28 fevereiro, 2010

Café sem principio…!





Café sem principio…!

Digamos que achei piada ao termo.
Até gosto de café-pingado, mas não sabia de um “café sem princípio”…

A Avó-velha que me conhecia bem, mesmo despido de palavras.
O meu Avô, típico Almirante, alto, charmoso, voz forte e colocada, altivo e um doce de sorriso nos lábios, uma pessoa de poema completo e não apenas estrofe.
Homem de poesia e de musica. Tamborilava os dedos em permanente ressonância musical que nos embalava. Às vezes, dou por mim nesse tamborilar herdado da natureza.

A vizinha Alice e o marido que coxeava.
Ela perfeitinha dos artelhos, mas como-quem-anda-com-um-coxo-ao-fim-de-três-dias-coxeia, Alice, passados anos, saltava de pé para pé, ziguezagueando.
Tenho para mim que esta atitude era solidariedade num apoio cambaleante entre a paixão que os unia.

A zona onde morava era bem frequentada, pese o “café dos índios” de funcionários com cara de pica-miolos, besuntos trauliteiros e mal formados, vocacionados para almas penadas, cães que ladravam sem caravana, mulheres-da-vida e o castanheiro do Sr. Chico, figura contemplativa, com casa nas traseiras do café.
Eles, o castanheiro e o Sr Chico, velhos como carcaças.

Um tempo monocromático, e eu em estação diluviana a caminho do Liceu Alexandre Herculano, num passo gota a gota, como se lavasse a alma, e a minha Avó-velha e os apelos atirados como chamamento.
- “Zé Pedrinho, tens aqui um chocolatinho…”
Vibrava-me o interior numa zanga estridente, baixando a cabeça, escondendo a gulodice.
E esta voz que não sai de mim, esta imagem que se mantém vida fora.
A minha Avó e os chocolates, a “sopa fresca” recheada de couve que ficava a ferver enquanto percorria o espaço entre a escola primária e a sua casa.
Um cheiro intenso, fresco, perfumado, apetitoso, ainda hoje no ar quando circundo aquela rua.

E aqui onde sonho, onde penso, onde dilato pupilas e relembro, chás de casca de cebola, uvas em cesto de vime vindas de comboio, do “Larinho-Caramulo”, da terra da minha “Avó-da-América”.

Os meus cromos guardados em lata, cola feita de farinha e os botões dos jogos do meu irmão atirados contra caixas de fósforo como balizas.
Uma caixa ao lado da máquina de costura Singer, os trovões no sótão e a clarabóia que reluzia, relâmpagos que respeito mas não me amedrontam.

A Avó-velha e as amigas no café, bolos-de-arroz e as bocas que salivavam do doce, misturadas com conversas das doenças mais-do-que-tu, num dado para definir que a D. Graça tinha mais doenças que a minha Avó, que por sua vez acumulava mais que a D. Alice e esta mais que a D. Elvira.
Tudo junto, daria umas centenas largas de horas de tratamentos indefectíveis e nefastos para o sistema nacional de saúde.

A minha Avó-velha e a companhia inestimável dos seus objectos.
Um xaile negro bordado, lindo, como uma rainha que transporta a sua coroa.
Pedia normalmente um café sem princípio mas cheio, para preencher os espaços vazios.
Os dela e os dos outros.
E era nestas tardes em que me via pelo vidro do café, que me chamava para o chocolatinho e moedas para comprar carrinhos da “matchbox” ou algodão doce nas festas de Sta Clara da Igreja do Bonfim, entre pregoeiros de banha da cobra e, leva-seis- peças-pelo-preço-de-uma-que-à-meia-dúzia-é-mais-barato.

Sei das palavras confusas dos meus sonhos, a trança de sons que embalo enquanto dormes e não envelhecemos.
Viveremos numa concha, só nossa, enroscados em xailes pretos bordados de rainha, sem latitude nem longitude, uma rábula na mais imperfeita fábula e a tua paz que acordei por instantes sem a trombeta do final dos tempos

Este é o nosso café sem princípio, mas cheio… para preencher os espaços vazios.

19 fevereiro, 2010

Touch Me...!




Ventos que embalam folhas numa brisa, luxúria esquecida no silêncio instalado.
Um corpo translúcido de alma e uma dança sem fim.
Lê e relê todas as cartas, faz parêntesis nos toques que não me deste e nos beijos que pensaste possível.

Escuta as vozes que te gritam encerradas em bocas como masmorras, e embrulha-te na madrugada, sons de trinados repletos de poesia que ecoam em ti.

Arrasta-me o corpo e reparte-me em pedaços.
Conserva o teu olhar discreto, os lábios carmesim e um doce sabor de morango como a elipse da vida.
Sossega a verve na tua exaltação interior, por dias que se subtraem e noites que se prolongam.
Fotografa-me a alma, arquitecta planos infinitos nos corpos que se inquietam e um chá morno no lugar defronte do teu… que era o meu.

