13 abril, 2010

Sílabas e o meu jardim de Inverno



Não é tarde nem cedo, nem longe nem perto.


Tenho a voz a conjugar paixão na língua afásica dos anjos e os olhos desorbitados dentro de um perímetro que fecha um círculo onde ensaio palavras inconformadas.

Não alcanço nunca o jardim de inverno nem as palavras dos pássaros, as vozes dos anjos, nem árvores semeadas, nem os dias inclinados, como se fosse a manifestação sublime da escrita, que não atinjo.

Tento a inquietude, movimentar-me na palavra, transpor-me nela, soltar os ímpetos da mão que revigora frase.

Nunca nos ensinam a sobreviver, mandam-nos à luta e trazemos a vida inteira estampada no olhar, como as rugas dos velhos.

Caminho nesse chão que pisas, percorro o ritmo e ângulos de luz que nos povoam, e o meu medo.

Medo de não saber olhar.

Ou olhar com decalque, um plágio no olhar, abraços de mar que não dou e palavras baças que não escrevo, nem frases substanciais, porque não sei chegar a ti.

Falas coisas sem palavras, nem gestos,  numa mudez simbólica e afinal entendo tanto do que exprimes.

Não trazes manifestações nem efusões nem mil palavras ou centenas de frases, gestos intemporais, e no entanto está lá tudo,

Tu na palavra eu na escrita, nem simbiose nem superação. Recorrências de memória, precisão de bisturi.

E eu, uma ilha, um braço de mar, uma Atlântida adormecida, nem senha nem contra-senha, nem nome próprio.

Vínculos precários num festival de equinócios, arremessando ameias e sílabas, por cada olhar teu, resgatado no coração salgado de um Anjo.

O mar traz frases e gestos atirados ao vento e uma medusa que se arrasta por entre memórias, refúgio de pensamentos escondidos.

É esse o teu sentir na grafia de vogais abertas de mil sinónimos inúteis como fonética de dor.

E eu a escrever dissilábico, sem alcançar o jardim de inverno, nem palavras de pássaros ou vozes de Anjo, nem a superação sublime da escrita.

5 comentários:

Lídia Borges disse...

Poesia, poesia pura e poesia não se comenta... Sente-se! E esta senti-a intensamente.

"Plágio no olhar" / Plágio no sentir.

Delirius disse...

"não é tarde nem é cedo"
... é simplesmente a hora da tua verdade... porque... "you d'ont bieleve" na verdade de alguém!

... e a tua voz que conjuga paixão em vão... as silabas dos passaros... que não alcanças e o teu precisar de inquietação na palavra que elas constroem..., as dores estampadas no olhar, as sombras que pisas, dos passos..., o medo, esse perseguidor cuel...

e....
e....

"E eu a escrever dissilábico, sem alcançar o jardim de inverno, nem palavras de pássaros ou vozes de Anjo, nem a superação sublime da escrita."

e... desculpa contrariar-te, mas... tu te superando sempre, na tua sublime escrita!

Beijo

Mag disse...

Não é tarde nem é cedo para ter um jardim de Primavera onde a distância se mede aos palmos que quisermos, enquanto seres livres e atentos, anjos ou diabos, que se perdem ou encontram no vasto arvoredo dos sentidos, onde as palavras e os gestos dançam ao ritmo chilreado da passarada, onde os abraços se entrelaçam no verde da esperança e os beijos loucos são cores de flores a monte; assim são os corpos deitados, para deleite e descanso do amor, na palavra do escritor.

OutrosEncantos disse...

Olá!
Reli-te e reli-te, como de costume!
Tens uma expressão a que é dificil resistir. É uma escrita que dá gozo ler. Li sempre com a música em tom baixinho, sem atentar na sua letra, para sentir melhor a tua.
Hoje dei-me conta de como a letra dessa canção é linda, também.
Gosto de te ler.
Beijo.

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado