10 fevereiro, 2010

Um dia ilustro um texto teu...!



Santana – samba pa ti



Um dia ilustro um texto teu

O sorriso do meu Avô que pouco vi, mas fixei. Os olhos do meu Pai, uma ternura de céu, e eu desatado em nós incompletos, rasgados, desfeitos.

E no entanto gosto de te ler…

“ Vivo o que escreves...é como se estivesse lá”.

…e eu, sim, ando por lá. Ou por aí.

Quantas vezes nem ando, nem sei de mim.
Pouco me sinto e dói-me a alma, absorvido pelo rés-do-chão da vida.

E desligo, construo castelos, onde permito poucas entradas, e enquanto aí, sou feliz.

E a incógnita do que sai e sobra de cada texto redobra a magia do que fazes, o que inquieta as almas enquanto imagino o porquê daquela palavra, daquela frase, o destino da mensagem (como se houvesse destino ou porquê…).

Um dia ilustro um texto teu…

Não sei se teu, vivido por ti, se inventado, se conheces alguém assim.
E quando o próximo chega… diferente, mas sem descodificador, misterioso e mágico.
E tudo continua como num filme, cujo fim fica em “aberto”.

Será o que tu quiseres, o que eu quiser, o que os leitores quiserem, e eis que de repente também me vejo escritor na tentativa de um fim que não encontro, quando apenas o vou ilustrar.

É verdade que sim, que me desligo. Nunca sei quando e nem sequer lhe noto o princípio. Vou ficando por aí sem luz, descalço nas trevas.
Um dia, falo menos… outro, menos ainda. E retiro-me na direcção da concha.

Não é importante se foi naquele momento, é apenas um processo que se retoma, sem espaço nem invasão. Porque nada existe ali. Apenas palavras, apenas frases, sentimentos que correm, também eles descalços, também eles aos pedaços.

E de repente ressurjo com mais luz, depois de obras interiores, mais vivo e mais intenso.
Interruptores silenciosos e um equilíbrio vivido a mil e mantido por extremos.

Um dia ilustro um texto teu…

Sem esqueletos nem gritos, nem medo das noites silenciosas, absolvo-te em confissão, tiro o excesso de bagagem que lanças na escrita e afugento bandos de corvos que te cercam, enquanto os dedos percorrem as folhas brancas ou cadernos de Moleskine.

E vou-te lendo para te ilustrar e tendo-te em mim a três-quartos como o sorriso do meu Avô que mal recordo, mas fixei, e os olhos doces do meu Pai que perduram na memória, como os meus sonhos na acidez do silêncio.

Um dia ilustro um texto teu!



3 comentários:

MeuSom disse...

... não me parece que algum texto possa ser ilustrado para além dos teus!...
Beijo!

MeuSom disse...

...passei por aqui...
eu amei, este teu texto... ilustrado!

Anónimo disse...

Há muito tempo muito tempo alguém tinha conseguido lembrar-me o meu pai assim num abrir e fechar de olhos. Após tanto tempo senti um certa culpa porque ele era o meu pai como é possível esquecer? E foi apenas ouvir a música que muitas vezes ele ouvia para eu conseguir ver o meu pai e a falta que me faz. Obrigada o momento foi mesmo oportuno.Beijos Carla Santos