23 janeiro, 2010

UM DIA DANÇO PARA TI...!


Sarah Mclachlan - In The Arms Of The Angel




Um dia danço para ti

Percorro em passo marcante, afirmativo e gestos envolventes, um roçar de queixo e nariz, e um cheiro inebriante do teu perfume que me percorre cantos e recantos no meu corpo.

Tenho em mim o doce sabor dos teus dedos e o cheiro do fim do dia nos teus cabelos.
Ainda tenho o meu corpo molhado e sinto a humidade quente que se instalou entre nós.

Estremeceram as muralhas construídas com os nossos sorrisos, adicionando formas paralelas aos teus encantos.
Como mantenho as minhas pernas enlaçadas nas tuas ?
e as tuas mãos inquietas que entrelaças e percorres de Este a Oeste e a Sul perdes o Norte ?

Um dia danço para ti

Quero apoderar-me de ti em ritmos de salsa e provar-te o diabo no corpo, desatinar-te e adormecer-te a inquietação, enquanto transpiras por todos os orifícios da tua pele de seda, e o meu corpo se agarra ao teu em frémitos de luz.

Há entre nós um laço, um nó górdio, serpentinas que se enroscam em ti como um caminho sem fim
Os teus olhos que exalam partituras musicais e os teus beijos sequiosos, em marés e vagas de estio que rasgam o Outono.

Um dia danço para ti

Uma dança de guerreiro acossado por dragões e na memória de ti, desembainho a espada e defendo o teu castelo de princesa, até me prenderes na masmorra onde me queres e onde sem ti, definho.

E aí chegados, percorro a tua pele enquanto me sulcas por dentro e espevitas o meu ser, numa sincronia de respirações anelantes, no qual a tua boca concisa e segura se instala nas minhas frases, discorrendo palavras feitas e gemidos com dislexia verbal.

Um dia danço para ti,

Uma dança fecunda e seminal, e beijo os recantos da tua boca, fazendo alquimia dos meus gestos ritmados nos teus, num estalar difuso de felicidade.

21 janeiro, 2010

COMO UM ANJO


Rodrigo Leão - Rosa


Aparecias como Anjo esvoaçante e escultural
Pé ante pé, num equilíbrio de passos nas nuvens como se há muito evitasses o contacto com o solo.

Surgiste no teu jeito certo, percorrendo espaços comuns como se lá tivesses habitado anos.
Por vezes e como qualquer Anjo que se preze, desapareces quase incógnita.
Tenho por bem que vais reabastecer a alma e confortar o espirito tornando as asas mais brilhantes. É esse o brilho da luz que emanas e o pó de cristal que trazes em ti.

Outros vivem errantes sem nunca encontrarem qualquer lugar, vivendo pendurados entre varandas de uns e portas de outros, deixando assar no fumeiro da indiferença, virados de juízo para baixo e o coração de pernas para o ar.

Os Deuses contudo, caminham contigo e explodem em cânticos a cada gesto teu, fazendo do cinzento das trevas, azuis sorridentes.

Mas as noites estão pesadas e os dias tristes... mesmo para um Anjo.

E dou por mim no limiar do desespero entre teias que teço a cada canto e a fuga do indómito e cavernoso tempo entre ramos de solidão e as folhas de uma angustia presente.
Preciso que me salves dos fantasmas que me assolam memória e dos corvos que me agridem.

Mumifico presença perante as asas que te cobrem. Esvoaças por entre as ruas da minha alma, saltitas nas vielas que me acolhem num puzzle assustador de emoções ao rubro.
Por ti tenho mais paisagem, mais mar, mais céu, mais cor, mais espaço e mais de mim.
Tenho acordes e melodias tocadas em pianos de cauda, desde que abriste as asas, salpicando-me de ternura, quando as tuas mãos me percorrem num sentido sem fim.

Anjo ou Deusa, ou Deusa no meio dos Anjos, percorres o teu espaço e entrelaças a minha na tua mão num caminhar conjunto de pétalas abertas ao mundo, risos de sabedoria, choros amargos, trincheiras de adolescente repletas de emoção, rios transbordando ternura.

E se por ventura te sentires indisposta ... é porque o amor gelou as veias, paradas de sangue e nelas o nosso tempo.
Ou se algum dia sentires que já não sou eu, recolhe o pouco que sobra e dissolve-me na espuma das marés que nos embriagam os dias.

O amor, esse, faz-se também na solidão, apagam-se os gritos e cala-se a voz.
Porque sem Anjos ninguém vive. Não sou eu, nem tu. Somos nós.

17 janeiro, 2010

Adeus...!


Nina Simone - My Baby just cares for me


Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de partir, resolvi os assuntos e falei com o meu pai.
Vou embora.

