18 maio, 2010

Será assim que as coisas ficam ?



Dói-me o corpo e estranho-me como se estivesse fora de mim.

Por vezes um passo, um salto no vazio e nem sei se nas nuvens se no chão empedrado.

Sinto as artérias flamejantes o coração fora do sitio e um cair desamparado como se deixasse de existir.

Será assim que as coisas ficam ?
Apagamos e mais nada ?

Uma veia bulímica articula batimentos com o coração. Fantasmas envolvem-me e escutam em confissão como se um engano cósmico... os fiapos de atenção que não tenho.

Pedaços de asas abertas em atitude protectora, fazem-me sombra e seguram-me do passo seguinte. O teu corpo que chama por mim e eu como que misturado em ti.

Os meus fantasmas dançarinos e eu desafinado, rasgo a pele como rabiscos na escrita, rascunhos, traços finos por dentro de ti, pinceladas de cor no teu cinzento cortante.

Habito paredes meias entre silêncios calibrados num sorriso e palavras desgarradas, truncadas, encriptadas e incorrectas, como contornos de cordilheira, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda.

Será assim que as coisas ficam ?

Morro lento quando a noite encobre o prazer, batendo asas de saudade em abraços apertados e uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas telúricas.
Morro assim mesmo, antes que fique dia.

As palavras, tal como eu, perecem no tempo, um vazio que não se respira, uma pele sem alma na solidão dos instantes.
Os reposteiros que acolhem o sol enquanto estrangulas o sonho e desesperas por consolo que tarda na alvorada

És cúpernico, ateu, agnóstico um perímetro exterior de mim ou um beco sem saída.
Os meus fantasmas dançarinos que vagueiam por aí e me envolvem num aconchego de silêncio num bailado que se acoita nas horas mortas.

Somos geometria perfeita de enganos, cartas à moda antiga, desejos circulares e redundantes.

Será assim que as coisas ficam ?

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Pedro Muito bonito este seu poema que li de enfiada e repeti: fez-me chorar Continue por favor, virei sempre lê-lo sem falta Maria Gil

Anónimo disse...

Um texto enigmático a começar pelo seu título; a escrita continua a ser o veículo das emoções dos escritores com alma. As coisas ficam da forma que queremos e deixamos; o escritor assim quer; uma interrogação constante no tempo e na vida.

annie disse...

…e assim vai surgindo uma nova figura de estilo: a dualidade, que a ritmo cadente vai marcando a irrefutável certeza do presente, a ausência do passado e o certeza de um futuro incerto…

A vida?!! Bom … essa!?
Demasiado curta para tantas emoções…
Demasiado longa sem elas…

Anónimo disse...

Continua a sensibilidade e o bom gosto em tudo o que escreves…as coisas ficam como tu quiseres, com o destino que lhe deres…tens essa liberdade de escritor, de as deixar ficar como estão ou de as alterar…
Decide a cada sombra que te segura de dar o passo seguinte, e reinventa as respostas!

“Será assim que as coisas ficam?
Apagamos e mais nada ?”

Não, os momentos e as memórias devem ficar…

Ana

Lídia Borges disse...

Não sei se é assim que as coisas ficam. Mas é assim que nós vamos deixando ficar as coisas em partidas antecipadas que não sabemos deter.

Um beijo

PATIVIEGAS disse...

Por sabermos que a vida é demasiado curta ...vamos aproveita-la e 'fazer o favor de sermos felizes' sem restrições.

bjinhos da tua sobrinha
Ana Patricia Viegas