, volteando o jornal num aconchego de corpo.

Ruídos timoratos de garotos no alcance da passarada e um sapato desemparelhado em bêbedo de virilhas molhadas e ombros caídos num desdém.

Arrota pelintra a três-quartos, no caminho do jogo da bola, barba por fazer, cançonetismo pimba atirado em doze cordas numa espiral de fumaça pelo canto da boca.

O correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, partida a meio e estreita onde habitam matrafonas gordas do Corso de Torres, sorvedoras de after-shave barato que ele coloca corpo fora e mais nas covas das orelhas, enjoativo e incómodo.

Dedos num esfregaço de médicos alcoviteiros rasgando sorrisos e prazeres avulsos com precisão de bisturi.

Do meu lado, o armário Dona Maria, que veio contigo, presente do teu Pai, onde guardo memórias desfeitas nas gavetas pequenas, nos macramés, os naperons roídos pelo “bolinhas” as rendas desbotadas de noiva que deixaram da tua avó, e as fotos desbotadas dos falecidos com bigode, chapéu e fatiota domingueira.

Já não se me refinam os sentidos como antes, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais o azul atapetado do prédio em frente, onde vivia o Abílio do pão. Sim, os sentidos já se foram, mas ainda sou mulher, apesar das artroses, as rugas emprateleiradas, e o fosso da labuta diária que encolhe a língua de silêncio que me lambuza os domingos.

Tu, com os cremes e desconfianças espalhadas pelo lavatório, eu com toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão, a ver-te de bochecha meia-lua, pelo recanto da boca.

Já nada me surpreende em ti, nem as sopas com pão, nem as prateleiras de sentimentos nem os encostos que ainda me dás, muito menos as tardes de bola ou o tulicreme de barrar por causa da placa.

Já nada me surpreende em ti

05 junho, 2010

HOW WONDERFUL YOU ARE





Atiras com palavras mescladas de sentimentos, em cada nó que em si deslaça, rastro perfumado do teu corpo musical.


A tua língua húmida e um corpo, deserto de mim
Boca forrada de palavras e a culpa do silêncio que me dói, na incerteza de qualquer verdade

Vives reticências cirúrgicas e o nó górdio que impões reflexamente, impedem o alcance desejado.
Cozo-te carne e pele, ato-te a mim e espalho “post-it´s” coloridos no embaraço que sentes quando me tens.

Tento alquimias e feitiços, rezas, bruxarias e candomblé, hologramas de penitências entre Deus e o Divino

Apeteces-me sem protocolos nem palavras vãs, prazos de validade ou preconceito.
E instalas o inferno em ti quando ausente de mim.

Fecho-me em concha, na protecção dos Invernos, marés intensas e lua cheia. Afago as feridas que me deixas com cremes, pinças e algodões.

Guardo os silêncios no meu interior e defino os parágrafos, reticências e ponto final.

Gosto que me confundas com o rebentar das ondas em volúpias do meu corpo encharcado de marés e beijos molhados pelas paredes do teu. Fico assim enredado em ti, como beco sem saída e sem direcção.

Devolve-me o acautelar do riso e a vergonha, noites pacificadas num abraço e a paixão em estado líquido.

Trato a ansiedade, apoplexia, evocações de tragédias, o tremor das pernas e o instante de loucura em sinal de perda, como vísceras que escorregam e estrangulam em morte iminente, e no entanto no enunciado da tragédia, leio analogias nas nuvens e o teu pulsar dentro de mim.

Musica como recompensa, murmúrios de corpos numa entrega sem fim e o desejo nos teus lábios como frágil destino.

E o vazio em que afogo esta paixão que não consigo respirar, no mais solitário dos instantes e a tua alma que vagueia nas asas do condor, tocando harpas e oboés quando me encontras o olhar.

Fecho-me em concha até ao próximo céu numa nova lua de um qualquer planeta estrelado

Atira-me palavras mescladas de sentimentos, sem reticências e respira-me devagar até perderes os sentidos, pontos-cardeais e o mimetismo dócil que me faz criança em ti.

Quero-te de novo, neófito doce entre desamparos de lágrimas que sucumbem na memória que me enjeita, e o teu corpo geométrico no labirinto da minha boca.

03 junho, 2010

AOS BOCADOS



Contigo tem de ser aos bocados.

Umas vezes mais próximo, outras mais distante, mas sempre aos bocados.

Bocados pequenos de cada vez, para que me sintas.

O traço incerto dos teus dedos a tua boca carnívora que me atrai para o seu interior, e a tua sombra chinesa que dança entre cadeiras, poisa nos quadros e estatela-se na parede branca.

A rua onde moras, tal como tu. Outras ruas e outras gentes em ti, como uma geometria de enganos.

Rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, almofada aconchegada e o corpo pousado na memória que tenho de ti.

Aos bocados.

Surges-me já vagamente das cordilheiras dos tempos e memórias irreflectidas e no entanto ainda o teu cheiro a alfazema.

Contigo, tem de ser aos bocados.

Bocados fáceis de engolir, mastigar, saborear, porque tu moves-te entre o tenso e o quebradiço, o geral e a textura, o toque e o arrebatamento, o desgosto e a bulimia.

E o meu corpo em câmara lenta, formato digital e tu como Deusa, um eco, pontas soltas, arritmias. Os teus dedos que se enrolam nos meus, toques subtis de pernas e um desejo intenso como se um Tsunami me invadisse praia e a tua mão em concha.

Leio-te aos bocados enquanto mágicos risquinhos vêem desenhar as minhas palavras, como luz em vitral que refracta um bailado colorido.

E assim vou-te transpirando, soltando dos poros, primeiro o sorriso, depois um braço e uma perna, escoando-te apenas, aos bocados.

E tudo aos bocados. Abraços perdidos em alquimias, noites pacificadas num enrosco, a incisão na pele da tua letra miudinha, e a minha vida.

Os teus becos sem saída, sinais sem sentido, procuras incessantes, e os silêncios que também são meus, semi-breves ou quase nada.

Contigo, tem de ser aos bocados.

FORA DE TEMPO




Vinhas num balão que não era teu, abriam-te mais ou menos ar consoante lhes apetecia, num desassossego cavernoso.

