Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

Da minha varanda vejo o rio...!

Saíamos ao som de todas as musicas e baralhávamo-nos a descompasso, agarrados pele na pele, mão na mão e línguas tocadas como melodias de Bach.

Esbarramos nas esquinas do passado e enfrentamos dolorosamente os trajectos do futuro.
Faço vénias à tua presença em mim, repiso os teus passos, e busco a alma em labirintos traçados a régua e esquadro, pensados ao pormenor, para nos perdermos, inquietos amantes.

O calor do teu corpo no vidro da janela, o sopro no coração que me repela, e ecos de desejo como restos de beijos ao desbarato que deixamos impregnados em nós.

Não adormeço nos teus braços mas ancoro a minha existência no teu porto de abrigo enquanto sonho vigílias da tua ausência.

Da minha varanda vejo o rio.
Barcos ancorados como pranto de criança, rastos de sonhos, e as nossas unhas espetadas arranhando ao de leve na franja do estuário, enquanto gaivotas esvoaçam, trazendo acoplados recadinhos de anúncios em escapadelas de beijos e abraços.

Tenho-te como música enquanto baloiça…

No teu livro, uma linha.

Havia pão acabado de cozer no forno a lenha, tijelas de marmelada na varanda e compotas em cima da mesa.

A lua boiava no céu, o sol espreitava atrevido, o sino tocava e o adro da igreja enchia como domingo.
Mantive os portões abertos, os muros cobertos de heras e o brilho da tua pele franqueava-me um sorriso.

A tua parcimónia de palavras, o teu rosto que se fechava, o conhaque no meu copo aquecido. E no entanto, as mãos dadas, o teu perfume, o gato persa nas tuas pernas o meu ronronar em ti e nem um afago.
O teu afago simples, sensível, vertiginoso em mim.

E eu no teu livro apenas uma linha.
Nem um capítulo, nem uma vírgula, apenas uma linha.

Refugio-me em escapatórias e um raio oblíquo de sol empastela-me, salpicando-me os olhos de lágrimas furtivas.

E vinha nas análises, que me circulas nas veias, enquanto taquicardias evitam correrias extremas por entre a bílis que segregas.
Preciso de me desmontar e reciclar, e adensar com picaretas, cimento armado, areias e marfins, numa re…

PEDAÇO DE ALMA

Às vezes a bruma sobe pelo rio e o outro lado desaparece levando com ele barcos ancorados e gente dispersa.

A ponte deixa-se ficar e espraia-se por entre telhados enquanto o comboio vagaroso sublinha reticências, na esperança de chegar ao fim.

Os rabelos dormem pachorrentos e a falésia cor de barro agita as gentes dos guindais.

Um homem gordo de bexigas e ar altaneiro a vociferar, deslumbrado com as miúdas galopantes, tipo ardósia aos guinchos que desaguam pelas vielas.
Ele tisnado, lençinho ao pescoço, cachucho no dedo mindinho e os suores alagados na base da testa.

E nisso, o teu estendal de roupa com molas cores de fruta e o som da cidade a descompasso.
Flashes do presente, sonhos do passado, os mesmos passos em labirinto sem saída.

Os gatafunhos que te lia, o caderno quadriculado com um piano de cauda desenhado, a tua mão destreinada e os tremores que já na altura te agitavam corpo e alma.

As tuas pálpebras caídas sobre o meu rosto cansado, salpicam promessas, enquanto estir…

ILUSÃO

Passamos o tempo “ocupados” com pequenos nadas, frenético consumo, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar, carros topo de gama estacionados, roupas de marca, festas e festarolas, conversas de ocasião,

Passam por nós, novos e velhos, desenganados e coitados, cabisbaixos e sujos, melancólicos e doentes, gente de um tempo perdido, numa crueldade que o tempo marcou, indiferentes pela vida, sem sonhos nem fantasias nem esperança no futuro, vegetando em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho, passando e cruzando o nosso caminho, que evitamos a destempo, e saltamos de apeadeiro em apeadeiro enchendo a memória e o olhar, despejando na estação próxima, enquanto no vagão da vida saltam lágrimas em rosto de criança a quem foi prometido um mundo… e deram… nada.

E estendem-nos a mão de conveniência, numa catarse mitigada, sociedade travestida e vazia de valores, tão repleta de indifere…

UMA FOTO

As ruas estão vazias, a aldeia só tem velhos, as crianças não choram, na calçada, quase não há cães.
O musgo acumula-se nas paredes e falta vida neste espaço, temos apenas o tom sépia do tempo.

O meu Pai e a gabardina bege, olhos azuis, perfil estático e imponente, um anjo equilibrado dos dois lados da vida. A cortina que afastamos da janela, uma réstia de sol.

Tu pequenina montada num cavalinho de pau, eu no jogo da bola às vezes perdido entre ramagens.
Já não reconheço paisagem, a Lagoa esbraceja e forma correntes diferentes. A “aberta” mudou de lugar e afeiçoa-se aos novos métodos.
Estranho as correntes, como por vezes me estranho a mim, perfeito solitário no interior da alma.

