26 março, 2010

Medos e palhacites


Sara Tavares - Ponto de Luz
Quando criança tinha medo… medos vários.


Foi a época dos papões, das trovoadas, do “Homem-do-saco”, e das sombras, que significavam gatunos ou almas de outro mundo.

As bruxas não povoavam esses tempos, sabe-se lá, se por falta de vassoura, ou de olhos de morcego.

Mas por vezes juntavam-se “à festa” umas fadas e duendes com varinhas mágicas, que faziam estacionar na minha garagem, os melhores e mais belos carros, e as loiraças espampanantes acocoradas nas jantes dos bólides... (sem abóbora, claro).

Embrulhava-me em lençóis e deixava uma luz de presença acesa e não dormia enquanto não verificava se a clarabóia estava fechada e se nenhuma sombra estava para me incomodar.

Fechava a porta do quarto e ficava com um olho aberto fora dos lençóis a verificar se através das frinchas alguma aranha penetrava, ou se pela fechadura entrava o Gigante.

Lia Patinhas e Asterix e fixava-me na aldeia dos Gauleses e na poção mágica que sabia um dia me iria salvar...

Surgiram entretanto outros medos.

O medo das falhas, dos aviões, do Pinóquio, tinha medo das mentiras dele e se as mentiras de criança podiam proporcionar nariz avantajado...de centopeias e de bruxas... algumas bruxas.

Fui ultrapassando, melhor ou pior esses medos e traumas e fixava o olhar nas águas frias do mar para aferir da minha dose de loucura.

Já me vi em frente do espelho a fazer caretas, a cantarolar imitando Piazzolla, a falar em conferências, a decorar trechos com e sem apetrechos, a dar saltos no escuro a pensar no passo em frente do abismo.

Já me passaram vidas e mortes, nascimentos e torturados pela Pide, doenças, loucos, bruxas e espantalhos, ladrões e alecrins, gaiteiros e sirigaitas e até pseudo-fantasmas em esquinas típicas de bairros atípicos.

Loucos com visibilidade externa e malucos inertes, e palhaços acobardados em risos estridentes cobertos de máscaras de alguém.

E são estes que ainda me arrepiam... os palhaços encobertos, artistas de palco sem poiso nem lugar, saltimbancos da vida, aristocratas sem pele, doutores de tudo e engenheiros de nada, imbecis de antanho.

Por isso, ainda hoje, espreito pelas frinchas e fechaduras, fecho portas a sete-chaves e trato de me tapar, antes que seja acometido de alguma “palhacite”, ou atacado por algum desses passantes.

Esses medos ainda conservo... e é trauma, claro que é.

1 comentário:

Guida disse...

Medos quem os não tem
Medos quem os não teve
Do gato do cão
do lobo do papão
Medo de errar ou de falhar
Medos quem os não teve
Medos quem os não tem
De parecer sem o ser
De chorar sem poder
De falar o que não quer
De rir sem culpar ninguém...
Mas vá-se o medo
que entrem os sonhos pela fresta
que fique a porta aberta!!!!