Balbuciavas palavras tuas vendidas por outros e os gestos que procuravas não eram teus mas péssimas imitações.

Passavas horas no tempo que te era imposto e soluçavas lágrimas furtivas sem sal.

Foste transfusão errada de sangue, plaquetas ineficazes voos rasantes de corvos como agoiros sistemáticos.

Um tronco a ceder, mergulhado em água baça, memórias em quarto-minguante, fechado na mudez de palavras rotas.

Um fio de gente, um invólucro, bolas de fogo que cospes como se dona da verdade e uma vida irremediável. Espuma de terror que inventas por ti mesma

Hoje inteira, amanhã pela metade, pedaços de asas de anjo que oxidam no tempo.

Uma sombra fátua que te enfeita e uma profilaxia de sobredosagem que te invade num oco recanto.

O teu desdém calcinado, a tabuleta que me atiras com um “trespassa-se”, bailado de memórias assombradas coração descompassado, liofilizado e turvo.

O passar oxidante do tempo, e a violência feroz que te escorrega em palavras, por não pertenceres a lugar nenhum, habitando espaços emprestados, bafio escuro de uma cama e a luz a refractar-se em bocados partidos de azulejos.

O ar que te falta num balão que não é teu, o âmago de tudo, o trejeito de nada, e a tua mania quezilenta de tese catedrática

Habitas um mundo de cetim, enredada em mantas curtas e rotas que te destapam, num balão que não é teu, numa roupagem de um outro em cenários desmontados à pressa no teatro que inventaste, nudez de palavras rotas.

24 maio, 2010

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Reza a história que há muito, muito tempo, um Arauto do Bem pronunciou um juramento.

Afirmou, para quem o quis ouvir (e também para os outros), que queria mais empregos, uma economia crescente, um País com ideias e que seria contra, mas totalmente contra, ilhas de políticos e gestores num País tão pequeno.

Disse aquilo que todos nós, o Povo, gostamos de ouvir.

Contratou para o seu séquito, nobres afamados e alguns Bobos da Corte, para alegrar a dita.

Abrenúncio, Saramago, pé de cabra. Excomungo os maus e enlevo os bons – afirmou.

Este Cavaleiro Andante, sempre pronto a recolher bênções à esquerda e à direita, teve notórios e auspiciosos resultados na promoção e cultivo dos valores do altruísmo e solidariedade, na defesa e protecção dos fracos, necessitados e injustiçados, assim como na desmotivação, perseguição e erradicação do compadrio e das injustiças do mau-olhado.

Nunca Deus, nestas Cruzadas pelo Império deixou de inspirar tamanho Cavaleiro, de decisões tão certeiras e atinadas.
A consciência e espírito de missão levaram-no a matricular-se em cursos intensivos de construção, Inglês, politiquices bacocas e outras coisas tais, que o iriam ajudar na sua Cruzada contra os arrasadores do obscurantismo e a má-fé dos espíritos das trevas que se colocam no seu caminho.

Qual conquistador, ele lutou pela Europa, e andou perdido nas trevas, onde ainda se encontra (e não se sabe quando sai), armado de tridente, tal como São Miguel Arcanjo na luta contra os opositores.

O seu discurso de Missionário leva-o a calcorrear caminhos para pregar sermões em todas as localidades, a Norte e a Sul, mas não tem muito impacto pois a áurea está a definhar.

Sentindo-se ameaçados e acossados, os ardilosos, recalcitrantes e manhosos adversários, propalam calúnias e atoardas contra o Oráculo.

Acusam-no de não pertencer a estes domínios, mas sim a uma entidade estrangeira pois ninguém entende que só ele veja aquilo que ninguém descortina.

O seu despudor vai ao ponto de espalharem, que as verdadeiras intenções do paladino do bem, não são as que afirma nas suas intervenções, atirando-lhe à cara a aleivosia de que, por debaixo do verniz das palavras, se esconde uma figura semelhante à dos vendedores ambulantes de remédios miraculosos para os calos e outras dores.

A isto reage o Cavaleiro Andante com afinco, brandindo a espada e o tridente na defesa do seu reino, da justiça e honra ofendidas. E invoca que nada mais o deixaria satisfeito, do que elevar o seu reino a resultados surpreendentes, não procurando vantagens pessoais ou de grupo, sendo que o imperativo da verdade obriga a ir até ao fim, nunca abandonando o seu lugar.

Os seus inimigos não se comovem, nem esmorecem, antes respondem que o Missionário quer é destruir o Reino, para ditar regras e leis a seu bel-prazer.

Fazem-se alianças de modo a enfraquecê-lo e desestabilizá-lo, para gáudio do mal e inquietação do bem.

De parte, outros, confortados pelas investidas de ambos os lados, não escondem o riso, pois sabem que, se de um lado, a espada e o tridente são de plástico e fruto da imaginação, do outro a verborreia esbarra sempre na indiferença e ausência do Cavaleiro Andante.

Perante isto e alguns apartes gagos de alguns Bobos da Corte, que com as suas piruetas vão brincando às Empresas e aos Gestores, às compras e vendas e aos benefícios como quem desdobra cartas do Monopólio.

E pronto cheguei ao fim, agora que a imaginação me abençoava.

Mas também pouco mais haveria a dizer, pois nesse reino, nada mais existe e poucas noticias se conseguem obter.

Mas não julguem que este conto é para ser desacreditado, alto lá…

Então, nesse reinado cinzento e triste, mergulhado em mil tristezas, tão necessitado de heróis e santos, não interessa um Missionário, Cavaleiro, Profeta, um Arquétipo de tamanha envergadura?

Consta que vontade não faltava ao Cavaleiro Andante, sobrando-lhe crença e convicção. Impôs a si mesmo esta cruzada pelo bem e pela verdade, e a todos disse não.

- Deste reino não saio, aqui mando eu!

Venham Ministros e Governantes doutros reinos, que neste, vamos ter Scut´s, Tgv´s, travessias do Tejo, novos aeroportos e até salas de fumo na Assembleia.

Perante tal, a humildade tornou-o grande e fez dele Santo.

