06 fevereiro, 2010

Na Viela da Saudade...




Na viela da saudade.


Uma rua como tantas outras, uma esquina como outras, semblantes vagueiam entre caixotes e beatas já fumadas.
A viela da saudade é o vazadouro dos inquietos.
Restos de gente sem prazo de validade, atirados como pedaço de qualquer coisa nos corredores ensonados de soporíferos.

Olhares perdidos flutuavam na janela do segundo piso, Marcianos, Plebeus, Reis, Deus, Anti-cristo, Cientista, Napoleão, de tudo existe no aconchego da nádega dada à seringa ao copo plástico três quartos de água e bolinhas brancas como comprimidos.

Evadidos dos próprios, quebrando correntes e historias de pasmo, baloiçando suavemente dentro deles.
Raramente recordam sonhos, fantasiam-nos.
Gente que não se vê gente... mas que se sente.
Empalhados sequiosos, etiquetados com prozac´s de cabeça feita vento, trauteando cenários dantescos com premonição assustadora.
Dilúvios de jovens arrancados à vida, indolentes sonhadores, poetas de marfim, escritores de ocasião, declamadores.
Cabeças rapadas, batas como mortalhas e bocas sem dentição, vazios de palavras e débeis de ideias.

E… dois e dois são quatro, três vezes nove vinte e sete.
- Doutor, uma moedinha por um pão?
Tamborilho os nós dos dedos e a cicatriz que lhe cobre a testa, mais saliente.

Aguardo sempre um novo respirar… perde Inverno e Primavera, já não toca no tronco velho, faltam as forças, espalhadas na bandeja com a água e a ração diária.
São borboletas num casulo, e contrariamente têm serenidade intemporal, como se vivessem e preferissem assim.

O tempo é a desculpa inevitável, atar a alma a algo incerto.
O casulo da borboleta, o comprimido no copo pela metade, os olhares perdidos e flutuantes, um suspiro sem prazo de validade, na viela da saudade.

8 comentários:

lagrima disse...

Ah, menino, esse é um esgar bem feio e doloroso de olhar no rosto disforme de uma cruel realidade!
Bj.

Lídia Borges disse...

Não sei como dizer esta sensação de frio que, de repente, me invadiu.

Um beijo, Pedro!

Pedro Viegas disse...

Olá...
Infelizmente é realidade e quantas das vezes nos esquecemos dela, absortos que estamos com as nossas vidas. Esta viela da saudade existe como existem muitas mais.
Obg pelos vossos comentários e visitas.
Também a mim me coze um frio na barriga quando escrevo alguns textos...!
JP

MeuSom disse...

Escreve sempre Pedro.
A escrever és incomparavel!!
É bom de sentir as tuas próprias emoções, implicitas em cada letra!
Chegar aqui e sentar no sofá, na mesa de apoio o tal chá..., quentinho..., e eu alí vou pegando nelas (as tuas letras), roubo-as das palavras e faço desenhos com elas a ver o que dá..., sai-me a alma de ti!
És pessoa bonita, menino, com todos os sentidos em constante efervescência, nada te escapa, essa tua sensibilidade e compreensão (ou não aceitação) do mundo... é, eu gosto de te ler, imenso!
Beijo, Pedro.

Ana disse...

Embora a realidade seja triste, o texto está lindo!
Ao ler, visualizei essa realidade, como se estivesse desenhada num quadro, a preto e branco, mas pintado com um pincel com cor...
Nos nossos sonhos e desejos deviamos incluír mais vezes a exclusão de muitos...
Bj

DIABINHOSFORA disse...

Triste, roto, esfarrapado,
Mero espectro de gente,
Errante, vadio, esgotado,
Tenta ser sobrevivente.

Sedento, exausto, perdido,
É marginal e vagabundo.
Solitário, enlouquecido,
É um "bicho" neste mundo.

Arrasta-se pela rua, furtivo,
É eco da própria história.
A má sorte fê-lo cativo
E de riso não tem memória.

Nós damos sopa, café, pão coado,
Algo que sabemos ser pouco
A quem o sonho foi roubado
E a miséria torna louco.

É vê-lo estendido no chão
A noite a fazê-lo gelado
Coberto com placas de cartão
E no meio da escuridão
Adormece esfomeado.

Hipócrita, cínico, imoral
Falso, odioso, o "bom cristão"!
Marca presença na igreja
Mas ao pobre não estende a mão!

É rápido a condenar,
O dedo aponta com destreza,
Mas nunca o mandem ajudar,
Pode-lhe fugir a riqueza!

Tire-se o véu do certo e do errado
Que pesa sobre gente perdida
E o vagabundo desdentado
Outrora um menino amado
Pode voltar a ter vida!



Espero que faça justiça ao teu texto, porque foi ele que me inspirou.
Beijinho

MeuSom disse...

Diabinhos, teu poema é fantástico!
Dos mais lindos que li até hoje!
Palavras de PESSOA bonita!
Parabéns, menina!

Anónimo disse...

Bom!