Ave migratória


Robbie Williams - She´s the one

Por vezes delicada, outras vezes àspera, voavas em circulos, dissecando a minha artéria femoral.


Amor nos braços de um táxi, nas profundezas das piscinas, pontões de praias interditas, areias escaldantes de mares entrecortados com rochas de esperança, salas de cinema de fim de tarde, sofrimentos como lugar comum e par na sorte.

Uma lua que espreita como alcoviteira privativa e eles escondidos na pele fingindo apagar estrelas naquele jeito-sem-jeito de namorados inquietos.

Tentaram o pote de ouro na cauda do arco-íris e em cada cor um beijo...em cada beijo uma cor.

Estavam pelos vinte e viviam no limbo dos paraísos ocasionais numa urgência de felicidade que os salpicava.
Andavam ao arrepio dos humores numa cidade com luz, embriagada em tinto carrascão e castanha assada em cones de jornal amarelecido.

E os meus ciúmes de meio metro por metro quadrado por tudo o que era espaço, ciúmes de tudo o que rodeia mesmo nas voltas matemáticas e posturas fisico-quânticas que trazias da faculdade.

Adorava os gestos estudados e o sotaque que me atiravas em dueto e com um gesto tórrido fechavas-me os olhos empurrando língua, selando lábios como uma modista em três alinhavos e duas molas pregadeiras.

Mendigos de côdea rala, passamos a dormir em constelações diferentes e vagueavamos pé ante pé com espaços no pensamento.

O teu decote na blusa sem mangas, as sandálias de tiras modernas e o calor do corpo que brota a espaços e a minha alma em sobressalto.
E nessa cave imensa onde cabe a solidão, nos lugares recônditos e escuros, plantavas orquideas e rosáceas, deixando propagar o perfume para os quatros cantos do coração.

Embalavas-me sentidos como quem coloca um selo vagaroso em carta aberta e resvalavas palavras que me sobem no corpo em jeito teatral como encantador de serpentes
E eterno apaixonado queria sentir-te em qualquer lufada de ar fresco, em qualquer nuvem por qualquer sol, plantando o meu amor na tua tez esbranquiçada devolvendo-me a capacidade de atentar nos detalhes do traço incerto da minha escrita ténue.

Inquieto, aguardava que me retorquisses palavras adocicadas com incisão na pele devolvendo-me o prazer do silêncio.
Trazes-me assim em estado liquido e aguardo desde então que um qualquer oráculo te envie de novo para mim.

És uma ave migratória.

Comentários

Anónimo disse…
Digo que adorei, que felizmente vale a pena aguardar por mais um texto seu.
Que leio muitos autores que não têm a sua capacidade, que alguma editora o devia publicar.
Digo que não deve parar.
Anónimo disse…
Simplesmente sublime.
TG
Ana disse…
Todos temos asas. As asas servem para voar..às aves permitem-lhes migrar, a nós onde a nossa imaginação nos levar...
O texto está lindo!
Bj
Anónimo disse…
E eis que, pelo teu punho, surge a beleza sublime, definida como um estado criativo do ser, resultante de uma vida conscientemente relacionada com a imaginação, que não conhece o medo.
O resultado só poderia ser a imponência magistral de um “castelo”, bem ao jeito de Gaudí, que, tal como os dele, perdurará no tempo e na memória daqueles que, no seu interior, tenham a capacidade de se deixar inebriar pelo rendilhado das palavras…
Porque não partilhar esse vasto espolio?!!!!
Parabéns, J.P.
annie disse…
E eis que, pelo teu punho, surge a beleza sublime, definida como um estado criativo do ser, resultante de uma vida conscientemente relacionada com a imaginação, que não conhece o medo.
O resultado só poderia ser a imponência magistral de um “castelo”, bem ao jeito de Gaudí, que, tal como os dele, perdurará no tempo e na memória daqueles que, no seu interior, tenham a capacidade de se deixar inebriar pelo rendilhado das palavras…
Porque não partilhar esse vasto espolio?!!!!
Parabéns, J.P.
Lídia Borges disse…
Ave migratória volta sempre!

Um beijo
DIABINHOSFORA disse…
Pega lá nas tuas asas e passa no meu blogue, para apanhar um prémio para o 1000 conversas.

Parabéns pelo post, está lindo!

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