Não gosto de te olhar quando muda a hora ou o lusco-fusco nos entra pele e olhos, nem gosto dos dias curtos e da indiferença do meu caminhar em ti.

Já não nos alimentamos de rebuçados de amor nem chocolates de paixão, mas sei que nos dias pares te adoro e nos ímpares te duvido e sei da minha inconsciência…

O meu violino

O meu violino, a musica e o meu anjo-da-guarda,
tudo encorpado e palavras dengosas.
Este meu pranto sem vontade, este sono que não durmo, esta água que não bebo
e esta morte tão perto que a cheiro.

O meu violino.
Esta musica que me povoa e agita e me confunde entre os sons o sono e a memória.
O arrastar do meu corpo para a sombra e esta alma sem sentido.

O meu desdém calcinado, a tabuleta que trago espetada em mim – trespassa-se – o meu corpo sem alinho nem prumo nem remendos.
Esse som que me arrasta, que me traz de novo, que ressuscita uma mente estúpida e povoada de imbecilidades.

O meu violino e tu, e eu aos poucos, desperto, atento, menos surdo, redimido e absolvido em confissão.

Liofilizo-me, vibro com oboés e flautas de bisel, sons no coração espetados com alfinete bebé.

Desempoeiro a alma, dois caminhos sem sentido, um sentido único.
Desconhecimento bíblico, ideia peregrina de sinfonias numa implosão enunciada.

O meu violino que derrapa acordes rateados e o meu pass…

Esboços

Esboços de memória.
O Sol pintado com um sorriso aberto, uma árvore com frutos e um verde a espraiar-se.
Uma bicicleta, duas rodas dezoito, o mar em ondas, uma expressão estética mal conseguida.
Nunca faço a lápis sempre a tinta, e contorno, modifico, e renovo a textura.
Salto entre sofá e mesa e de novo sofá, numa inquietação sofrida, leis misteriosas do meu corpo.

Quantas vezes soluços de cuco, saídos da portinhola interior. Gemidos como corda acabada de dar no relógio.
Na minha memória um piano de cauda, sons do mesmo, os meus dedos que fervem no dedilhar constante.

Caíste-me num beijo pintado em tons de azul e eu absorvido por ti, nem me dei conta do tempo em que estive.
É a tua sombra que me persegue, laivos fugazes do que foste.
Tenho espaços vazios por preencher e receio da falta de ar ou da sobredosagem, que possa vir.

Deixo a alma, frases, e pele por entre espaços.
Fisgadas nos pássaros, corridas de carros de rolamento avenida abaixo, calções rasgados, memórias dependurad…

DOURO

Range metal sobre metal numa chiadeira estridente.
Prolongamento de memórias, nostalgia e deslumbramento, suspiros nas curvas apertadas.
A canícula que desaperta os ossos, a encosta da serra, telhados românticos, árvores que cercam o casario, videiras entrelaçadas.

Sombras de nuvens, fantasmas que se demoram em cada traço do caminho que percorres.
A incessante criatura sem rosto que vislumbras ao longe no socalco, imergindo do verde da planície, um caos ilógico na arrumação dos campos.

E tu como relógio, mostradores inquietos, ponteiros pontiagudos como a verve que evaporas boca fora.

Sons do tempo, enevoado e frio, folhas de árvores que se riem a cada passo teu.
A tua sombra do lado esquerdo de encontro ao muro, esmagada de encontro ao muro.
Piadinha entre folhas, risinhos histéricos e a árvore frondosa que as manda calar.

Já falaste com alguma árvore?

A subida da colina serpenteante, carregando um calvário completo. Um remorso vivo, como a dor.
A dor e uma árvore sem galhos, nem …

O teu feitiço

O teu segredo… a meiguice sem medida, o destempero em que te soltas, jorro de afectos sem espera.
Alquimia na tua pele que entendo como obra do “Demo” tal a inquietação que provoca. Tanto me tira o ar como me solta o riso.

O teu feitiço
Esse arrastar de mãos, suave e ardente como conhaque velho.
Palavras quebradiças, resignadas à sorte que lhes caberá.

Esgueiras-te entre brechas como refúgio
Afasto-me de mim tantas vezes e observo-me ao longe como Rembrandt os quadros inacabados.

As assistolias, um suporte de vida, apito agudo constante, linha ténue marcando a partida, o sopro final e eis que tropeço no teu olhar e desperto para a vida num trago.

Colo-te palavra por palavra, gesto por gesto, pedaços de corpo em corpo de mulher, o teu feitiço.

Não, não és tu que me baralhas, sou eu que me confundo nesta geometria perfeita de enganos, naufrágio de constelações inteiras.

O teu segredo em ritmos pachorrentos, circuitos entre vielas antigas, a nossa casa de madeira em Hoshinoya /Quioto, …

Do I look Alright?

As tuas brincadeiras de criança.

