24 maio, 2010

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Reza a história que há muito, muito tempo, um Arauto do Bem pronunciou um juramento.

Afirmou, para quem o quis ouvir (e também para os outros), que queria mais empregos, uma economia crescente, um País com ideias e que seria contra, mas totalmente contra, ilhas de políticos e gestores num País tão pequeno.

Disse aquilo que todos nós, o Povo, gostamos de ouvir.

Contratou para o seu séquito, nobres afamados e alguns Bobos da Corte, para alegrar a dita.

Abrenúncio, Saramago, pé de cabra. Excomungo os maus e enlevo os bons – afirmou.

Este Cavaleiro Andante, sempre pronto a recolher bênções à esquerda e à direita, teve notórios e auspiciosos resultados na promoção e cultivo dos valores do altruísmo e solidariedade, na defesa e protecção dos fracos, necessitados e injustiçados, assim como na desmotivação, perseguição e erradicação do compadrio e das injustiças do mau-olhado.

Nunca Deus, nestas Cruzadas pelo Império deixou de inspirar tamanho Cavaleiro, de decisões tão certeiras e atinadas.
A consciência e espírito de missão levaram-no a matricular-se em cursos intensivos de construção, Inglês, politiquices bacocas e outras coisas tais, que o iriam ajudar na sua Cruzada contra os arrasadores do obscurantismo e a má-fé dos espíritos das trevas que se colocam no seu caminho.

Qual conquistador, ele lutou pela Europa, e andou perdido nas trevas, onde ainda se encontra (e não se sabe quando sai), armado de tridente, tal como São Miguel Arcanjo na luta contra os opositores.

O seu discurso de Missionário leva-o a calcorrear caminhos para pregar sermões em todas as localidades, a Norte e a Sul, mas não tem muito impacto pois a áurea está a definhar.

Sentindo-se ameaçados e acossados, os ardilosos, recalcitrantes e manhosos adversários, propalam calúnias e atoardas contra o Oráculo.

Acusam-no de não pertencer a estes domínios, mas sim a uma entidade estrangeira pois ninguém entende que só ele veja aquilo que ninguém descortina.

O seu despudor vai ao ponto de espalharem, que as verdadeiras intenções do paladino do bem, não são as que afirma nas suas intervenções, atirando-lhe à cara a aleivosia de que, por debaixo do verniz das palavras, se esconde uma figura semelhante à dos vendedores ambulantes de remédios miraculosos para os calos e outras dores.

A isto reage o Cavaleiro Andante com afinco, brandindo a espada e o tridente na defesa do seu reino, da justiça e honra ofendidas. E invoca que nada mais o deixaria satisfeito, do que elevar o seu reino a resultados surpreendentes, não procurando vantagens pessoais ou de grupo, sendo que o imperativo da verdade obriga a ir até ao fim, nunca abandonando o seu lugar.

Os seus inimigos não se comovem, nem esmorecem, antes respondem que o Missionário quer é destruir o Reino, para ditar regras e leis a seu bel-prazer.

Fazem-se alianças de modo a enfraquecê-lo e desestabilizá-lo, para gáudio do mal e inquietação do bem.

De parte, outros, confortados pelas investidas de ambos os lados, não escondem o riso, pois sabem que, se de um lado, a espada e o tridente são de plástico e fruto da imaginação, do outro a verborreia esbarra sempre na indiferença e ausência do Cavaleiro Andante.

Perante isto e alguns apartes gagos de alguns Bobos da Corte, que com as suas piruetas vão brincando às Empresas e aos Gestores, às compras e vendas e aos benefícios como quem desdobra cartas do Monopólio.

E pronto cheguei ao fim, agora que a imaginação me abençoava.

Mas também pouco mais haveria a dizer, pois nesse reino, nada mais existe e poucas noticias se conseguem obter.

Mas não julguem que este conto é para ser desacreditado, alto lá…

Então, nesse reinado cinzento e triste, mergulhado em mil tristezas, tão necessitado de heróis e santos, não interessa um Missionário, Cavaleiro, Profeta, um Arquétipo de tamanha envergadura?

Consta que vontade não faltava ao Cavaleiro Andante, sobrando-lhe crença e convicção. Impôs a si mesmo esta cruzada pelo bem e pela verdade, e a todos disse não.

- Deste reino não saio, aqui mando eu!

Venham Ministros e Governantes doutros reinos, que neste, vamos ter Scut´s, Tgv´s, travessias do Tejo, novos aeroportos e até salas de fumo na Assembleia.

Perante tal, a humildade tornou-o grande e fez dele Santo.

(Qualquer semelhança com episódios conhecidos, é apenas coincidência).



in... http://www.retratoseteatros.pt.to/

José Pedro Viegas

3 comentários:

DIABINHOSFORA disse...

Este texto está uma verdadeira delícia!
Parti-me a rir...parabéns!

Lídia Borges disse...

Era uma vez, num reino muito distante, um cavaleiro andante...
Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade.

Um beijo

Anónimo disse...

Perfeita banda desenhada... ou um bom cartoon; nunca se sabe... vasto espólio.

Continue a acuidade!