Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop


Paulo Gonzo e Lucia Moniz - Leve beijo triste


Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop


A intensidade com que aprecio os dias inteiros e não pela metade,o meu equilibrio a três-quartos mantido por extremos, a minha felicidade ao lado da sombra, a tua vida dentro dos livros, no alto das árvores, nas primeiras chuvas, nos textos que leio, na imaginação fértil, as saudades que tenho de um abraço, e fico esquecido do lado de lá.

Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop.

O trilho fermentado do desejo, o teu cheiro no meu, o grito que abafas com a minha boca, a sombra volátil do meu corpo e a tua lingua que me impõe lei marcial.
Vou-me emprestar a ti a fundo perdido, sem depósito nem caução enquanto o mar nos arrulha por entre esperas e os olhos batem num duelo de cansaço.
Agarras nos meus braços, esconjuras pecados e benzes-me com rezas ancestrais, atinjo o teu coração à dentada e sofregamente escorrego nos teus braços, como suicida indeciso.

Accionas a presença de Deus, absorves-me por inteiro, mordes-me os lábios enquanto o elevador abana frenesim.
Vacilo a minha maçã-de-adão na tua boca, o teu peito cintilante e as curvas do teu corpo entre botões reluzentes de espera e joelhos doridos no desconforto.
Uivas baixinho, não te tens na espera e empurras a porta, balbuciando desejos, enchendo o coração de medo como o debroar quezilento das ondas contra o molhe.
Vives como num palácio de sonhos e fantasmas encantados, espraias olheiras clandestinas pela face em urgências de paixão enchendo o coração de medo na minha presença.
A vadiagem da tua boca que brinca com e sem sentido, desperdiçando horas em coreografias madrugadoras.

Eu e tu no elevador e carrego no Stop.

E ficamos nós enrolados, a lua pendurada por fios, e eu no teu barco para Ítaca, entre a bussola e as estrelas e poções mágicas de Circe.

Um dia... só carrego no Stop

Comentários

MeuSom disse…
Que raiva!...
Não sei comentar-te!...
És um louco poeta fantástico!
Beijo.
Lídia Borges disse…
Da leitura dos teus textos fica sempre uma sensação de realidade amadurecida, assim como se o enredo não fosse apenas dito, mas consumado. Depois, verificamos que, de facto é sempre dito porque a acção nos remete para um futuro incerto.
Desejos do narrador, em forma de fantasia? Ou, nem sequer desejos...
Afinal o que custa carregar no stop?

Um beijo

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