Já sinto o vazio na sala ampla deste coração. Já sinto a alma a apertar e o tempo a passar.
Coloquei a possibilidade de parar o tempo ou muda-lo de lugar e tudo isto ainda me parece um sonho.

A verdade é que parto, mas não tenho noção se volto.
E sinto-me violentado pela partida, qual criança arrancada a forcep´s do sossego uterino.

Fiz um chá.
Coisa rara em mim. Se me visses saberias utilizar a tua expressão que me encanta.
Tenho medo de perder o tempo e de perder o medo. Tempo e medo são duas palavras que vão viver toda a vida comigo, neste sitio inóspito, rodeado de minas e armadilhado em cada canto.

Por cada carta minha ou missiva tua, saberei que voaram alguns dias.
Saberei viver longe de ti?

Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de enfrentar uma guerra e mil perigos.
Quantos de nós já não voltam? Quem voltará?
Ao olhar cada um e cada rosto vou fazê-lo por quanto tempo?

A reboque do silêncio fingi-me desorientado, dar-te tempo para que me pedisses que ficasse.
Não que o fizesse ou pudesse, mas sabia-me bem ouvi-lo.
Meigamente e a custo, beijei-te quando dormias e perdi-me na tentação de te amar uma vez mais, apenas mais uma vez.
A nossa despedida foi curta, como curta é ainda a nossa história, mas nem por isso menos intensa.

Vou para um espaço que não me pertence, um sitio de ninguém, algures entre o céu e a terra na perpendicular de um horizonte, entre tiros de morteiro e bombas de” Napalm”, numa África esquecida, e ainda cheiro a ti, ao teu cabelo enrolado e à tua língua que me pinta a boca como Rembrandt as telas.

Vou agora enviar-te cartas à maneira antiga, perfumadas e com selo e irei precisar dos teus braços que não tenho, os teus beijos sequiosos embalando-me os sentidos, que me faltam.
Agora será assim, despojado de tudo e de nada.

Já trago a tristeza alojada em mim, como tiro certeiro na omoplata esquerda, bem juntinho ao coração.
E é entre nuvens desassombradas e calor estival, baralhado nas coordenadas sem certezas absolutas que me faço guerreiro, à míngua de melhor.

Quem sabe ficarei ferido de guerra em prenúncios de um fim, estilhaços de outro encostado a mim, fazendo disparar os alarmes na distância que nos separa como barras de titânio nas articulações.

E espero que apenas um amor faminto me carregue às costas como mochila de campanha, e me encharque com “kits” de amor, línguas contornando a pele, sarando feridas.

Talvez por sorte fique apenas de raspão, mas caso a “maldita” vença, festeja esta partida na tasca dos amigos em brindes à memória do que fui, com gargalhadas estridentes e anedotas passadas.
Festeja e festeja-me.
Por certo, alegrar-me-á o coração... e fará deste espírito acalmia.
 
Ficou a chávena e o chá gelado...não gosto de despedidas...até um dia, quem sabe?

14 janeiro, 2010

Um piscar de olhos...!



Come as you are - Nirvana


Era capaz de jurar que não foi mais que um piscar de olhos entre a eternidade e o fim.
Foi assim, sem mais.
Porque é assim que tudo começa ou pode acabar.
Um piscar de olhos.

O coração salta e não sabe o que sente.
Bate e rebate, soluça, mexe, remexe, balança da esquerda para a direita e em sentido contrário, cambaleando como relógio ancorado em mim.

E… não sei, se te resisto.
Se te rompo placenta e nasço de novo.
Não sei se me atiro, se te puxo, se rodopio ou afasto ou me embrenho em ti.

Ou então finge que não vês, que não sou eu.
Que mordeste os dedos e eu cortei os pulsos. Finge uma tendinite, uma apoplexia, pede comprimidos milagrosos e duradouros.
Faz-te febril. Esquizofrénica, intemporal.
Tosquia-me as palavras, recolhe adjectivos e afasta-me os pretéritos.

Pode mesmo um de nós dizer que sim, que o outro diz logo não.

E vou fingir que não estou, que não sou eu.
Fugir, esconder, pintar a cara, disfarçar as olheiras, esconder as rugas.
Baixar a guarda, percorrer-me no interior, torcer-me por dentro, emaranhar-me por fora.

Era capaz de jurar que pisquei os olhos, talvez um cisco perturbador, nada mais.

Finge então falta de ar, alquimia, bruxaria, insatisfação.
Tropeça na casca que te lancei mas agarra-te em pedaços à memória.
Redobra-te de cuidados de vampiros inquietos e cabeças de hidra.

Não sejas loba nem capuchinho. Faz de ti incógnita, raiz quadrada ou apenas subtracção.
Não multipliques nem te inquietes…
Mas faz… era capaz de jurar que vi um piscar de olhos …
E … não sei se te resisto.