Adeus...!


Nina Simone - My Baby just cares for me


Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de partir, resolvi os assuntos e falei com o meu pai.
Vou embora.

Já sinto o vazio na sala ampla deste coração. Já sinto a alma a apertar e o tempo a passar.
Coloquei a possibilidade de parar o tempo ou muda-lo de lugar e tudo isto ainda me parece um sonho.

A verdade é que parto, mas não tenho noção se volto.
E sinto-me violentado pela partida, qual criança arrancada a forcep´s do sossego uterino.

Fiz um chá.
Coisa rara em mim. Se me visses saberias utilizar a tua expressão que me encanta.
Tenho medo de perder o tempo e de perder o medo. Tempo e medo são duas palavras que vão viver toda a vida comigo, neste sitio inóspito, rodeado de minas e armadilhado em cada canto.

Por cada carta minha ou missiva tua, saberei que voaram alguns dias.
Saberei viver longe de ti?

Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de enfrentar uma guerra e mil perigos.
Quantos de nós já não voltam? Quem voltará?
Ao olhar cada um e cada rosto vou fazê-lo por quanto tempo?

A reboque do silêncio fingi-me desorientado, dar-te tempo para que me pedisses que ficasse.
Não que o fizesse ou pudesse, mas sabia-me bem ouvi-lo.
Meigamente e a custo, beijei-te quando dormias e perdi-me na tentação de te amar uma vez mais, apenas mais uma vez.
A nossa despedida foi curta, como curta é ainda a nossa história, mas nem por isso menos intensa.

Vou para um espaço que não me pertence, um sitio de ninguém, algures entre o céu e a terra na perpendicular de um horizonte, entre tiros de morteiro e bombas de” Napalm”, numa África esquecida, e ainda cheiro a ti, ao teu cabelo enrolado e à tua língua que me pinta a boca como Rembrandt as telas.

Vou agora enviar-te cartas à maneira antiga, perfumadas e com selo e irei precisar dos teus braços que não tenho, os teus beijos sequiosos embalando-me os sentidos, que me faltam.
Agora será assim, despojado de tudo e de nada.

Já trago a tristeza alojada em mim, como tiro certeiro na omoplata esquerda, bem juntinho ao coração.
E é entre nuvens desassombradas e calor estival, baralhado nas coordenadas sem certezas absolutas que me faço guerreiro, à míngua de melhor.

Quem sabe ficarei ferido de guerra em prenúncios de um fim, estilhaços de outro encostado a mim, fazendo disparar os alarmes na distância que nos separa como barras de titânio nas articulações.

E espero que apenas um amor faminto me carregue às costas como mochila de campanha, e me encharque com “kits” de amor, línguas contornando a pele, sarando feridas.

Talvez por sorte fique apenas de raspão, mas caso a “maldita” vença, festeja esta partida na tasca dos amigos em brindes à memória do que fui, com gargalhadas estridentes e anedotas passadas.
Festeja e festeja-me.
Por certo, alegrar-me-á o coração... e fará deste espírito acalmia.
 
Ficou a chávena e o chá gelado...não gosto de despedidas...até um dia, quem sabe?

Comentários

lagrima disse…
Não sei se me perdoas, mas é que não consigo deixar de embrulhar-me em cada texto que tu escreves, tal a intensidade que lhes imprimes.
Perdi a conta às vezes que aqui vim hoje, e não é ainda desta que consigo comentar.
Volto mais logo.
Mas..., tu, tu fica, aquece a chávena de novo, e o chá..., é só mais uma vez!
Beijo de até logo.
Lídia Borges disse…
A dimensão dramática que fazes escoar entre gestos e rotinas do dia a dia como se tudo fosse natural, como se fosse natural ir embora afastando-nos dos pilares de afecto que suportam o nosso equilíbrio... Como se fosse natural a guerra, como se fosse natural a solidão e a morte... Pode ser que tudo isto seja natural. Pode ser!
Parabéns pela densidade emotiva deste texto.

Um beijo
XS disse…
Continuas a escrever belissimamente.
Ana disse…
Perco-me contigo..pela forma como escreves, pelo que dizes..pelos meus momentos quanto estou a ler-te!
O texto está lindissimo e a música também.
BJ
Chris disse…
Os teus textos são pinturas vivas, recortadas pela cor do desencanto e duma densidade que me fascina.
Um beijo
Chris
MeuSom disse…
Adeus!...
Como se diz "adeus"?!

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