27 abril, 2010

Sopro do Porto



Ruas na cidade.

Granito solto como pedreira virada ao mundo. Espaços estreitos, ilhas desalinhadas, uma baixa com referência arquitectónica.

A turbulencia no Douro que encharca uma ribeira de peito farto e mulher cheia.
Gente que filtra outra gente, silêncios de alma, alho porro e martelinho.

Ecos de solidão, sobrevivência e um fardo na memória retirado das cictrizes que te cosem o interior.

Um cimbalino e um verde com as tripas como manda a tradição, o cabrito pelo S. João, o salto da fogueira, grupos na Baixa, na Boavista e na Foz e as luzes dos dois lados que se unem por cinco pontes marialvas e iluminam o ar de festa com o foguetório altruista.

Mascarados sem dentes, arrivistas de almas perdidas e equilibristas sem corpo. Embriaguez de alma e uma seringa que deambula no bairro do Cerco.

Ossos desalinhados enquanto trocas os Vês pelos Bês em névoas matinais e um abraço amigo que te cobre o peito e afaga o rosto.

Um sopro do Porto, na chuva que te cobre o rosto e o teu sorriso navega como barcos rabelos nas margens do Douro.

As pontes que atravessas como ligações de alma enquanto os Clérigos majestosos destacam a paisagem do Palácio de Cristal.

Evocas o Chico Fininho e a Serra do Pilar, enquanto partes de Campanhã até à Foz, e eu procuro a forma da tua boca na arquitectura da cidade.

Guardo segredos por ti desvendados, enquanto deslaço sentimentos que trazes a tiracolo como as fotos que tiras na casa da musica.

É este o nosso espaço, eu nos antípodas e tu insone à espreita, os teus passeios no Velasquez e um Dragão que grita vitorioso.

Curvo-me perante ti e arrepia-me os lustros e espelhos do Magestic, enquanto fui perdendo a pele e deixando o tempo no caminho.

São graniticas as ruas da cidade e vorazes amizades lá criadas, enquanto se iluminam as casas de pasto numa Sé despovoada e corremos como miudos por Santa Catarina, qual intrépidos heróis de palmo e meio.

Olho o crepúsculo num céu de meia-noite, e quero agarrar as constelações todas para te oferecer... como um sopro do Porto.

20 abril, 2010

NOS BRAÇOS DA LUA





 Era chegada a hora do baile da Lua.

Enquanto a noite se aprontava, os convidados afinavam vozes, iluminavam as suas roupas e riam do calar do silêncio.

Tocava a musica e os sapatos de verniz com calças de cetim desfilavam no firmamento.
Estrelas despontavam, enquanto o Sol já desaparecido, contorcia-se nocturno para espreitar.
Eu, ainda descalço, embriagado de cor e vazio de cerimónias, depositava uma flor na tua mão.
E… foi assim que passamos a noite... passeando o silêncio pela mão.

Naquele ponto havia longe e distância e a certeza de não mais sentir a falta… da falta que sentíamos de nós.

Existe um fio ténue, cru, incolor, mas um fio que nos liga, enquanto no baile da Lua as estrelas resplandescem e a musica convida.
Não sei a medida, nem a distância, nem se encordoado ou não, nem se tem alma ou matéria, mas sei que me prende a ti.

Sinto eternidade nestas almas que aqui habitam, encravadas num vazio oco, que me faz olhar uma e outra vez para baixo, não vá falhar-me o pé.
Estou longe de tudo e de todos, num lugar onde a alma desperta e a insónia de querer tudo e absolutamente nada, habita uma dança de emoções.

Permaneço em terra de ninguém no baile da Lua, aprumado, fervilhante de sonhos e ideias, mas sem pé, saltando ao pé-coxinho de lugar em lugar, cratera em cratera, num ritual estonteante, como estrelas que vagueiam e cometas deslizam serpenteando o céu, num infinito colorido.

Agora aqui.
Daqui a pouco, ali.
Fim ou começo? Tudo ou nada? Palco ou plateia? Sou metáfora criada por mim entre pinceladas ténues e delicadas ou firmes e dolorosas, a pastel ou carvão, a quente como se emoção fosse o meu nome… mas não é.

Momentos estes, mais-que-perfeitos, gerúndios ao entardecer entre aplausos ressoados a chuva do outro lado do Mundo, num azul profundo onde os Anjos moram e o cheiro a nós fica, presos pelo fio sem cor, dançando nas brechas da Lua, enquanto o Sol desconfiado agita raios calorosos, como se gritasse o meu nome... mas não grita.

Só a musica e o bailado...o silêncio e a espuma dos dias por contar, os sapatos de verniz, laço aprumado em camisa branca e fato assertoado.

Seremos então espectadores de uma Lua que se desnuda graciosa nos braços do oceano, desvendando a sua harmonia em tons de pérola, a rodopiar sem fim, como se o amor não terminasse nunca mais.

Que se demore sem fim, para que germine em nós um sorriso, nessa dança unica no baile da Lua.

13 abril, 2010

Sílabas e o meu jardim de Inverno



Não é tarde nem cedo, nem longe nem perto.


Tenho a voz a conjugar paixão na língua afásica dos anjos e os olhos desorbitados dentro de um perímetro que fecha um círculo onde ensaio palavras inconformadas.