(Qualquer semelhança com episódios conhecidos, é apenas coincidência).



in... http://www.retratoseteatros.pt.to/

José Pedro Viegas

18 maio, 2010

Será assim que as coisas ficam ?



Dói-me o corpo e estranho-me como se estivesse fora de mim.

Por vezes um passo, um salto no vazio e nem sei se nas nuvens se no chão empedrado.

Sinto as artérias flamejantes o coração fora do sitio e um cair desamparado como se deixasse de existir.

Será assim que as coisas ficam ?
Apagamos e mais nada ?

Uma veia bulímica articula batimentos com o coração. Fantasmas envolvem-me e escutam em confissão como se um engano cósmico... os fiapos de atenção que não tenho.

Pedaços de asas abertas em atitude protectora, fazem-me sombra e seguram-me do passo seguinte. O teu corpo que chama por mim e eu como que misturado em ti.

Os meus fantasmas dançarinos e eu desafinado, rasgo a pele como rabiscos na escrita, rascunhos, traços finos por dentro de ti, pinceladas de cor no teu cinzento cortante.

Habito paredes meias entre silêncios calibrados num sorriso e palavras desgarradas, truncadas, encriptadas e incorrectas, como contornos de cordilheira, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda.

Será assim que as coisas ficam ?

Morro lento quando a noite encobre o prazer, batendo asas de saudade em abraços apertados e uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas telúricas.
Morro assim mesmo, antes que fique dia.

As palavras, tal como eu, perecem no tempo, um vazio que não se respira, uma pele sem alma na solidão dos instantes.
Os reposteiros que acolhem o sol enquanto estrangulas o sonho e desesperas por consolo que tarda na alvorada

És cúpernico, ateu, agnóstico um perímetro exterior de mim ou um beco sem saída.
Os meus fantasmas dançarinos que vagueiam por aí e me envolvem num aconchego de silêncio num bailado que se acoita nas horas mortas.

Somos geometria perfeita de enganos, cartas à moda antiga, desejos circulares e redundantes.

Será assim que as coisas ficam ?

03 maio, 2010

SIMPLESMENTE




Olhares que se cruzam e ficam na iminência do expirar do prazo, entre uma reticência e outra.

Não sei quanto vale o instante, mas sei do empecilho das palavras quando os nossos olhares se tocam.

Devolve-me o prazer do silêncio, esse que nos abraça e alcança entre risos estridentes, como só nós.
Esse que escorrega devagar pelos vidros, enquanto a chuva lá fora, chora da ausência de ti.

O teu coração conhece os detalhes do meu e juntos desatam nós e bloqueios, redescobrindo caminhos novos para o espaço entre o verbo e o canto.

Quero proteger-te de todos os Invernos, das lamas e lençóis de água, do frio, das nuvens e do pó que se atira e se mete por dentro de nós, e sentir contigo o gelo que derrete no beiral e as rãs que coaxam no charco enquanto encostas o teu rosto no meu ombro e descansas em mim para sempre.

Afago-te as feridas e os gemidos de dor nos momentos cruéis e acompanho-te o compasso dos sonhos, e encosto-me aos teus medos e anseios, conferindo-te presença.

Mapeei a minha vida nos contornos do teu corpo e deslizei no teu rosto entre beijos humedecidos e quentes.
Quanto te olho não preciso de palavras e quando te oiço não preciso da tua presença, pois tenho-te sempre em mim.

Já não te conheço apenas nos dias ímpares, mas também quando o sol se põe, ou quando afasto os teus fantasmas com a mão.
Evito os duendes que te embaraçam quando não consegues adormecer e desenho o trajecto dos teus lábios quando serenamente procuras os meus.

Vamos guardar os silêncios semibreves, enquanto nos olhamos uma e outra vez sem ponto final, quando as palavras se gastam numa alquimia de bocas, e o tempo parece infinito.

Ecos sem voz, despojos de sorrisos e o colorido das tuas palavras que resgatam paixão por cada pedaço de mim em porções de pedaços de ti.

Olhares que se cruzam entre rascunhos, sínteses e resumos, sem conjugações verbais nem advérbios de modo.

Simplesmente nós… sem reticências.

27 abril, 2010

Sopro do Porto



Ruas na cidade.

Granito solto como pedreira virada ao mundo. Espaços estreitos, ilhas desalinhadas, uma baixa com referência arquitectónica.

A turbulencia no Douro que encharca uma ribeira de peito farto e mulher cheia.
Gente que filtra outra gente, silêncios de alma, alho porro e martelinho.

Ecos de solidão, sobrevivência e um fardo na memória retirado das cictrizes que te cosem o interior.

Um cimbalino e um verde com as tripas como manda a tradição, o cabrito pelo S. João, o salto da fogueira, grupos na Baixa, na Boavista e na Foz e as luzes dos dois lados que se unem por cinco pontes marialvas e iluminam o ar de festa com o foguetório altruista.

Mascarados sem dentes, arrivistas de almas perdidas e equilibristas sem corpo. Embriaguez de alma e uma seringa que deambula no bairro do Cerco.

Ossos desalinhados enquanto trocas os Vês pelos Bês em névoas matinais e um abraço amigo que te cobre o peito e afaga o rosto.

Um sopro do Porto, na chuva que te cobre o rosto e o teu sorriso navega como barcos rabelos nas margens do Douro.

As pontes que atravessas como ligações de alma enquanto os Clérigos majestosos destacam a paisagem do Palácio de Cristal.

Evocas o Chico Fininho e a Serra do Pilar, enquanto partes de Campanhã até à Foz, e eu procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade.

Guardo segredos por ti desvendados, enquanto deslaço sentimentos que trazes a tiracolo como as fotos que tiras na casa da musica.

É este o nosso espaço, eu nos antípodas e tu insone à espreita, os teus passeios no Velasquez e um Dragão que grita vitorioso.

Curvo-me perante ti e arrepia-me os lustros e espelhos do Magestic, enquanto fui perdendo a pele e deixando o tempo no caminho.

