21 janeiro, 2010

COMO UM ANJO


Rodrigo Leão - Rosa


Aparecias como Anjo esvoaçante e escultural
Pé ante pé, num equilíbrio de passos nas nuvens como se há muito evitasses o contacto com o solo.

Surgiste no teu jeito certo, percorrendo espaços comuns como se lá tivesses habitado anos.
Por vezes e como qualquer Anjo que se preze, desapareces quase incógnita.
Tenho por bem que vais reabastecer a alma e confortar o espirito tornando as asas mais brilhantes. É esse o brilho da luz que emanas e o pó de cristal que trazes em ti.

Outros vivem errantes sem nunca encontrarem qualquer lugar, vivendo pendurados entre varandas de uns e portas de outros, deixando assar no fumeiro da indiferença, virados de juízo para baixo e o coração de pernas para o ar.

Os Deuses contudo, caminham contigo e explodem em cânticos a cada gesto teu, fazendo do cinzento das trevas, azuis sorridentes.

Mas as noites estão pesadas e os dias tristes... mesmo para um Anjo.

E dou por mim no limiar do desespero entre teias que teço a cada canto e a fuga do indómito e cavernoso tempo entre ramos de solidão e as folhas de uma angustia presente.
Preciso que me salves dos fantasmas que me assolam memória e dos corvos que me agridem.

Mumifico presença perante as asas que te cobrem. Esvoaças por entre as ruas da minha alma, saltitas nas vielas que me acolhem num puzzle assustador de emoções ao rubro.
Por ti tenho mais paisagem, mais mar, mais céu, mais cor, mais espaço e mais de mim.
Tenho acordes e melodias tocadas em pianos de cauda, desde que abriste as asas, salpicando-me de ternura, quando as tuas mãos me percorrem num sentido sem fim.

Anjo ou Deusa, ou Deusa no meio dos Anjos, percorres o teu espaço e entrelaças a minha na tua mão num caminhar conjunto de pétalas abertas ao mundo, risos de sabedoria, choros amargos, trincheiras de adolescente repletas de emoção, rios transbordando ternura.

E se por ventura te sentires indisposta ... é porque o amor gelou as veias, paradas de sangue e nelas o nosso tempo.
Ou se algum dia sentires que já não sou eu, recolhe o pouco que sobra e dissolve-me na espuma das marés que nos embriagam os dias.

O amor, esse, faz-se também na solidão, apagam-se os gritos e cala-se a voz.
Porque sem Anjos ninguém vive. Não sou eu, nem tu. Somos nós.

4 comentários:

lagrima disse...

Gosto dessa ternura doce que por vezes dizes de ti, aqui!
Beijo, Pedro.

lagrima disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Paula disse...

Quase todos nós já estivemos ou estaremos perante um Anjo. Eles aparecem-nos de todas as cores, das mais variadas formas, por detrás de um sorriso subtil ou num rosto inundado de tristeza...

O texto? Esse é de uma beleza sem par!
Existem simplesmente criaturas e existem SERES HUMANOS. Há uma grande diferença entre eles.
Estes últimos são capazes de escrever textos como este...

Ana disse...

Está tão bonito! Que sensibilidade e ternura...
Se eu podia viver sem vir aqui ler os teus textos? Sim ...podia, mas não era a mesma coisa!
Deixou de ser a mesma coisa, desde que conheci as tuas palavras e o que consegues construir com elas.
bjs