Café sem principio…!





Café sem principio…!

Digamos que achei piada ao termo.
Até gosto de café-pingado, mas não sabia de um “café sem princípio”…

A Avó-velha que me conhecia bem, mesmo despido de palavras.
O meu Avô, típico Almirante, alto, charmoso, voz forte e colocada, altivo e um doce de sorriso nos lábios, uma pessoa de poema completo e não apenas estrofe.
Homem de poesia e de musica. Tamborilava os dedos em permanente ressonância musical que nos embalava. Às vezes, dou por mim nesse tamborilar herdado da natureza.

A vizinha Alice e o marido que coxeava.
Ela perfeitinha dos artelhos, mas como-quem-anda-com-um-coxo-ao-fim-de-três-dias-coxeia, Alice, passados anos, saltava de pé para pé, ziguezagueando.
Tenho para mim que esta atitude era solidariedade num apoio cambaleante entre a paixão que os unia.

A zona onde morava era bem frequentada, pese o “café dos índios” de funcionários com cara de pica-miolos, besuntos trauliteiros e mal formados, vocacionados para almas penadas, cães que ladravam sem caravana, mulheres-da-vida e o castanheiro do Sr. Chico, figura contemplativa, com casa nas traseiras do café.
Eles, o castanheiro e o Sr Chico, velhos como carcaças.

Um tempo monocromático, e eu em estação diluviana a caminho do Liceu Alexandre Herculano, num passo gota a gota, como se lavasse a alma, e a minha Avó-velha e os apelos atirados como chamamento.
- “Zé Pedrinho, tens aqui um chocolatinho…”
Vibrava-me o interior numa zanga estridente, baixando a cabeça, escondendo a gulodice.
E esta voz que não sai de mim, esta imagem que se mantém vida fora.
A minha Avó e os chocolates, a “sopa fresca” recheada de couve que ficava a ferver enquanto percorria o espaço entre a escola primária e a sua casa.
Um cheiro intenso, fresco, perfumado, apetitoso, ainda hoje no ar quando circundo aquela rua.

E aqui onde sonho, onde penso, onde dilato pupilas e relembro, chás de casca de cebola, uvas em cesto de vime vindas de comboio, do “Larinho-Caramulo”, da terra da minha “Avó-da-América”.

Os meus cromos guardados em lata, cola feita de farinha e os botões dos jogos do meu irmão atirados contra caixas de fósforo como balizas.
Uma caixa ao lado da máquina de costura Singer, os trovões no sótão e a clarabóia que reluzia, relâmpagos que respeito mas não me amedrontam.

A Avó-velha e as amigas no café, bolos-de-arroz e as bocas que salivavam do doce, misturadas com conversas das doenças mais-do-que-tu, num dado para definir que a D. Graça tinha mais doenças que a minha Avó, que por sua vez acumulava mais que a D. Alice e esta mais que a D. Elvira.
Tudo junto, daria umas centenas largas de horas de tratamentos indefectíveis e nefastos para o sistema nacional de saúde.

A minha Avó-velha e a companhia inestimável dos seus objectos.
Um xaile negro bordado, lindo, como uma rainha que transporta a sua coroa.
Pedia normalmente um café sem princípio mas cheio, para preencher os espaços vazios.
Os dela e os dos outros.
E era nestas tardes em que me via pelo vidro do café, que me chamava para o chocolatinho e moedas para comprar carrinhos da “matchbox” ou algodão doce nas festas de Sta Clara da Igreja do Bonfim, entre pregoeiros de banha da cobra e, leva-seis- peças-pelo-preço-de-uma-que-à-meia-dúzia-é-mais-barato.

Sei das palavras confusas dos meus sonhos, a trança de sons que embalo enquanto dormes e não envelhecemos.
Viveremos numa concha, só nossa, enroscados em xailes pretos bordados de rainha, sem latitude nem longitude, uma rábula na mais imperfeita fábula e a tua paz que acordei por instantes sem a trombeta do final dos tempos

Este é o nosso café sem princípio, mas cheio… para preencher os espaços vazios.

Comentários

Cocas disse…
"a “sopa fresca” recheada de couve que ficava a ferver enquanto percorria o espaço entre a escola primária e a sua casa. "

Adoro sopinha..e tu deixas-nos aqui uma "rica sopa", com um cheirinho da tua meninice.
Um texto encantador, como todos os que escreves.

Beijo
Alda disse…
Olá Zé,

Belo texto...reviver a meninice é tão bom, quando se têm boas recordações!
Bjs :)
MeuSom disse…
Está frio por aqui pelos sítios e muita chuva, então entrei sem bater à porta, lá fora cheirava a sopa quentinha e não resisti :)
No fim tomei um pouco do seu café longo para preencher o meu vazio, frio!
Mag disse…
As coisas vulgares que há na Vida não deixam saudade, só as lembranças que doem ou fazem sorrir;
Há Gente que fica na História na História da Gente; Há dias que marcam a Alma e a Vida da Gente;
São emoções que dão Vida à Saudade que trago ...

...são músicas que transporto no coração e levo a cantar enquanto percorro as ruas da cidade, qual louca que ri e fala sozinha; são melodias que trauteio enquanto conduzo ou danço passeio fora, sem interessar se me olham, ouvem ou aplaudem; são momentos de história que faço e fiz de mãos dadas com meus filhos, saltando e cavalgando caminhos além, em total descontracção;são risos abertos, gargalhadas sonoras que nos fazem sentir Vivos e Reais, não de pano nem de cera... são Histórias desta Vida que quero legar a quem gosta de mim! Coisas vulgares não deixam saudade e lembranças -as que façam rir!!!

Obrigada JP por esta oportunidade de te conhecer e desculpa a extensão dos comentários!!!!!
Censura-os!!! ahahahah

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