A necessidade que tenho de te puxar “às cordas”, para te abocanhar atenção.
Sempre a tua partitura interior, distraída, um franzir de testa, risquinhos marcados como ondas irrepetíveis.

A minha mão direita na tua calça de ganga, marcada, rasgada e o meu peito no teu e um beijo enregelado, tacteado como cego no teu interior.

A minha boca em espera, ainda.
Beijos de ontem, na espera.

Do I look alright?

E roubo-te aos bocados.
Com as duas mãos, enrolada na ponta dos dedos amassada ao teu desnorte, fundida em mim.
Gestos nos gestos que a mão faz sem contar.
Perímetros em subtracção, volteando corpo, escondida no olhar
Dedos de pintora, modeladora, alquimista da alma,

Fechadura e torniquete no coração, ventos de luz e um dobrar de pálpebras

Conto as palavras que te digo para não exagerar, nem a mais nem a menos.

As minhas mãos que não chegam para tanto de ti, luzes que não se acendem e os fantasmas que nos habitam, que nos acorrentam, que nos secam fer…

VERGONHAS

Manténs o riso rasteiro a valsar na tua boca envergonhada, enquanto olhas o chão e ruborizas vergonhas como puto mimado.

Estás como que gasto, um amor velho e desmazelado.
Cheio de lamechices, olhos sem auspícios de cama, apenas um franzir de sobrolho que te sobra na memória.

Vejo-te sem mundo, magoado, engelhado, sem pele nem cor dominante onde te agarre interesse, pálpebras caídas, arrepiado.

Pede-se magia, um truque de feira, pomada milagrosa, uma corrida no poço da morte.
Enrola e desenrola, levanta o queixo e aspira saúde, faz a barba a três quartos, espalha rubores pela cara e açoita esse animal.

Ronrona baixinho e compõe geometrias enquanto arqueias papa-léguas e te mostras felino quando os pelos se eriçam.
Faz-te animal bravio, sapato desemparelhado, cueca solta e um fantasma que te habita a espaços.
Abre-te de espanto, liquida silêncios e palavras meias, calibra o riso e o acento tónico, toca polegares no corpo dela e abala-lhe os sentidos.

Fica alerta com punhal afiado, m…

Memórias

Tenho cinco anos e o meu Avô morreu.
Deitado, despede-se da família, a minha mãe no seu braço, e o silêncio respeitoso por quem parte.
Olho por cima do ombro da minha vista, um suspiro que ninguém ouve, um bater de porta, sapatos de verniz que me alcançam.
A minha avó num movimento estranho, o grito suspenso, a bênção Tio e o anel de família no topo do mundo.

Folhas que abanam o quintal da casa, um som de fundo indefinível, as vozes que se misturavam até não parecerem mais vozes. As que se aproximavam, as que se afastavam.

Os choros contidos, os mais soltos, assim juntos numa melodia, até não serem mais tristeza ou perda, mágoa ou queixume, sequer arrependimento ou culpa.
Não era nenhum e contudo, todos simultaneamente.

Os homens afastavam-se depois de semearem mais diálogos fortuitos, as mulheres de negro junto ao chão da terra revolta em esgar de dor.

O miúdo preferiu adormecer. Sonhar amanhã e imaginar como ontem.
Pés em filas de passos desnecessários, curvas na memória e os di…

Já é tarde

Podes até ler na palma da mão, nas linhas da vida e do destino.
Podes querer apenas a cumplicidade dos caminhos, os sorrisos que se cruzam, os teus projectos, as idas e voltas em viagens soalheiras os encontros confidentes que nada trazem.

Podes até dizer-me do novo amor, do encontro/reencontro, dos beijos sabor a sal e saber dos meus neurónios e o que valem.
Podes repetir até dez vezes que o tens como teu até desoras aflitas e nocturnos encantos.

Podes confidenciar-me não ser esta a tua praia, o teu lençol de linho, mas esmagas novidades e sorrisos de felicidade em mim, como percorres caminhos tortuosos e saltas entre nuvens ao meu encontro.

Podes falar-me do teu atraso menstrual, do que ele te confessou, das palavras mal geridas, do olhar dos teus pais e da tua imagem ao espelho.
Podes avançar três casas e recuar quatro no Monopólio entre avenidas, ruas desertas e lojas sem decorador.
Podes retalhar cada pedaço teu na procura da verdade em cada pedaço dele, mas sentes que encon…

"Amo-te Maria"

Tens pirateado as emoções e eu, um rancor que me enrola a pele e me faz liquido em combustão a gerir a saudade e o desejo.

Eu sou mais que isso.
O grito que abafo, a mão que protege, o peito que te ampara e o musculo que te absorve.

As plantas, tal como tu, deviam falar. O Sol também. O Mar devia dar opinião, tal como a chuva e o vento. E nós calados, a escutar a reclamação das marés.

No entanto apenas a sombra de uma voz. E o teu sorriso.
Basta sorrires para ser verão.

Mesmo que não cheguem as férias, mesmo que a Cotovia não cante, mesmo que a árvore seque.

