CARA OU COROA




Desenho-te a traço carregado, como numa cirurgia reconstrutiva.

Vivo em ti, como se nascesse com febre dos fenos, pé boto, carência vitamínica ou incomodo sazonal.

Aprende-se a viver com isto, como o teu espírito colado à minha pele, a asma que me habita e a vista cansada, o meu “footing” matinal e o teu olhar que me perturba uma e outra vez.

Insistes em aparecer por entre os meus sonhos, entre frases e letras miudinhas que já não leio, e os teus sinais as tuas lembranças que já mal recordo.

Reclamas das datas que não sei, da minha cabeça no ar, dos locais onde passamos e dos beijos que demos em noites de lua cheia e dos meus sonoros uivos (nas tuas palavras).

Relevo o teu olhar matreiro e o meu constrangimento quando me apertas num arremesso de desejo violento, em poses vertiginosas como atleta olímpica em maratonas cruzadas com movimentos em paralelas assimétricas.

E apareces assim do nada nas noites sombrias de leituras nocturnas, saída do capitulo nove no terceiro parágrafo.

Sim... sei que invento estas histórias em catadupa, que de outro modo não saberia escrever, nem tu existes, nem os dias são mais dias, nem as noites mais ternurentas.

E os teus olhos aqui, entre frases ditadas por mim ao acaso, espiando cada letra, cada pontuação, terminando por mim, ponto final, parágrafo, travessão.

E escrevo para sentir, sem condicionantes, moralismos, ditames, ditados, obstáculos e preconceitos.

E tento pela escrita, numa cirurgia melodiosa como pianista erudito, ter-te para mim, sem mordaças, defesas ou carapaças.

Sei que vou acordar dentro em breve, talvez no capítulo doze, e num piscar de olhos chegamos ao fim… que há noites que são longas demais para a rapidez de um amor absoluto ou curtas consoante a lassidão de cada um,

E assim enquanto sonho, desenho-te vagarosamente como sinal premonitório, virando cara ou coroa, sem código nem senha, traço ou pintura, nem vislumbre de aurora boreal.

Será assim com cara e sem coroa que te verei, qual cirurgia reconstrutiva.

Comentários

Delirius disse…
A tua inquietação, sempre primorosamente dita.
Tem Páscoa de Paz, Pedro.
Beijo
annie disse…
Hoje tive entrada livre na "nona maravilha do mundo"…
Momento de rara beleza, sedutoramente hipnotizante!
Obg, J.P
Anónimo disse…
... e acordo contigo a folhear a minha sétima página, do meu vigésimo capítulo...reclamas da letra miudinha, das ilustrações sumidas...queres agarrar-me, tocar-me, prender-me...avanças mais umas páginas soltas como solto é o meu cabelo...deslizo na folha branca de papel qual lençol de linho bordado a ponto pé de flor ou ponto cadeia...nada mais importa que as breves palavras finais deste livro...o suspense é total e a tua curiosidade corrói o teu interior...
A tua escrita tem disto...apetece-me continuá-la!!!
Esta música tem muito significado para mim. Obrigada pela escolha

Mensagens populares deste blogue

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS

EXISTISTE ANTES DE EXISTIR