20 abril, 2010

NOS BRAÇOS DA LUA





 Era chegada a hora do baile da Lua.

Enquanto a noite se aprontava, os convidados afinavam vozes, iluminavam as suas roupas e riam do calar do silêncio.

Tocava a musica e os sapatos de verniz com calças de cetim desfilavam no firmamento.
Estrelas despontavam, enquanto o Sol já desaparecido, contorcia-se nocturno para espreitar.
Eu, ainda descalço, embriagado de cor e vazio de cerimónias, depositava uma flor na tua mão.
E… foi assim que passamos a noite... passeando o silêncio pela mão.

Naquele ponto havia longe e distância e a certeza de não mais sentir a falta… da falta que sentíamos de nós.

Existe um fio ténue, cru, incolor, mas um fio que nos liga, enquanto no baile da Lua as estrelas resplandescem e a musica convida.
Não sei a medida, nem a distância, nem se encordoado ou não, nem se tem alma ou matéria, mas sei que me prende a ti.

Sinto eternidade nestas almas que aqui habitam, encravadas num vazio oco, que me faz olhar uma e outra vez para baixo, não vá falhar-me o pé.
Estou longe de tudo e de todos, num lugar onde a alma desperta e a insónia de querer tudo e absolutamente nada, habita uma dança de emoções.

Permaneço em terra de ninguém no baile da Lua, aprumado, fervilhante de sonhos e ideias, mas sem pé, saltando ao pé-coxinho de lugar em lugar, cratera em cratera, num ritual estonteante, como estrelas que vagueiam e cometas deslizam serpenteando o céu, num infinito colorido.

Agora aqui.
Daqui a pouco, ali.
Fim ou começo? Tudo ou nada? Palco ou plateia? Sou metáfora criada por mim entre pinceladas ténues e delicadas ou firmes e dolorosas, a pastel ou carvão, a quente como se emoção fosse o meu nome… mas não é.

Momentos estes, mais-que-perfeitos, gerúndios ao entardecer entre aplausos ressoados a chuva do outro lado do Mundo, num azul profundo onde os Anjos moram e o cheiro a nós fica, presos pelo fio sem cor, dançando nas brechas da Lua, enquanto o Sol desconfiado agita raios calorosos, como se gritasse o meu nome... mas não grita.

Só a musica e o bailado...o silêncio e a espuma dos dias por contar, os sapatos de verniz, laço aprumado em camisa branca e fato assertoado.

Seremos então espectadores de uma Lua que se desnuda graciosa nos braços do oceano, desvendando a sua harmonia em tons de pérola, a rodopiar sem fim, como se o amor não terminasse nunca mais.

Que se demore sem fim, para que germine em nós um sorriso, nessa dança unica no baile da Lua.

4 comentários:

Delirius disse...

Que doce!
Como é possível não voltar aqui vezes sem fim?!
Então, digo até já :)

DIABINHOSFORA disse...

",,,embriagado de cor e vazio de cerimónias, depositava uma flor na tua mão."

A simplicidade e a beleza do gesto, aliada à riqueza das emoções.
Muito lindo Pedro!

Beijinho

Lídia Borges disse...

Mais presente, menos passado...

A mesma alma dançando, entre linhas de luar e músicas de nostalgia.

Um beijo

Carla disse...

Como em palavras soltas, se dizem coisas tão brilhantes...
Gostei muito...