No entanto é o teu sorriso que me afasta dos dias amargos, dos relógios gordos, arrebitados, muito gorduchinhos como o Sol ou meia-lua.
E as horas que passam e o Cuco que não sai da gaiola.
As badaladas da Torre dos Clérigos, o raio de Sol que ilumina o Templo de Diana, o teu sorriso na Madragoa com vestes de Santo António.

Tanta gente e no fundo, gente nenhuma.
Nas paredes do Metro, “Amo-te Maria”.
Na parede o spray, conta-…

Mesmo aqui ao lado

Estou mesmo ao teu lado.

Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela
cintura adelgaçante. Salta a culpa, esquiva-te da indecisão e solta o
riso que me acolhe.

Não ligues ao vizinho do lado, que rosna a cada bater de porta, nem ao cheiro a fritos do
óleo-três-semanas nas bifanas do Quim-Zé.

Preparo as entradas e ponho a mesa de copo de tinto na mão, encontro de dedos,
o teu queixo, um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca.

Já não tenho jeito para parágrafos nem interrogações. Sou mais linhas curvas, sílabas tónicas
e a tua indiferença que me reduz a pó.

Nunca entendi essa partilha de beijos não trocados, de abraços esquecidos,
e as águas de Abril reluzentes nas poças do caminho.

Sabes-me como colheradas de rícino nas veias latejantes em silêncio murmurado.

Sou invólucro do que já fui, palavras que me escapam entre os dedos,
fogem a sete-pés, e sete palmos de terra que me acolherão lábios
cerrados à força do riso por mim escondido nas par…
Já nada me surpreende em ti, nem nas árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular.


Esta onde moro tem nome de gaja, cotovelo curto na encosta. Estatuas fálicas, igrejas grandes, e um tipo qualquer que já morreu e nunca morou aqui.

Despejam gente no arraial da aldeia, farinha frita e filhós, açúcar em carradas de farturas e barrigas inchadas dos achaques da cerveja.

Frios cinzentos de “néons”, almas esquecidas vagueando na correnteza esboroada do prédio de arquitectura mortuária.

A senhora gorda, papuda, de mão na testa como medidor altímetro, e o seu mais que tudo em contornos de corpo arqueando braços e mãos, despejando salinas de suor no vestido carmim, volteando o jornal num aconchego de corpo.

Ruídos timoratos de garotos no alcance da passarada e um sapato desemparelhado em bêbedo de virilhas molhadas e ombros caídos num desdém.

Arrota pelintra a três-quartos, no caminho do jogo da bola, barba por fazer, cançonetismo pimba atirado em doze cordas numa espiral d…

HOW WONDERFUL YOU ARE

Atiras com palavras mescladas de sentimentos, em cada nó que em si deslaça, rastro perfumado do teu corpo musical.


A tua língua húmida e um corpo, deserto de mim
Boca forrada de palavras e a culpa do silêncio que me dói, na incerteza de qualquer verdade

Vives reticências cirúrgicas e o nó górdio que impões reflexamente, impedem o alcance desejado.
Cozo-te carne e pele, ato-te a mim e espalho “post-it´s” coloridos no embaraço que sentes quando me tens.

Tento alquimias e feitiços, rezas, bruxarias e candomblé, hologramas de penitências entre Deus e o Divino

Apeteces-me sem protocolos nem palavras vãs, prazos de validade ou preconceito.
E instalas o inferno em ti quando ausente de mim.

Fecho-me em concha, na protecção dos Invernos, marés intensas e lua cheia. Afago as feridas que me deixas com cremes, pinças e algodões.

Guardo os silêncios no meu interior e defino os parágrafos, reticências e ponto final.

Gosto que me confundas com o rebentar das ondas em volúpias do meu corpo encharca…

AOS BOCADOS

Contigo tem de ser aos bocados.

Umas vezes mais próximo, outras mais distante, mas sempre aos bocados.

Bocados pequenos de cada vez, para que me sintas.

O traço incerto dos teus dedos a tua boca carnívora que me atrai para o seu interior, e a tua sombra chinesa que dança entre cadeiras, poisa nos quadros e estatela-se na parede branca.

A rua onde moras, tal como tu. Outras ruas e outras gentes em ti, como uma geometria de enganos.

Rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, almofada aconchegada e o corpo pousado na memória que tenho de ti.

Aos bocados.

Surges-me já vagamente das cordilheiras dos tempos e memórias irreflectidas e no entanto ainda o teu cheiro a alfazema.

Contigo, tem de ser aos bocados.

Bocados fáceis de engolir, mastigar, saborear, porque tu moves-te entre o tenso e o quebradiço, o geral e a textura, o toque e o arrebatamento, o desgosto e a bulimia.

E o meu corpo em câmara lenta, formato digital e tu como Deusa, um eco, pontas soltas, arritmias. Os teus dedos que s…

FORA DE TEMPO

Vinhas num balão que não era teu, abriam-te mais ou menos ar consoante lhes apetecia, num desassossego cavernoso.

Balbuciavas palavras tuas vendidas por outros e os gestos que procuravas não eram teus mas péssimas imitações.

Passavas horas no tempo que te era imposto e soluçavas lágrimas furtivas sem sal.

Foste transfusão errada de sangue, plaquetas ineficazes voos rasantes de corvos como agoiros sistemáticos.

Um tronco a ceder, mergulhado em água baça, memórias em quarto-minguante, fechado na mudez de palavras rotas.

Um fio de gente, um invólucro, bolas de fogo que cospes como se dona da verdade e uma vida irremediável. Espuma de terror que inventas por ti mesma

Hoje inteira, amanhã pela metade, pedaços de asas de anjo que oxidam no tempo.

Uma sombra fátua que te enfeita e uma profilaxia de sobredosagem que te invade num oco recanto.

O teu desdém calcinado, a tabuleta que me atiras com um “trespassa-se”, bailado de memórias assombradas coração descompassado, liofilizado e turvo.

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Reza a história que há muito, muito tempo, um Arauto do Bem pronunciou um juramento.

Afirmou, para quem o quis ouvir (e também para os outros), que queria mais empregos, uma economia crescente, um País com ideias e que seria contra, mas totalmente contra, ilhas de políticos e gestores num País tão pequeno.

Disse aquilo que todos nós, o Povo, gostamos de ouvir.

Contratou para o seu séquito, nobres afamados e alguns Bobos da Corte, para alegrar a dita.

Abrenúncio, Saramago, pé de cabra. Excomungo os maus e enlevo os bons – afirmou.

Este Cavaleiro Andante, sempre pronto a recolher bênções à esquerda e à direita, teve notórios e auspiciosos resultados na promoção e cultivo dos valores do altruísmo e solidariedade, na defesa e protecção dos fracos, necessitados e injustiçados, assim como na desmotivação, perseguição e erradicação do compadrio e das injustiças do mau-olhado.

Nunca Deus, nestas Cruzadas pelo Império deixou de inspirar tamanho Cavaleiro, de decisões tão certeiras e atinadas.…

Será assim que as coisas ficam ?

Dói-me o corpo e estranho-me como se estivesse fora de mim.

Por vezes um passo, um salto no vazio e nem sei se nas nuvens se no chão empedrado.

Sinto as artérias flamejantes o coração fora do sitio e um cair desamparado como se deixasse de existir.

Será assim que as coisas ficam ?
Apagamos e mais nada ?

Uma veia bulímica articula batimentos com o coração. Fantasmas envolvem-me e escutam em confissão como se um engano cósmico... os fiapos de atenção que não tenho.

Pedaços de asas abertas em atitude protectora, fazem-me sombra e seguram-me do passo seguinte. O teu corpo que chama por mim e eu como que misturado em ti.

Os meus fantasmas dançarinos e eu desafinado, rasgo a pele como rabiscos na escrita, rascunhos, traços finos por dentro de ti, pinceladas de cor no teu cinzento cortante.

Habito paredes meias entre silêncios calibrados num sorriso e palavras desgarradas, truncadas, encriptadas e incorrectas, como contornos de cordilheira, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede…

SIMPLESMENTE

Olhares que se cruzam e ficam na iminência do expirar do prazo, entre uma reticência e outra.

Não sei quanto vale o instante, mas sei do empecilho das palavras quando os nossos olhares se tocam.

Devolve-me o prazer do silêncio, esse que nos abraça e alcança entre risos estridentes, como só nós.
Esse que escorrega devagar pelos vidros, enquanto a chuva lá fora, chora da ausência de ti.

O teu coração conhece os detalhes do meu e juntos desatam nós e bloqueios, redescobrindo caminhos novos para o espaço entre o verbo e o canto.

Quero proteger-te de todos os Invernos, das lamas e lençóis de água, do frio, das nuvens e do pó que se atira e se mete por dentro de nós, e sentir contigo o gelo que derrete no beiral e as rãs que coaxam no charco enquanto encostas o teu rosto no meu ombro e descansas em mim para sempre.

Afago-te as feridas e os gemidos de dor nos momentos cruéis e acompanho-te o compasso dos sonhos, e encosto-me aos teus medos e anseios, conferindo-te presença.

Mapeei a minha v…

Sopro do Porto

Ruas na cidade.

Granito solto como pedreira virada ao mundo. Espaços estreitos, ilhas desalinhadas, uma baixa com referência arquitectónica.

A turbulencia no Douro que encharca uma ribeira de peito farto e mulher cheia.
Gente que filtra outra gente, silêncios de alma, alho porro e martelinho.

Ecos de solidão, sobrevivência e um fardo na memória retirado das cictrizes que te cosem o interior.

Um cimbalino e um verde com as tripas como manda a tradição, o cabrito pelo S. João, o salto da fogueira, grupos na Baixa, na Boavista e na Foz e as luzes dos dois lados que se unem por cinco pontes marialvas e iluminam o ar de festa com o foguetório altruista.

Mascarados sem dentes, arrivistas de almas perdidas e equilibristas sem corpo. Embriaguez de alma e uma seringa que deambula no bairro do Cerco.

Ossos desalinhados enquanto trocas os Vês pelos Bês em névoas matinais e um abraço amigo que te cobre o peito e afaga o rosto.

Um sopro do Porto, na chuva que te cobre o rosto e o teu sorriso nave…

NOS BRAÇOS DA LUA

Era chegada a hora do baile da Lua.

Enquanto a noite se aprontava, os convidados afinavam vozes, iluminavam as suas roupas e riam do calar do silêncio.

Tocava a musica e os sapatos de verniz com calças de cetim desfilavam no firmamento.
Estrelas despontavam, enquanto o Sol já desaparecido, contorcia-se nocturno para espreitar.
Eu, ainda descalço, embriagado de cor e vazio de cerimónias, depositava uma flor na tua mão.
E… foi assim que passamos a noite... passeando o silêncio pela mão.

Naquele ponto havia longe e distância e a certeza de não mais sentir a falta… da falta que sentíamos de nós.

Existe um fio ténue, cru, incolor, mas um fio que nos liga, enquanto no baile da Lua as estrelas resplandescem e a musica convida.
Não sei a medida, nem a distância, nem se encordoado ou não, nem se tem alma ou matéria, mas sei que me prende a ti.

Sinto eternidade nestas almas que aqui habitam, encravadas num vazio oco, que me faz olhar uma e outra vez para baixo, não vá falhar-me o pé.
Estou…

Sílabas e o meu jardim de Inverno

Não é tarde nem cedo, nem longe nem perto.


Tenho a voz a conjugar paixão na língua afásica dos anjos e os olhos desorbitados dentro de um perímetro que fecha um círculo onde ensaio palavras inconformadas.

Não alcanço nunca o jardim de inverno nem as palavras dos pássaros, as vozes dos anjos, nem árvores semeadas, nem os dias inclinados, como se fosse a manifestação sublime da escrita, que não atinjo.

Tento a inquietude, movimentar-me na palavra, transpor-me nela, soltar os ímpetos da mão que revigora frase.

Nunca nos ensinam a sobreviver, mandam-nos à luta e trazemos a vida inteira estampada no olhar, como as rugas dos velhos.

Caminho nesse chão que pisas, percorro o ritmo e ângulos de luz que nos povoam, e o meu medo.

Medo de não saber olhar.

Ou olhar com decalque, um plágio no olhar, abraços de mar que não dou e palavras baças que não escrevo, nem frases substanciais, porque não sei chegar a ti.

Falas coisas sem palavras, nem gestos,  numa mudez simbólica e afinal entendo tanto d…

CARA OU COROA

Desenho-te a traço carregado, como numa cirurgia reconstrutiva.

Vivo em ti, como se nascesse com febre dos fenos, pé boto, carência vitamínica ou incomodo sazonal.

Aprende-se a viver com isto, como o teu espírito colado à minha pele, a asma que me habita e a vista cansada, o meu “footing” matinal e o teu olhar que me perturba uma e outra vez.

Insistes em aparecer por entre os meus sonhos, entre frases e letras miudinhas que já não leio, e os teus sinais as tuas lembranças que já mal recordo.

Reclamas das datas que não sei, da minha cabeça no ar, dos locais onde passamos e dos beijos que demos em noites de lua cheia e dos meus sonoros uivos (nas tuas palavras).

Relevo o teu olhar matreiro e o meu constrangimento quando me apertas num arremesso de desejo violento, em poses vertiginosas como atleta olímpica em maratonas cruzadas com movimentos em paralelas assimétricas.

E apareces assim do nada nas noites sombrias de leituras nocturnas, saída do capitulo nove no terceiro parágrafo.

Sim…

PREMIO

Imagem
Este prémio foi gentilmente oferecido pelo Blogue DIABINHOS FORA (http://aidiabo.blogspot.com/) da M M.                   Visitem-no que vale a pena.



Devo responder a 3 questões e passar a três outros blogues que considere merecedores.

1. Por que acha que mereceu este selo?

R: Não faço ideia. Foi simpatia da Diabinhos!

2. Na sua opinião, qual o post do seu blogue que acha merecedor de um prémio?

R: Claro que os textos são diferentes e cada qual tem um trabalho de escrita e construção por trás. Não escolho nenhum em particular. Todos eles são reflexo da minha vontade e desejo de escrever.

3. Do blogue que me indicou, o que mais me agrada? Ele merecia o blog de ouro?

R: Sem dúvida que sim!  É um blogue bem trabalhado, onde sobressai maturidade e envolvência na escrita, pecando apenas por não nos brindar com mais.

E passo este prémio a.....

HEAVENLY  -http://vascotrancoso.blogspot.com/
O Vasco fotografa e escreve maravilhosamente

RETRATOS E TEATROS - http://www.retratoseteatros.pt.to/
Porque …

Quero ser a tua ultima paragem

Michael Bublé –





Sigo-te por estradas velhas, rodopios de muros debruados a musgo e saltito pedra a pedra.


Devoramos sem contemplação a vida num segundo numa volatilidade de num outro segundo estarmos fora da vida.

Tenho a noite, companheira inexpressiva, que me enaltece coordenadas de afectos pouco nebulosos, segreda-me murmúrios ao ouvido e é neste inverno febril e soturno que raramente me olhas e nunca me rateias.

Gosto mesmo assim da escuridão, da tua entrega e do abandono a que me votas. E prefiro fechar-me em concha do que espalhar o meu ser na desumana dimensão deste mundo.

E nesta saudade de ti, sou exactamente o que sou. Um mar com noites dentro. Os meus olhos contigo dentro.

Gosto da tua nudez ao luar, dos teus gritos mansinhos, do repenicar dos sinos na Torre dos Clérigos, de quando os troncos cedem nas árvores robustas, de quando os nossos olhos quase chegam, das nossas mãos que quase se tocam.

E gosto quando sei que lês os meus escritos como mapas profundos da alma.

Ou…

Medos e palhacites

Sara Tavares - Ponto de Luz
Quando criança tinha medo… medos vários.


Foi a época dos papões, das trovoadas, do “Homem-do-saco”, e das sombras, que significavam gatunos ou almas de outro mundo.

As bruxas não povoavam esses tempos, sabe-se lá, se por falta de vassoura, ou de olhos de morcego.

Mas por vezes juntavam-se “à festa” umas fadas e duendes com varinhas mágicas, que faziam estacionar na minha garagem, os melhores e mais belos carros, e as loiraças espampanantes acocoradas nas jantes dos bólides... (sem abóbora, claro).

Embrulhava-me em lençóis e deixava uma luz de presença acesa e não dormia enquanto não verificava se a clarabóia estava fechada e se nenhuma sombra estava para me incomodar.

Fechava a porta do quarto e ficava com um olho aberto fora dos lençóis a verificar se através das frinchas alguma aranha penetrava, ou se pela fechadura entrava o Gigante.

Lia Patinhas e Asterix e fixava-me na aldeia dos Gauleses e na poção mágica que sabia um dia me iria salvar...

Surgiram …

De regresso às estrelas...!

Coldplay - I'm goin' back to the start

Olhei de cima a inquietude dos tempos.
Desabitado em mim, minuciosamente localizo os demais.

Interrogo-me se ainda é a essência do que senti. A tua voz que mudava se não me chegavam palavras e os meus olhos que cegavam se não te via nos meus.

Os teus quadros pintados a contraluz e a minha silhueta que adivinhavas como a memória de um cheiro.
Guardo os segredos por ti desvendados enquanto uma ave debica pão num beirado.

Gostava de me transformar de novo em humano, ter cãibras quando te marco posição, a sede que mato com beijos molhados e disseco Fernando Pessoa num heterónimo estranho.

Hoje o espaço em nós não é mais matéria, nem deslumbre, nem sonho ou sensação, já não me negas noites nem me despes a pele nem te afastas triunfante.

Mas há um espaço solto no tempo, para devorarmos sorvete de morango e chocolate preto e trocarmos dedos de arrepio em afagos sedosos, enquanto os teus lábios se inquietam nos meus e me chega à memória o sedoso…

Ave migratória

Robbie Williams - She´s the one

Por vezes delicada, outras vezes àspera, voavas em circulos, dissecando a minha artéria femoral.


Amor nos braços de um táxi, nas profundezas das piscinas, pontões de praias interditas, areias escaldantes de mares entrecortados com rochas de esperança, salas de cinema de fim de tarde, sofrimentos como lugar comum e par na sorte.

Uma lua que espreita como alcoviteira privativa e eles escondidos na pele fingindo apagar estrelas naquele jeito-sem-jeito de namorados inquietos.

Tentaram o pote de ouro na cauda do arco-íris e em cada cor um beijo...em cada beijo uma cor.

Estavam pelos vinte e viviam no limbo dos paraísos ocasionais numa urgência de felicidade que os salpicava.
Andavam ao arrepio dos humores numa cidade com luz, embriagada em tinto carrascão e castanha assada em cones de jornal amarelecido.

E os meus ciúmes de meio metro por metro quadrado por tudo o que era espaço, ciúmes de tudo o que rodeia mesmo nas voltas matemáticas e posturas fisico-qu…

Café sem principio…!

Café sem principio…!

Digamos que achei piada ao termo.
Até gosto de café-pingado, mas não sabia de um “café sem princípio”…

A Avó-velha que me conhecia bem, mesmo despido de palavras.
O meu Avô, típico Almirante, alto, charmoso, voz forte e colocada, altivo e um doce de sorriso nos lábios, uma pessoa de poema completo e não apenas estrofe.
Homem de poesia e de musica. Tamborilava os dedos em permanente ressonância musical que nos embalava. Às vezes, dou por mim nesse tamborilar herdado da natureza.