Não alcanço nunca o jardim de inverno nem as palavras dos pássaros, as vozes dos anjos, nem árvores semeadas, nem os dias inclinados, como se fosse a manifestação sublime da escrita, que não atinjo.

Tento a inquietude, movimentar-me na palavra, transpor-me nela, soltar os ímpetos da mão que revigora frase.

Nunca nos ensinam a sobreviver, mandam-nos à luta e trazemos a vida inteira estampada no olhar, como as rugas dos velhos.

Caminho nesse chão que pisas, percorro o ritmo e ângulos de luz que nos povoam, e o meu medo.

Medo de não saber olhar.

Ou olhar com decalque, um plágio no olhar, abraços de mar que não dou e palavras baças que não escrevo, nem frases substanciais, porque não sei chegar a ti.

Falas coisas sem palavras, nem gestos,  numa mudez simbólica e afinal entendo tanto do que exprimes.

Não trazes manifestações nem efusões nem mil palavras ou centenas de frases, gestos intemporais, e no entanto está lá tudo,

Tu na palavra eu na escrita, nem simbiose nem superação. Recorrências de memória, precisão de bisturi.

E eu, uma ilha, um braço de mar, uma Atlântida adormecida, nem senha nem contra-senha, nem nome próprio.

Vínculos precários num festival de equinócios, arremessando ameias e sílabas, por cada olhar teu, resgatado no coração salgado de um Anjo.

O mar traz frases e gestos atirados ao vento e uma medusa que se arrasta por entre memórias, refúgio de pensamentos escondidos.

É esse o teu sentir na grafia de vogais abertas de mil sinónimos inúteis como fonética de dor.

E eu a escrever dissilábico, sem alcançar o jardim de inverno, nem palavras de pássaros ou vozes de Anjo, nem a superação sublime da escrita.

03 abril, 2010

CARA OU COROA




Desenho-te a traço carregado, como numa cirurgia reconstrutiva.

Vivo em ti, como se nascesse com febre dos fenos, pé boto, carência vitamínica ou incomodo sazonal.

Aprende-se a viver com isto, como o teu espírito colado à minha pele, a asma que me habita e a vista cansada, o meu “footing” matinal e o teu olhar que me perturba uma e outra vez.

Insistes em aparecer por entre os meus sonhos, entre frases e letras miudinhas que já não leio, e os teus sinais as tuas lembranças que já mal recordo.

Reclamas das datas que não sei, da minha cabeça no ar, dos locais onde passamos e dos beijos que demos em noites de lua cheia e dos meus sonoros uivos (nas tuas palavras).

Relevo o teu olhar matreiro e o meu constrangimento quando me apertas num arremesso de desejo violento, em poses vertiginosas como atleta olímpica em maratonas cruzadas com movimentos em paralelas assimétricas.

E apareces assim do nada nas noites sombrias de leituras nocturnas, saída do capitulo nove no terceiro parágrafo.

Sim... sei que invento estas histórias em catadupa, que de outro modo não saberia escrever, nem tu existes, nem os dias são mais dias, nem as noites mais ternurentas.

E os teus olhos aqui, entre frases ditadas por mim ao acaso, espiando cada letra, cada pontuação, terminando por mim, ponto final, parágrafo, travessão.

E escrevo para sentir, sem condicionantes, moralismos, ditames, ditados, obstáculos e preconceitos.

E tento pela escrita, numa cirurgia melodiosa como pianista erudito, ter-te para mim, sem mordaças, defesas ou carapaças.

Sei que vou acordar dentro em breve, talvez no capítulo doze, e num piscar de olhos chegamos ao fim… que há noites que são longas demais para a rapidez de um amor absoluto ou curtas consoante a lassidão de cada um,

E assim enquanto sonho, desenho-te vagarosamente como sinal premonitório, virando cara ou coroa, sem código nem senha, traço ou pintura, nem vislumbre de aurora boreal.

Será assim com cara e sem coroa que te verei, qual cirurgia reconstrutiva.

PREMIO

 Este prémio foi gentilmente oferecido pelo Blogue DIABINHOS FORA (http://aidiabo.blogspot.com/) da M M.
                  Visitem-no que vale a pena.



Devo responder a 3 questões e passar a três outros blogues que considere merecedores.

1. Por que acha que mereceu este selo?

R: Não faço ideia. Foi simpatia da Diabinhos!

2. Na sua opinião, qual o post do seu blogue que acha merecedor de um prémio?

R: Claro que os textos são diferentes e cada qual tem um trabalho de escrita e construção por trás. Não escolho nenhum em particular. Todos eles são reflexo da minha vontade e desejo de escrever.

3. Do blogue que me indicou, o que mais me agrada? Ele merecia o blog de ouro?

R: Sem dúvida que sim!  É um blogue bem trabalhado, onde sobressai maturidade e envolvência na escrita, pecando apenas por não nos brindar com mais.

E passo este prémio a.....

HEAVENLY  - http://vascotrancoso.blogspot.com/
O Vasco fotografa e escreve maravilhosamente

RETRATOS E TEATROS - http://www.retratoseteatros.pt.to/
Porque está lá o meu filho (lol) e amigos que conheço e de quem gosto,  porque eles sabem escrever e têm boas opiniões e excelentes ideias.

FIOSSOLTOS - http://fiossoltos.blogspot.com/Porque a Ana tem gestos maravilhosos e porque escreve bem, de forma simples, bonita e tem muita piada.