São graniticas as ruas da cidade e vorazes amizades lá criadas, enquanto se iluminam as casas de pasto numa Sé despovoada e corremos como miudos por Santa Catarina, qual intrépidos heróis de palmo e meio.

Olho o crepúsculo num céu de meia-noite, e quero agarrar as constelações todas para te oferecer... como um sopro do Porto.

20 abril, 2010

NOS BRAÇOS DA LUA





 Era chegada a hora do baile da Lua.

Enquanto a noite se aprontava, os convidados afinavam vozes, iluminavam as suas roupas e riam do calar do silêncio.

Tocava a musica e os sapatos de verniz com calças de cetim desfilavam no firmamento.
Estrelas despontavam, enquanto o Sol já desaparecido, contorcia-se nocturno para espreitar.
Eu, ainda descalço, embriagado de cor e vazio de cerimónias, depositava uma flor na tua mão.
E… foi assim que passamos a noite... passeando o silêncio pela mão.

Naquele ponto havia longe e distância e a certeza de não mais sentir a falta… da falta que sentíamos de nós.

Existe um fio ténue, cru, incolor, mas um fio que nos liga, enquanto no baile da Lua as estrelas resplandescem e a musica convida.
Não sei a medida, nem a distância, nem se encordoado ou não, nem se tem alma ou matéria, mas sei que me prende a ti.

Sinto eternidade nestas almas que aqui habitam, encravadas num vazio oco, que me faz olhar uma e outra vez para baixo, não vá falhar-me o pé.
Estou longe de tudo e de todos, num lugar onde a alma desperta e a insónia de querer tudo e absolutamente nada, habita uma dança de emoções.

Permaneço em terra de ninguém no baile da Lua, aprumado, fervilhante de sonhos e ideias, mas sem pé, saltando ao pé-coxinho de lugar em lugar, cratera em cratera, num ritual estonteante, como estrelas que vagueiam e cometas deslizam serpenteando o céu, num infinito colorido.

Agora aqui.
Daqui a pouco, ali.
Fim ou começo? Tudo ou nada? Palco ou plateia? Sou metáfora criada por mim entre pinceladas ténues e delicadas ou firmes e dolorosas, a pastel ou carvão, a quente como se emoção fosse o meu nome… mas não é.

Momentos estes, mais-que-perfeitos, gerúndios ao entardecer entre aplausos ressoados a chuva do outro lado do Mundo, num azul profundo onde os Anjos moram e o cheiro a nós fica, presos pelo fio sem cor, dançando nas brechas da Lua, enquanto o Sol desconfiado agita raios calorosos, como se gritasse o meu nome... mas não grita.

Só a musica e o bailado...o silêncio e a espuma dos dias por contar, os sapatos de verniz, laço aprumado em camisa branca e fato assertoado.

Seremos então espectadores de uma Lua que se desnuda graciosa nos braços do oceano, desvendando a sua harmonia em tons de pérola, a rodopiar sem fim, como se o amor não terminasse nunca mais.

Que se demore sem fim, para que germine em nós um sorriso, nessa dança unica no baile da Lua.

13 abril, 2010

Sílabas e o meu jardim de Inverno



Não é tarde nem cedo, nem longe nem perto.


Tenho a voz a conjugar paixão na língua afásica dos anjos e os olhos desorbitados dentro de um perímetro que fecha um círculo onde ensaio palavras inconformadas.

Não alcanço nunca o jardim de inverno nem as palavras dos pássaros, as vozes dos anjos, nem árvores semeadas, nem os dias inclinados, como se fosse a manifestação sublime da escrita, que não atinjo.

Tento a inquietude, movimentar-me na palavra, transpor-me nela, soltar os ímpetos da mão que revigora frase.

Nunca nos ensinam a sobreviver, mandam-nos à luta e trazemos a vida inteira estampada no olhar, como as rugas dos velhos.

Caminho nesse chão que pisas, percorro o ritmo e ângulos de luz que nos povoam, e o meu medo.

Medo de não saber olhar.

Ou olhar com decalque, um plágio no olhar, abraços de mar que não dou e palavras baças que não escrevo, nem frases substanciais, porque não sei chegar a ti.

Falas coisas sem palavras, nem gestos,  numa mudez simbólica e afinal entendo tanto do que exprimes.

Não trazes manifestações nem efusões nem mil palavras ou centenas de frases, gestos intemporais, e no entanto está lá tudo,

Tu na palavra eu na escrita, nem simbiose nem superação. Recorrências de memória, precisão de bisturi.

E eu, uma ilha, um braço de mar, uma Atlântida adormecida, nem senha nem contra-senha, nem nome próprio.

Vínculos precários num festival de equinócios, arremessando ameias e sílabas, por cada olhar teu, resgatado no coração salgado de um Anjo.

O mar traz frases e gestos atirados ao vento e uma medusa que se arrasta por entre memórias, refúgio de pensamentos escondidos.

É esse o teu sentir na grafia de vogais abertas de mil sinónimos inúteis como fonética de dor.

E eu a escrever dissilábico, sem alcançar o jardim de inverno, nem palavras de pássaros ou vozes de Anjo, nem a superação sublime da escrita.

03 abril, 2010

CARA OU COROA




Desenho-te a traço carregado, como numa cirurgia reconstrutiva.

Vivo em ti, como se nascesse com febre dos fenos, pé boto, carência vitamínica ou incomodo sazonal.

Aprende-se a viver com isto, como o teu espírito colado à minha pele, a asma que me habita e a vista cansada, o meu “footing” matinal e o teu olhar que me perturba uma e outra vez.

Insistes em aparecer por entre os meus sonhos, entre frases e letras miudinhas que já não leio, e os teus sinais as tuas lembranças que já mal recordo.

Reclamas das datas que não sei, da minha cabeça no ar, dos locais onde passamos e dos beijos que demos em noites de lua cheia e dos meus sonoros uivos (nas tuas palavras).

Relevo o teu olhar matreiro e o meu constrangimento quando me apertas num arremesso de desejo violento, em poses vertiginosas como atleta olímpica em maratonas cruzadas com movimentos em paralelas assimétricas.

E apareces assim do nada nas noites sombrias de leituras nocturnas, saída do capitulo nove no terceiro parágrafo.

Sim... sei que invento estas histórias em catadupa, que de outro modo não saberia escrever, nem tu existes, nem os dias são mais dias, nem as noites mais ternurentas.

E os teus olhos aqui, entre frases ditadas por mim ao acaso, espiando cada letra, cada pontuação, terminando por mim, ponto final, parágrafo, travessão.

E escrevo para sentir, sem condicionantes, moralismos, ditames, ditados, obstáculos e preconceitos.

E tento pela escrita, numa cirurgia melodiosa como pianista erudito, ter-te para mim, sem mordaças, defesas ou carapaças.

Sei que vou acordar dentro em breve, talvez no capítulo doze, e num piscar de olhos chegamos ao fim… que há noites que são longas demais para a rapidez de um amor absoluto ou curtas consoante a lassidão de cada um,

E assim enquanto sonho, desenho-te vagarosamente como sinal premonitório, virando cara ou coroa, sem código nem senha, traço ou pintura, nem vislumbre de aurora boreal.

Será assim com cara e sem coroa que te verei, qual cirurgia reconstrutiva.

PREMIO

 Este prémio foi gentilmente oferecido pelo Blogue DIABINHOS FORA (http://aidiabo.blogspot.com/) da M M.
                  Visitem-no que vale a pena.



Devo responder a 3 questões e passar a três outros blogues que considere merecedores.

1. Por que acha que mereceu este selo?

R: Não faço ideia. Foi simpatia da Diabinhos!

2. Na sua opinião, qual o post do seu blogue que acha merecedor de um prémio?

R: Claro que os textos são diferentes e cada qual tem um trabalho de escrita e construção por trás. Não escolho nenhum em particular. Todos eles são reflexo da minha vontade e desejo de escrever.

3. Do blogue que me indicou, o que mais me agrada? Ele merecia o blog de ouro?

R: Sem dúvida que sim!  É um blogue bem trabalhado, onde sobressai maturidade e envolvência na escrita, pecando apenas por não nos brindar com mais.

E passo este prémio a.....

HEAVENLY  - http://vascotrancoso.blogspot.com/
O Vasco fotografa e escreve maravilhosamente

RETRATOS E TEATROS - http://www.retratoseteatros.pt.to/
Porque está lá o meu filho (lol) e amigos que conheço e de quem gosto,  porque eles sabem escrever e têm boas opiniões e excelentes ideias.

FIOSSOLTOS - http://fiossoltos.blogspot.com/Porque a Ana tem gestos maravilhosos e porque escreve bem, de forma simples, bonita e tem muita piada.

26 março, 2010

Quero ser a tua ultima paragem



Michael Bublé –





Sigo-te por estradas velhas, rodopios de muros debruados a musgo e saltito pedra a pedra.


Devoramos sem contemplação a vida num segundo numa volatilidade de num outro segundo estarmos fora da vida.

Tenho a noite, companheira inexpressiva, que me enaltece coordenadas de afectos pouco nebulosos, segreda-me murmúrios ao ouvido e é neste inverno febril e soturno que raramente me olhas e nunca me rateias.

Gosto mesmo assim da escuridão, da tua entrega e do abandono a que me votas. E prefiro fechar-me em concha do que espalhar o meu ser na desumana dimensão deste mundo.

E nesta saudade de ti, sou exactamente o que sou. Um mar com noites dentro. Os meus olhos contigo dentro.

Gosto da tua nudez ao luar, dos teus gritos mansinhos, do repenicar dos sinos na Torre dos Clérigos, de quando os troncos cedem nas árvores robustas, de quando os nossos olhos quase chegam, das nossas mãos que quase se tocam.

E gosto quando sei que lês os meus escritos como mapas profundos da alma.

Ou quando finges que não me vês, que não existo ou que te esqueces de mim, mesmo que te provoque intempéries e frémitos no corpo quando me olhas e me sentes.

Fazemos dueto entre a raiva e a meiguice, entre o doce e o amargo e entre beijos enrolados ao pôr-do-sol quando arrastas a minha sombra, mesmo quando nada existe.

E vejo-te em cores, em doces, em cheiros, em frases espalhadas como goticúlas num turbilhão de almas e a tua pele como rosas ao luar e olhos como águas de Maio.

Quero a tua descrição polissilabica em pontuações imperfeitas como o nosso desejo, e as tuas palavras em espiral reconfortante e quero ter-te em virgulas e pontos de exclamação e uma errata onde me detenha.

Basta-me um cruzamento de silêncios, uma análoga intensidade e uns olhos que como margens de um rio, deixam de ser paralelos.

Sei que és singular, como um barco de gestos que encalha no meu porto.
E talvez os troncos cedam no adensar da cheia na ribeira, a tua memória embacie, os nossos corpos se definam à linha e o silêncio faça eco entre nós.

E quero o mar com noites dentro e os meus olhos contigo dentro...

...para ser a tua ultima paragem...!

Medos e palhacites


Sara Tavares - Ponto de Luz
Quando criança tinha medo… medos vários.


Foi a época dos papões, das trovoadas, do “Homem-do-saco”, e das sombras, que significavam gatunos ou almas de outro mundo.

As bruxas não povoavam esses tempos, sabe-se lá, se por falta de vassoura, ou de olhos de morcego.

Mas por vezes juntavam-se “à festa” umas fadas e duendes com varinhas mágicas, que faziam estacionar na minha garagem, os melhores e mais belos carros, e as loiraças espampanantes acocoradas nas jantes dos bólides... (sem abóbora, claro).

Embrulhava-me em lençóis e deixava uma luz de presença acesa e não dormia enquanto não verificava se a clarabóia estava fechada e se nenhuma sombra estava para me incomodar.

Fechava a porta do quarto e ficava com um olho aberto fora dos lençóis a verificar se através das frinchas alguma aranha penetrava, ou se pela fechadura entrava o Gigante.

Lia Patinhas e Asterix e fixava-me na aldeia dos Gauleses e na poção mágica que sabia um dia me iria salvar...

Surgiram entretanto outros medos.

O medo das falhas, dos aviões, do Pinóquio, tinha medo das mentiras dele e se as mentiras de criança podiam proporcionar nariz avantajado...de centopeias e de bruxas... algumas bruxas.

Fui ultrapassando, melhor ou pior esses medos e traumas e fixava o olhar nas águas frias do mar para aferir da minha dose de loucura.

Já me vi em frente do espelho a fazer caretas, a cantarolar imitando Piazzolla, a falar em conferências, a decorar trechos com e sem apetrechos, a dar saltos no escuro a pensar no passo em frente do abismo.

Já me passaram vidas e mortes, nascimentos e torturados pela Pide, doenças, loucos, bruxas e espantalhos, ladrões e alecrins, gaiteiros e sirigaitas e até pseudo-fantasmas em esquinas típicas de bairros atípicos.

Loucos com visibilidade externa e malucos inertes, e palhaços acobardados em risos estridentes cobertos de máscaras de alguém.

E são estes que ainda me arrepiam... os palhaços encobertos, artistas de palco sem poiso nem lugar, saltimbancos da vida, aristocratas sem pele, doutores de tudo e engenheiros de nada, imbecis de antanho.

Por isso, ainda hoje, espreito pelas frinchas e fechaduras, fecho portas a sete-chaves e trato de me tapar, antes que seja acometido de alguma “palhacite”, ou atacado por algum desses passantes.

Esses medos ainda conservo... e é trauma, claro que é.

18 março, 2010

De regresso às estrelas...!


Coldplay - I'm goin' back to the start

Olhei de cima a inquietude dos tempos.
Desabitado em mim, minuciosamente localizo os demais.

Interrogo-me se ainda é a essência do que senti. A tua voz que mudava se não me chegavam palavras e os meus olhos que cegavam se não te via nos meus.

Os teus quadros pintados a contraluz e a minha silhueta que adivinhavas como a memória de um cheiro.
Guardo os segredos por ti desvendados enquanto uma ave debica pão num beirado.

Gostava de me transformar de novo em humano, ter cãibras quando te marco posição, a sede que mato com beijos molhados e disseco Fernando Pessoa num heterónimo estranho.

Hoje o espaço em nós não é mais matéria, nem deslumbre, nem sonho ou sensação, já não me negas noites nem me despes a pele nem te afastas triunfante.

Mas há um espaço solto no tempo, para devorarmos sorvete de morango e chocolate preto e trocarmos dedos de arrepio em afagos sedosos, enquanto os teus lábios se inquietam nos meus e me chega à memória o sedoso da tua pele.

Tão perto e tão longe que nem sei se te posso tocar…

E eu, descalço num desconcerto em mim, pedinte de horas turvas, faminto receoso do teu estado de solidez rochosa.

E já sem espaço, nem luz, nem cheiro, nem riso ou choro, canto ou assobio, sem a letra na carta escrita e esquecida na mesa de apoio, onde enlaçava a tua presença, quando apressada me beijavas, uma e outra vez.

Essas cartas com letra difusa que me provavam que existias para lá de mim e dos meus sonhos.

Funesta quimera, angústia sem fim, uma perda sem limites e frases soltas no caminho como pedras atiradas num desejo de eternidade como segredos que me contaste.

E assim me dissolvo em partículas de céu, reciclado para outro tempo, onde resvalo para dentro de ti e vou lendo na encruzilhada do teu corpo pedaços de cartas que me deixaste,

E aí… talvez aí… escreva o livro desejado, agora também em contraluz, como os quadros de “Gauguin”.

10 março, 2010

Ave migratória


Robbie Williams - She´s the one

Por vezes delicada, outras vezes àspera, voavas em circulos, dissecando a minha artéria femoral.


Amor nos braços de um táxi, nas profundezas das piscinas, pontões de praias interditas, areias escaldantes de mares entrecortados com rochas de esperança, salas de cinema de fim de tarde, sofrimentos como lugar comum e par na sorte.

Uma lua que espreita como alcoviteira privativa e eles escondidos na pele fingindo apagar estrelas naquele jeito-sem-jeito de namorados inquietos.

Tentaram o pote de ouro na cauda do arco-íris e em cada cor um beijo...em cada beijo uma cor.

Estavam pelos vinte e viviam no limbo dos paraísos ocasionais numa urgência de felicidade que os salpicava.
Andavam ao arrepio dos humores numa cidade com luz, embriagada em tinto carrascão e castanha assada em cones de jornal amarelecido.

E os meus ciúmes de meio metro por metro quadrado por tudo o que era espaço, ciúmes de tudo o que rodeia mesmo nas voltas matemáticas e posturas fisico-quânticas que trazias da faculdade.

Adorava os gestos estudados e o sotaque que me atiravas em dueto e com um gesto tórrido fechavas-me os olhos empurrando língua, selando lábios como uma modista em três alinhavos e duas molas pregadeiras.

Mendigos de côdea rala, passamos a dormir em constelações diferentes e vagueavamos pé ante pé com espaços no pensamento.

O teu decote na blusa sem mangas, as sandálias de tiras modernas e o calor do corpo que brota a espaços e a minha alma em sobressalto.
E nessa cave imensa onde cabe a solidão, nos lugares recônditos e escuros, plantavas orquideas e rosáceas, deixando propagar o perfume para os quatros cantos do coração.

Embalavas-me sentidos como quem coloca um selo vagaroso em carta aberta e resvalavas palavras que me sobem no corpo em jeito teatral como encantador de serpentes
E eterno apaixonado queria sentir-te em qualquer lufada de ar fresco, em qualquer nuvem por qualquer sol, plantando o meu amor na tua tez esbranquiçada devolvendo-me a capacidade de atentar nos detalhes do traço incerto da minha escrita ténue.

Inquieto, aguardava que me retorquisses palavras adocicadas com incisão na pele devolvendo-me o prazer do silêncio.
Trazes-me assim em estado liquido e aguardo desde então que um qualquer oráculo te envie de novo para mim.

És uma ave migratória.

28 fevereiro, 2010

Café sem principio…!





Café sem principio…!