A vizinha Alice e o marido que coxeava.
Ela perfeitinha dos artelhos, mas como-quem-anda-com-um-coxo-ao-fim-de-três-dias-coxeia, Alice, passados anos, saltava de pé para pé, ziguezagueando.
Tenho para mim que esta atitude era solidariedade num apoio cambaleante entre a paixão que os unia.

A zona onde morava era bem frequentada, pese o “café dos índios” de funcionários com cara de pica-miolos, besuntos trauliteiros e mal formados, vocacionados para almas penadas, cães que ladravam sem car…

Touch Me...!

Ventos que embalam folhas numa brisa, luxúria esquecida no silêncio instalado.
Um corpo translúcido de alma e uma dança sem fim.
Lê e relê todas as cartas, faz parêntesis nos toques que não me deste e nos beijos que pensaste possível.

Escuta as vozes que te gritam encerradas em bocas como masmorras, e embrulha-te na madrugada, sons de trinados repletos de poesia que ecoam em ti.

Arrasta-me o corpo e reparte-me em pedaços.
Conserva o teu olhar discreto, os lábios carmesim e um doce sabor de morango como a elipse da vida.
Sossega a verve na tua exaltação interior, por dias que se subtraem e noites que se prolongam.
Fotografa-me a alma, arquitecta planos infinitos nos corpos que se inquietam e um chá morno no lugar defronte do teu… que era o meu.

Toca-me e não me craves adagas no peito como quem solta um lamento, tormento de palavras cruas, olhares cristalinos, desejos eternizados e forcep´s que afastam feridas por dentro de ti, dos desvarios que a mente sustenta.

Nada disto faz sentid…

Just Like... Heaven

Katie Melua - Just like heaven


Preciso de te sentir, saber que estás por aí, como estás por aqui.

Das tuas mãos que me tocam, o teu cheiro que me embriaga e o teu beijo que me adoça a boca sem mais não.
Preciso deste espaço só meu e dos teus lábios que me percorrem, o teu azul que me invade e o meu escorregar por dentro de ti.

Alguém disse que apenas a pureza dos teus olhos bastará.
Mas eu quero mais, muito mais. Ver-te dentro deles, espreitar labirintos mágicos, fazer desse globo o meu mundo e espraiar-me nos raios vermelhos que te enlaçam.

Talvez venha a ter asas e voarei na imensidão do arco-íris voltando para te ter de novo e os dedos que me envolvem, o beijo que me aquece o corpo, o inebriante perfume, o toque sedoso da pele, as minhas lágrimas cortadas e o teu sorriso que me ajuda a escrever por dentro da alma.

Preciso de voar na direcção do infinito, esquartejar nuvens, abrir a humidade de par em par, sentir o cheiro das estrelas, romper a lua, ser recolhido em Marte e dançar …

Um dia ilustro um texto teu...!

Santana – samba pa ti



Um dia ilustro um texto teu
O sorriso do meu Avô que pouco vi, mas fixei. Os olhos do meu Pai, uma ternura de céu, e eu desatado em nós incompletos, rasgados, desfeitos.
E no entanto gosto de te ler…
“ Vivo o que escreves...é como se estivesse lá”.
…e eu, sim, ando por lá. Ou por aí.
Quantas vezes nem ando, nem sei de mim. Pouco me sinto e dói-me a alma, absorvido pelo rés-do-chão da vida.
E desligo, construo castelos, onde permito poucas entradas, e enquanto aí, sou feliz.
E a incógnita do que sai e sobra de cada texto redobra a magia do que fazes, o que inquieta as almas enquanto imagino o porquê daquela palavra, daquela frase, o destino da mensagem (como se houvesse destino ou porquê…).
Um dia ilustro um texto teu…
Não sei se teu, vivido por ti, se inventado, se conheces alguém assim. E quando o próximo chega… diferente, mas sem descodificador, misterioso e mágico. E tudo continua como num filme, cujo fim fica em “aberto”.
Será o que tu quiseres, o que eu quiser, o que …

Na Viela da Saudade...

Na viela da saudade.


Uma rua como tantas outras, uma esquina como outras, semblantes vagueiam entre caixotes e beatas já fumadas.
A viela da saudade é o vazadouro dos inquietos.
Restos de gente sem prazo de validade, atirados como pedaço de qualquer coisa nos corredores ensonados de soporíferos.

Olhares perdidos flutuavam na janela do segundo piso, Marcianos, Plebeus, Reis, Deus, Anti-cristo, Cientista, Napoleão, de tudo existe no aconchego da nádega dada à seringa ao copo plástico três quartos de água e bolinhas brancas como comprimidos.

Evadidos dos próprios, quebrando correntes e historias de pasmo, baloiçando suavemente dentro deles.
Raramente recordam sonhos, fantasiam-nos.
Gente que não se vê gente... mas que se sente.
Empalhados sequiosos, etiquetados com prozac´s de cabeça feita vento, trauteando cenários dantescos com premonição assustadora.
Dilúvios de jovens arrancados à vida, indolentes sonhadores, poetas de marfim, escritores de ocasião, declamadores.
Cabeças rapadas,…