Toca-me e não me craves adagas no peito como quem solta um lamento, tormento de palavras cruas, olhares cristalinos, desejos eternizados e forcep´s que afastam feridas por dentro de ti, dos desvarios que a mente sustenta.

Nada disto faz sentido, agora que já não estou.
Mas lê e relê todas as cartas, identifica conversas, imagina e interpreta gestos, sons e imagens, o amor que não foi entregue em boiões de ovos-moles, historias cortadas a espaços em estrofes desconexas dos meus versos.

Parti para outra eternidade… dizem alguns.
E esse teu corpo que poisa sem me tocar e a ausência do abismo de calor, meridianos na boca como mares frenéticos nas comissuras dos lábios que me afogam.
Tocas-me de olhos fechados, imprimes-me em folhas A4, deslizas pinturas na pele e luas de prata, adicionando rotas aos percursos impróprios para me chegar.

Escuta a alma, sente o correr do sangue nas veias, alicerça razões e escreve sem cessar, esgotando palavras, escurecendo cadernos, e expõe como Dali e Degas.

Aqui chegados a lugar nenhum, no meio do nada, lugar aprazível onde me encontro, sentirás o meu cheiro e sabor, espírito vagabundo.

E devagar, devagarinho, não perturbando, de mansinho, sentirás a pele que ainda arde, depois de fugir do teu mundo, sem alarde.

10 fevereiro, 2010

Just Like... Heaven




Katie Melua - Just like heaven


Preciso de te sentir, saber que estás por aí, como estás por aqui.

Das tuas mãos que me tocam, o teu cheiro que me embriaga e o teu beijo que me adoça a boca sem mais não.
Preciso deste espaço só meu e dos teus lábios que me percorrem, o teu azul que me invade e o meu escorregar por dentro de ti.

Alguém disse que apenas a pureza dos teus olhos bastará.
Mas eu quero mais, muito mais. Ver-te dentro deles, espreitar labirintos mágicos, fazer desse globo o meu mundo e espraiar-me nos raios vermelhos que te enlaçam.

Talvez venha a ter asas e voarei na imensidão do arco-íris voltando para te ter de novo e os dedos que me envolvem, o beijo que me aquece o corpo, o inebriante perfume, o toque sedoso da pele, as minhas lágrimas cortadas e o teu sorriso que me ajuda a escrever por dentro da alma.

Preciso de voar na direcção do infinito, esquartejar nuvens, abrir a humidade de par em par, sentir o cheiro das estrelas, romper a lua, ser recolhido em Marte e dançar nas asas do desejo.

Quero ter-te em mim
Ouvir o sopro do vento, o arrulhar dos pombos, a maré que se espraia e vagueia no teu corpo de sereia

Quero respirar-te devagar, uma e outra vez, fazer bolinhas de sabão, jogar à macaca e ao eixo, saltar à corda, perder o autocarro das sete, apanhar a roupa do fantasma que nos envolve, ser salvo ao terceiro gongo, redimir-me em pedaços, ter-te em excesso e ser a tua ultima paragem.

Um dia, com ou sem asas, despeço-me das palavras e morro em ti

Um dia ilustro um texto teu...!



Santana – samba pa ti



Um dia ilustro um texto teu

O sorriso do meu Avô que pouco vi, mas fixei. Os olhos do meu Pai, uma ternura de céu, e eu desatado em nós incompletos, rasgados, desfeitos.

E no entanto gosto de te ler…

“ Vivo o que escreves...é como se estivesse lá”.

…e eu, sim, ando por lá. Ou por aí.

Quantas vezes nem ando, nem sei de mim.
Pouco me sinto e dói-me a alma, absorvido pelo rés-do-chão da vida.

E desligo, construo castelos, onde permito poucas entradas, e enquanto aí, sou feliz.

E a incógnita do que sai e sobra de cada texto redobra a magia do que fazes, o que inquieta as almas enquanto imagino o porquê daquela palavra, daquela frase, o destino da mensagem (como se houvesse destino ou porquê…).

Um dia ilustro um texto teu…

Não sei se teu, vivido por ti, se inventado, se conheces alguém assim.
E quando o próximo chega… diferente, mas sem descodificador, misterioso e mágico.
E tudo continua como num filme, cujo fim fica em “aberto”.

Será o que tu quiseres, o que eu quiser, o que os leitores quiserem, e eis que de repente também me vejo escritor na tentativa de um fim que não encontro, quando apenas o vou ilustrar.

É verdade que sim, que me desligo. Nunca sei quando e nem sequer lhe noto o princípio. Vou ficando por aí sem luz, descalço nas trevas.
Um dia, falo menos… outro, menos ainda. E retiro-me na direcção da concha.