Digamos que achei piada ao termo.
Até gosto de café-pingado, mas não sabia de um “café sem princípio”…

A Avó-velha que me conhecia bem, mesmo despido de palavras.
O meu Avô, típico Almirante, alto, charmoso, voz forte e colocada, altivo e um doce de sorriso nos lábios, uma pessoa de poema completo e não apenas estrofe.
Homem de poesia e de musica. Tamborilava os dedos em permanente ressonância musical que nos embalava. Às vezes, dou por mim nesse tamborilar herdado da natureza.

A vizinha Alice e o marido que coxeava.
Ela perfeitinha dos artelhos, mas como-quem-anda-com-um-coxo-ao-fim-de-três-dias-coxeia, Alice, passados anos, saltava de pé para pé, ziguezagueando.
Tenho para mim que esta atitude era solidariedade num apoio cambaleante entre a paixão que os unia.

A zona onde morava era bem frequentada, pese o “café dos índios” de funcionários com cara de pica-miolos, besuntos trauliteiros e mal formados, vocacionados para almas penadas, cães que ladravam sem caravana, mulheres-da-vida e o castanheiro do Sr. Chico, figura contemplativa, com casa nas traseiras do café.
Eles, o castanheiro e o Sr Chico, velhos como carcaças.

Um tempo monocromático, e eu em estação diluviana a caminho do Liceu Alexandre Herculano, num passo gota a gota, como se lavasse a alma, e a minha Avó-velha e os apelos atirados como chamamento.
- “Zé Pedrinho, tens aqui um chocolatinho…”
Vibrava-me o interior numa zanga estridente, baixando a cabeça, escondendo a gulodice.
E esta voz que não sai de mim, esta imagem que se mantém vida fora.
A minha Avó e os chocolates, a “sopa fresca” recheada de couve que ficava a ferver enquanto percorria o espaço entre a escola primária e a sua casa.
Um cheiro intenso, fresco, perfumado, apetitoso, ainda hoje no ar quando circundo aquela rua.

E aqui onde sonho, onde penso, onde dilato pupilas e relembro, chás de casca de cebola, uvas em cesto de vime vindas de comboio, do “Larinho-Caramulo”, da terra da minha “Avó-da-América”.

Os meus cromos guardados em lata, cola feita de farinha e os botões dos jogos do meu irmão atirados contra caixas de fósforo como balizas.
Uma caixa ao lado da máquina de costura Singer, os trovões no sótão e a clarabóia que reluzia, relâmpagos que respeito mas não me amedrontam.

A Avó-velha e as amigas no café, bolos-de-arroz e as bocas que salivavam do doce, misturadas com conversas das doenças mais-do-que-tu, num dado para definir que a D. Graça tinha mais doenças que a minha Avó, que por sua vez acumulava mais que a D. Alice e esta mais que a D. Elvira.
Tudo junto, daria umas centenas largas de horas de tratamentos indefectíveis e nefastos para o sistema nacional de saúde.

A minha Avó-velha e a companhia inestimável dos seus objectos.
Um xaile negro bordado, lindo, como uma rainha que transporta a sua coroa.
Pedia normalmente um café sem princípio mas cheio, para preencher os espaços vazios.
Os dela e os dos outros.
E era nestas tardes em que me via pelo vidro do café, que me chamava para o chocolatinho e moedas para comprar carrinhos da “matchbox” ou algodão doce nas festas de Sta Clara da Igreja do Bonfim, entre pregoeiros de banha da cobra e, leva-seis- peças-pelo-preço-de-uma-que-à-meia-dúzia-é-mais-barato.

Sei das palavras confusas dos meus sonhos, a trança de sons que embalo enquanto dormes e não envelhecemos.
Viveremos numa concha, só nossa, enroscados em xailes pretos bordados de rainha, sem latitude nem longitude, uma rábula na mais imperfeita fábula e a tua paz que acordei por instantes sem a trombeta do final dos tempos

Este é o nosso café sem princípio, mas cheio… para preencher os espaços vazios.

19 fevereiro, 2010

Touch Me...!




Ventos que embalam folhas numa brisa, luxúria esquecida no silêncio instalado.
Um corpo translúcido de alma e uma dança sem fim.
Lê e relê todas as cartas, faz parêntesis nos toques que não me deste e nos beijos que pensaste possível.

Escuta as vozes que te gritam encerradas em bocas como masmorras, e embrulha-te na madrugada, sons de trinados repletos de poesia que ecoam em ti.

Arrasta-me o corpo e reparte-me em pedaços.
Conserva o teu olhar discreto, os lábios carmesim e um doce sabor de morango como a elipse da vida.
Sossega a verve na tua exaltação interior, por dias que se subtraem e noites que se prolongam.
Fotografa-me a alma, arquitecta planos infinitos nos corpos que se inquietam e um chá morno no lugar defronte do teu… que era o meu.

Toca-me e não me craves adagas no peito como quem solta um lamento, tormento de palavras cruas, olhares cristalinos, desejos eternizados e forcep´s que afastam feridas por dentro de ti, dos desvarios que a mente sustenta.

Nada disto faz sentido, agora que já não estou.
Mas lê e relê todas as cartas, identifica conversas, imagina e interpreta gestos, sons e imagens, o amor que não foi entregue em boiões de ovos-moles, historias cortadas a espaços em estrofes desconexas dos meus versos.

Parti para outra eternidade… dizem alguns.
E esse teu corpo que poisa sem me tocar e a ausência do abismo de calor, meridianos na boca como mares frenéticos nas comissuras dos lábios que me afogam.
Tocas-me de olhos fechados, imprimes-me em folhas A4, deslizas pinturas na pele e luas de prata, adicionando rotas aos percursos impróprios para me chegar.

Escuta a alma, sente o correr do sangue nas veias, alicerça razões e escreve sem cessar, esgotando palavras, escurecendo cadernos, e expõe como Dali e Degas.

Aqui chegados a lugar nenhum, no meio do nada, lugar aprazível onde me encontro, sentirás o meu cheiro e sabor, espírito vagabundo.

E devagar, devagarinho, não perturbando, de mansinho, sentirás a pele que ainda arde, depois de fugir do teu mundo, sem alarde.

10 fevereiro, 2010

Just Like... Heaven




Katie Melua - Just like heaven


Preciso de te sentir, saber que estás por aí, como estás por aqui.

