18 março, 2010

De regresso às estrelas...!


Coldplay - I'm goin' back to the start

Olhei de cima a inquietude dos tempos.
Desabitado em mim, minuciosamente localizo os demais.

Interrogo-me se ainda é a essência do que senti. A tua voz que mudava se não me chegavam palavras e os meus olhos que cegavam se não te via nos meus.

Os teus quadros pintados a contraluz e a minha silhueta que adivinhavas como a memória de um cheiro.
Guardo os segredos por ti desvendados enquanto uma ave debica pão num beirado.

Gostava de me transformar de novo em humano, ter cãibras quando te marco posição, a sede que mato com beijos molhados e disseco Fernando Pessoa num heterónimo estranho.

Hoje o espaço em nós não é mais matéria, nem deslumbre, nem sonho ou sensação, já não me negas noites nem me despes a pele nem te afastas triunfante.

Mas há um espaço solto no tempo, para devorarmos sorvete de morango e chocolate preto e trocarmos dedos de arrepio em afagos sedosos, enquanto os teus lábios se inquietam nos meus e me chega à memória o sedoso da tua pele.

Tão perto e tão longe que nem sei se te posso tocar…

E eu, descalço num desconcerto em mim, pedinte de horas turvas, faminto receoso do teu estado de solidez rochosa.

E já sem espaço, nem luz, nem cheiro, nem riso ou choro, canto ou assobio, sem a letra na carta escrita e esquecida na mesa de apoio, onde enlaçava a tua presença, quando apressada me beijavas, uma e outra vez.

Essas cartas com letra difusa que me provavam que existias para lá de mim e dos meus sonhos.

Funesta quimera, angústia sem fim, uma perda sem limites e frases soltas no caminho como pedras atiradas num desejo de eternidade como segredos que me contaste.

E assim me dissolvo em partículas de céu, reciclado para outro tempo, onde resvalo para dentro de ti e vou lendo na encruzilhada do teu corpo pedaços de cartas que me deixaste,

E aí… talvez aí… escreva o livro desejado, agora também em contraluz, como os quadros de “Gauguin”.

8 comentários:

DIABINHOSFORA disse...

Uma música linda, com uma letra maravilhosa e a condizer com um texto fabuloso!
É tocante, a forma como escreves.

E um livro Pedro, quando sai?

Beijo

Joana Brito disse...

É de outra dimensão o que se lê aqui. Cada palavra tem a forma de uma imagem perceptível.

Sempre bom, muito bom...

Delirius disse...

quero ler esse teu livro
bj

annie disse...

Li-o e reli-o.
A cada leitura, um aperto no coração e um nó na garganta.
Uma lágrima rolou sobre a minha face.

Inevitável pensamento me assaltou:
“Não se trata somente de inteligência, cultura ou raciocínio meticulosamente trabalhado. Não se trata de vivencias ou experiencias presentes.
Ele tem o Dom. Aquele que nos transporta desta vida para a que se segue e, por breves instantes, faz-nos sentir omnipresentes.”

TU tens esse “dom”…
E, consciente ou não, partilhas essa dádiva….
Obg, J.P.

Ana disse...

Simplesmente...delicioso!
Bj

Lídia Borges disse...

Fico sempre um pouco perdida nos teus textos como se quisesse desconstruí-los até à exaustão para ver o que está para além deles. E não é do autor que falo, mas do texto enquanto expressão literária que, neste caso, parece sugerir muito mais do que descrever.

Mesmo correndo o risco de não ser nada original digo que gostei.

L.B.

Tânia disse...

Dá vontade de ler, ler mais e voltar a ler... tantas vezes quantos nos queremos envolver e retirar das palavras o que a nossa imaginação permitir.
Parabéns.
TG

Guida disse...

hoje o dia é de poesia.
poesia que se faz
que se escreve
que se pinta
todos os dias
assim a alma o queira
assim a alma o sinta
hoje o poeta és tu
amanhã, quem sabe,
serei eu.
tu, eu ou seja quem for
o importante é a poesia.

Lindo, este texto