26 março, 2010

Quero ser a tua ultima paragem



Michael Bublé –





Sigo-te por estradas velhas, rodopios de muros debruados a musgo e saltito pedra a pedra.


Devoramos sem contemplação a vida num segundo numa volatilidade de num outro segundo estarmos fora da vida.

Tenho a noite, companheira inexpressiva, que me enaltece coordenadas de afectos pouco nebulosos, segreda-me murmúrios ao ouvido e é neste inverno febril e soturno que raramente me olhas e nunca me rateias.

Gosto mesmo assim da escuridão, da tua entrega e do abandono a que me votas. E prefiro fechar-me em concha do que espalhar o meu ser na desumana dimensão deste mundo.

E nesta saudade de ti, sou exactamente o que sou. Um mar com noites dentro. Os meus olhos contigo dentro.

Gosto da tua nudez ao luar, dos teus gritos mansinhos, do repenicar dos sinos na Torre dos Clérigos, de quando os troncos cedem nas árvores robustas, de quando os nossos olhos quase chegam, das nossas mãos que quase se tocam.

E gosto quando sei que lês os meus escritos como mapas profundos da alma.

Ou quando finges que não me vês, que não existo ou que te esqueces de mim, mesmo que te provoque intempéries e frémitos no corpo quando me olhas e me sentes.

Fazemos dueto entre a raiva e a meiguice, entre o doce e o amargo e entre beijos enrolados ao pôr-do-sol quando arrastas a minha sombra, mesmo quando nada existe.

E vejo-te em cores, em doces, em cheiros, em frases espalhadas como goticúlas num turbilhão de almas e a tua pele como rosas ao luar e olhos como águas de Maio.

Quero a tua descrição polissilabica em pontuações imperfeitas como o nosso desejo, e as tuas palavras em espiral reconfortante e quero ter-te em virgulas e pontos de exclamação e uma errata onde me detenha.

Basta-me um cruzamento de silêncios, uma análoga intensidade e uns olhos que como margens de um rio, deixam de ser paralelos.

Sei que és singular, como um barco de gestos que encalha no meu porto.
E talvez os troncos cedam no adensar da cheia na ribeira, a tua memória embacie, os nossos corpos se definam à linha e o silêncio faça eco entre nós.

E quero o mar com noites dentro e os meus olhos contigo dentro...

...para ser a tua ultima paragem...!

Medos e palhacites


Sara Tavares - Ponto de Luz
Quando criança tinha medo… medos vários.


Foi a época dos papões, das trovoadas, do “Homem-do-saco”, e das sombras, que significavam gatunos ou almas de outro mundo.

As bruxas não povoavam esses tempos, sabe-se lá, se por falta de vassoura, ou de olhos de morcego.

Mas por vezes juntavam-se “à festa” umas fadas e duendes com varinhas mágicas, que faziam estacionar na minha garagem, os melhores e mais belos carros, e as loiraças espampanantes acocoradas nas jantes dos bólides... (sem abóbora, claro).

Embrulhava-me em lençóis e deixava uma luz de presença acesa e não dormia enquanto não verificava se a clarabóia estava fechada e se nenhuma sombra estava para me incomodar.

Fechava a porta do quarto e ficava com um olho aberto fora dos lençóis a verificar se através das frinchas alguma aranha penetrava, ou se pela fechadura entrava o Gigante.

Lia Patinhas e Asterix e fixava-me na aldeia dos Gauleses e na poção mágica que sabia um dia me iria salvar...

Surgiram entretanto outros medos.

O medo das falhas, dos aviões, do Pinóquio, tinha medo das mentiras dele e se as mentiras de criança podiam proporcionar nariz avantajado...de centopeias e de bruxas... algumas bruxas.

Fui ultrapassando, melhor ou pior esses medos e traumas e fixava o olhar nas águas frias do mar para aferir da minha dose de loucura.

Já me vi em frente do espelho a fazer caretas, a cantarolar imitando Piazzolla, a falar em conferências, a decorar trechos com e sem apetrechos, a dar saltos no escuro a pensar no passo em frente do abismo.

Já me passaram vidas e mortes, nascimentos e torturados pela Pide, doenças, loucos, bruxas e espantalhos, ladrões e alecrins, gaiteiros e sirigaitas e até pseudo-fantasmas em esquinas típicas de bairros atípicos.

Loucos com visibilidade externa e malucos inertes, e palhaços acobardados em risos estridentes cobertos de máscaras de alguém.

E são estes que ainda me arrepiam... os palhaços encobertos, artistas de palco sem poiso nem lugar, saltimbancos da vida, aristocratas sem pele, doutores de tudo e engenheiros de nada, imbecis de antanho.

Por isso, ainda hoje, espreito pelas frinchas e fechaduras, fecho portas a sete-chaves e trato de me tapar, antes que seja acometido de alguma “palhacite”, ou atacado por algum desses passantes.

Esses medos ainda conservo... e é trauma, claro que é.

18 março, 2010

De regresso às estrelas...!


Coldplay - I'm goin' back to the start

Olhei de cima a inquietude dos tempos.
Desabitado em mim, minuciosamente localizo os demais.

Interrogo-me se ainda é a essência do que senti. A tua voz que mudava se não me chegavam palavras e os meus olhos que cegavam se não te via nos meus.

Os teus quadros pintados a contraluz e a minha silhueta que adivinhavas como a memória de um cheiro.
Guardo os segredos por ti desvendados enquanto uma ave debica pão num beirado.

Gostava de me transformar de novo em humano, ter cãibras quando te marco posição, a sede que mato com beijos molhados e disseco Fernando Pessoa num heterónimo estranho.

Hoje o espaço em nós não é mais matéria, nem deslumbre, nem sonho ou sensação, já não me negas noites nem me despes a pele nem te afastas triunfante.

Mas há um espaço solto no tempo, para devorarmos sorvete de morango e chocolate preto e trocarmos dedos de arrepio em afagos sedosos, enquanto os teus lábios se inquietam nos meus e me chega à memória o sedoso da tua pele.

Tão perto e tão longe que nem sei se te posso tocar…

E eu, descalço num desconcerto em mim, pedinte de horas turvas, faminto receoso do teu estado de solidez rochosa.

E já sem espaço, nem luz, nem cheiro, nem riso ou choro, canto ou assobio, sem a letra na carta escrita e esquecida na mesa de apoio, onde enlaçava a tua presença, quando apressada me beijavas, uma e outra vez.

Essas cartas com letra difusa que me provavam que existias para lá de mim e dos meus sonhos.

Funesta quimera, angústia sem fim, uma perda sem limites e frases soltas no caminho como pedras atiradas num desejo de eternidade como segredos que me contaste.

E assim me dissolvo em partículas de céu, reciclado para outro tempo, onde resvalo para dentro de ti e vou lendo na encruzilhada do teu corpo pedaços de cartas que me deixaste,

E aí… talvez aí… escreva o livro desejado, agora também em contraluz, como os quadros de “Gauguin”.

10 março, 2010

Ave migratória


Robbie Williams - She´s the one

Por vezes delicada, outras vezes àspera, voavas em circulos, dissecando a minha artéria femoral.


Amor nos braços de um táxi, nas profundezas das piscinas, pontões de praias interditas, areias escaldantes de mares entrecortados com rochas de esperança, salas de cinema de fim de tarde, sofrimentos como lugar comum e par na sorte.

Uma lua que espreita como alcoviteira privativa e eles escondidos na pele fingindo apagar estrelas naquele jeito-sem-jeito de namorados inquietos.

Tentaram o pote de ouro na cauda do arco-íris e em cada cor um beijo...em cada beijo uma cor.

Estavam pelos vinte e viviam no limbo dos paraísos ocasionais numa urgência de felicidade que os salpicava.
Andavam ao arrepio dos humores numa cidade com luz, embriagada em tinto carrascão e castanha assada em cones de jornal amarelecido.

E os meus ciúmes de meio metro por metro quadrado por tudo o que era espaço, ciúmes de tudo o que rodeia mesmo nas voltas matemáticas e posturas fisico-quânticas que trazias da faculdade.

Adorava os gestos estudados e o sotaque que me atiravas em dueto e com um gesto tórrido fechavas-me os olhos empurrando língua, selando lábios como uma modista em três alinhavos e duas molas pregadeiras.

Mendigos de côdea rala, passamos a dormir em constelações diferentes e vagueavamos pé ante pé com espaços no pensamento.

O teu decote na blusa sem mangas, as sandálias de tiras modernas e o calor do corpo que brota a espaços e a minha alma em sobressalto.
E nessa cave imensa onde cabe a solidão, nos lugares recônditos e escuros, plantavas orquideas e rosáceas, deixando propagar o perfume para os quatros cantos do coração.

Embalavas-me sentidos como quem coloca um selo vagaroso em carta aberta e resvalavas palavras que me sobem no corpo em jeito teatral como encantador de serpentes
E eterno apaixonado queria sentir-te em qualquer lufada de ar fresco, em qualquer nuvem por qualquer sol, plantando o meu amor na tua tez esbranquiçada devolvendo-me a capacidade de atentar nos detalhes do traço incerto da minha escrita ténue.

Inquieto, aguardava que me retorquisses palavras adocicadas com incisão na pele devolvendo-me o prazer do silêncio.
Trazes-me assim em estado liquido e aguardo desde então que um qualquer oráculo te envie de novo para mim.

És uma ave migratória.