Das tuas mãos que me tocam, o teu cheiro que me embriaga e o teu beijo que me adoça a boca sem mais não.
Preciso deste espaço só meu e dos teus lábios que me percorrem, o teu azul que me invade e o meu escorregar por dentro de ti.

Alguém disse que apenas a pureza dos teus olhos bastará.
Mas eu quero mais, muito mais. Ver-te dentro deles, espreitar labirintos mágicos, fazer desse globo o meu mundo e espraiar-me nos raios vermelhos que te enlaçam.

Talvez venha a ter asas e voarei na imensidão do arco-íris voltando para te ter de novo e os dedos que me envolvem, o beijo que me aquece o corpo, o inebriante perfume, o toque sedoso da pele, as minhas lágrimas cortadas e o teu sorriso que me ajuda a escrever por dentro da alma.

Preciso de voar na direcção do infinito, esquartejar nuvens, abrir a humidade de par em par, sentir o cheiro das estrelas, romper a lua, ser recolhido em Marte e dançar nas asas do desejo.

Quero ter-te em mim
Ouvir o sopro do vento, o arrulhar dos pombos, a maré que se espraia e vagueia no teu corpo de sereia

Quero respirar-te devagar, uma e outra vez, fazer bolinhas de sabão, jogar à macaca e ao eixo, saltar à corda, perder o autocarro das sete, apanhar a roupa do fantasma que nos envolve, ser salvo ao terceiro gongo, redimir-me em pedaços, ter-te em excesso e ser a tua ultima paragem.

Um dia, com ou sem asas, despeço-me das palavras e morro em ti

Um dia ilustro um texto teu...!



Santana – samba pa ti



Um dia ilustro um texto teu

O sorriso do meu Avô que pouco vi, mas fixei. Os olhos do meu Pai, uma ternura de céu, e eu desatado em nós incompletos, rasgados, desfeitos.

E no entanto gosto de te ler…

“ Vivo o que escreves...é como se estivesse lá”.

…e eu, sim, ando por lá. Ou por aí.

Quantas vezes nem ando, nem sei de mim.
Pouco me sinto e dói-me a alma, absorvido pelo rés-do-chão da vida.

E desligo, construo castelos, onde permito poucas entradas, e enquanto aí, sou feliz.

E a incógnita do que sai e sobra de cada texto redobra a magia do que fazes, o que inquieta as almas enquanto imagino o porquê daquela palavra, daquela frase, o destino da mensagem (como se houvesse destino ou porquê…).

Um dia ilustro um texto teu…

Não sei se teu, vivido por ti, se inventado, se conheces alguém assim.
E quando o próximo chega… diferente, mas sem descodificador, misterioso e mágico.
E tudo continua como num filme, cujo fim fica em “aberto”.

Será o que tu quiseres, o que eu quiser, o que os leitores quiserem, e eis que de repente também me vejo escritor na tentativa de um fim que não encontro, quando apenas o vou ilustrar.

É verdade que sim, que me desligo. Nunca sei quando e nem sequer lhe noto o princípio. Vou ficando por aí sem luz, descalço nas trevas.
Um dia, falo menos… outro, menos ainda. E retiro-me na direcção da concha.

Não é importante se foi naquele momento, é apenas um processo que se retoma, sem espaço nem invasão. Porque nada existe ali. Apenas palavras, apenas frases, sentimentos que correm, também eles descalços, também eles aos pedaços.

E de repente ressurjo com mais luz, depois de obras interiores, mais vivo e mais intenso.
Interruptores silenciosos e um equilíbrio vivido a mil e mantido por extremos.

Um dia ilustro um texto teu…

Sem esqueletos nem gritos, nem medo das noites silenciosas, absolvo-te em confissão, tiro o excesso de bagagem que lanças na escrita e afugento bandos de corvos que te cercam, enquanto os dedos percorrem as folhas brancas ou cadernos de Moleskine.

E vou-te lendo para te ilustrar e tendo-te em mim a três-quartos como o sorriso do meu Avô que mal recordo, mas fixei, e os olhos doces do meu Pai que perduram na memória, como os meus sonhos na acidez do silêncio.

Um dia ilustro um texto teu!



06 fevereiro, 2010

Na Viela da Saudade...




Na viela da saudade.


Uma rua como tantas outras, uma esquina como outras, semblantes vagueiam entre caixotes e beatas já fumadas.
A viela da saudade é o vazadouro dos inquietos.
Restos de gente sem prazo de validade, atirados como pedaço de qualquer coisa nos corredores ensonados de soporíferos.

Olhares perdidos flutuavam na janela do segundo piso, Marcianos, Plebeus, Reis, Deus, Anti-cristo, Cientista, Napoleão, de tudo existe no aconchego da nádega dada à seringa ao copo plástico três quartos de água e bolinhas brancas como comprimidos.

Evadidos dos próprios, quebrando correntes e historias de pasmo, baloiçando suavemente dentro deles.
Raramente recordam sonhos, fantasiam-nos.
Gente que não se vê gente... mas que se sente.
Empalhados sequiosos, etiquetados com prozac´s de cabeça feita vento, trauteando cenários dantescos com premonição assustadora.
Dilúvios de jovens arrancados à vida, indolentes sonhadores, poetas de marfim, escritores de ocasião, declamadores.
Cabeças rapadas, batas como mortalhas e bocas sem dentição, vazios de palavras e débeis de ideias.

E… dois e dois são quatro, três vezes nove vinte e sete.
- Doutor, uma moedinha por um pão?
Tamborilho os nós dos dedos e a cicatriz que lhe cobre a testa, mais saliente.

Aguardo sempre um novo respirar… perde Inverno e Primavera, já não toca no tronco velho, faltam as forças, espalhadas na bandeja com a água e a ração diária.
São borboletas num casulo, e contrariamente têm serenidade intemporal, como se vivessem e preferissem assim.

O tempo é a desculpa inevitável, atar a alma a algo incerto.
O casulo da borboleta, o comprimido no copo pela metade, os olhares perdidos e flutuantes, um suspiro sem prazo de validade, na viela da saudade.