Não é importante se foi naquele momento, é apenas um processo que se retoma, sem espaço nem invasão. Porque nada existe ali. Apenas palavras, apenas frases, sentimentos que correm, também eles descalços, também eles aos pedaços.

E de repente ressurjo com mais luz, depois de obras interiores, mais vivo e mais intenso.
Interruptores silenciosos e um equilíbrio vivido a mil e mantido por extremos.

Um dia ilustro um texto teu…

Sem esqueletos nem gritos, nem medo das noites silenciosas, absolvo-te em confissão, tiro o excesso de bagagem que lanças na escrita e afugento bandos de corvos que te cercam, enquanto os dedos percorrem as folhas brancas ou cadernos de Moleskine.

E vou-te lendo para te ilustrar e tendo-te em mim a três-quartos como o sorriso do meu Avô que mal recordo, mas fixei, e os olhos doces do meu Pai que perduram na memória, como os meus sonhos na acidez do silêncio.

Um dia ilustro um texto teu!



06 fevereiro, 2010

Na Viela da Saudade...




Na viela da saudade.


Uma rua como tantas outras, uma esquina como outras, semblantes vagueiam entre caixotes e beatas já fumadas.
A viela da saudade é o vazadouro dos inquietos.
Restos de gente sem prazo de validade, atirados como pedaço de qualquer coisa nos corredores ensonados de soporíferos.

Olhares perdidos flutuavam na janela do segundo piso, Marcianos, Plebeus, Reis, Deus, Anti-cristo, Cientista, Napoleão, de tudo existe no aconchego da nádega dada à seringa ao copo plástico três quartos de água e bolinhas brancas como comprimidos.

Evadidos dos próprios, quebrando correntes e historias de pasmo, baloiçando suavemente dentro deles.
Raramente recordam sonhos, fantasiam-nos.
Gente que não se vê gente... mas que se sente.
Empalhados sequiosos, etiquetados com prozac´s de cabeça feita vento, trauteando cenários dantescos com premonição assustadora.
Dilúvios de jovens arrancados à vida, indolentes sonhadores, poetas de marfim, escritores de ocasião, declamadores.
Cabeças rapadas, batas como mortalhas e bocas sem dentição, vazios de palavras e débeis de ideias.

E… dois e dois são quatro, três vezes nove vinte e sete.
- Doutor, uma moedinha por um pão?
Tamborilho os nós dos dedos e a cicatriz que lhe cobre a testa, mais saliente.

Aguardo sempre um novo respirar… perde Inverno e Primavera, já não toca no tronco velho, faltam as forças, espalhadas na bandeja com a água e a ração diária.
São borboletas num casulo, e contrariamente têm serenidade intemporal, como se vivessem e preferissem assim.

O tempo é a desculpa inevitável, atar a alma a algo incerto.
O casulo da borboleta, o comprimido no copo pela metade, os olhares perdidos e flutuantes, um suspiro sem prazo de validade, na viela da saudade.

03 fevereiro, 2010

Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop


Paulo Gonzo e Lucia Moniz - Leve beijo triste


Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop


A intensidade com que aprecio os dias inteiros e não pela metade,o meu equilibrio a três-quartos mantido por extremos, a minha felicidade ao lado da sombra, a tua vida dentro dos livros, no alto das árvores, nas primeiras chuvas, nos textos que leio, na imaginação fértil, as saudades que tenho de um abraço, e fico esquecido do lado de lá.

Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop.

O trilho fermentado do desejo, o teu cheiro no meu, o grito que abafas com a minha boca, a sombra volátil do meu corpo e a tua lingua que me impõe lei marcial.
Vou-me emprestar a ti a fundo perdido, sem depósito nem caução enquanto o mar nos arrulha por entre esperas e os olhos batem num duelo de cansaço.
Agarras nos meus braços, esconjuras pecados e benzes-me com rezas ancestrais, atinjo o teu coração à dentada e sofregamente escorrego nos teus braços, como suicida indeciso.

Accionas a presença de Deus, absorves-me por inteiro, mordes-me os lábios enquanto o elevador abana frenesim.
Vacilo a minha maçã-de-adão na tua boca, o teu peito cintilante e as curvas do teu corpo entre botões reluzentes de espera e joelhos doridos no desconforto.
Uivas baixinho, não te tens na espera e empurras a porta, balbuciando desejos, enchendo o coração de medo como o debroar quezilento das ondas contra o molhe.
Vives como num palácio de sonhos e fantasmas encantados, espraias olheiras clandestinas pela face em urgências de paixão enchendo o coração de medo na minha presença.
A vadiagem da tua boca que brinca com e sem sentido, desperdiçando horas em coreografias madrugadoras.

Eu e tu no elevador e carrego no Stop.

E ficamos nós enrolados, a lua pendurada por fios, e eu no teu barco para Ítaca, entre a bussola e as estrelas e poções mágicas de Circe.

Um dia... só carrego no Stop