03 maio, 2010

SIMPLESMENTE




Olhares que se cruzam e ficam na iminência do expirar do prazo, entre uma reticência e outra.

Não sei quanto vale o instante, mas sei do empecilho das palavras quando os nossos olhares se tocam.

Devolve-me o prazer do silêncio, esse que nos abraça e alcança entre risos estridentes, como só nós.
Esse que escorrega devagar pelos vidros, enquanto a chuva lá fora, chora da ausência de ti.

O teu coração conhece os detalhes do meu e juntos desatam nós e bloqueios, redescobrindo caminhos novos para o espaço entre o verbo e o canto.

Quero proteger-te de todos os Invernos, das lamas e lençóis de água, do frio, das nuvens e do pó que se atira e se mete por dentro de nós, e sentir contigo o gelo que derrete no beiral e as rãs que coaxam no charco enquanto encostas o teu rosto no meu ombro e descansas em mim para sempre.

Afago-te as feridas e os gemidos de dor nos momentos cruéis e acompanho-te o compasso dos sonhos, e encosto-me aos teus medos e anseios, conferindo-te presença.

Mapeei a minha vida nos contornos do teu corpo e deslizei no teu rosto entre beijos humedecidos e quentes.
Quanto te olho não preciso de palavras e quando te oiço não preciso da tua presença, pois tenho-te sempre em mim.

Já não te conheço apenas nos dias ímpares, mas também quando o sol se põe, ou quando afasto os teus fantasmas com a mão.
Evito os duendes que te embaraçam quando não consegues adormecer e desenho o trajecto dos teus lábios quando serenamente procuras os meus.

Vamos guardar os silêncios semibreves, enquanto nos olhamos uma e outra vez sem ponto final, quando as palavras se gastam numa alquimia de bocas, e o tempo parece infinito.

Ecos sem voz, despojos de sorrisos e o colorido das tuas palavras que resgatam paixão por cada pedaço de mim em porções de pedaços de ti.

Olhares que se cruzam entre rascunhos, sínteses e resumos, sem conjugações verbais nem advérbios de modo.

Simplesmente nós… sem reticências.

5 comentários:

Maria Martin disse...

Lindo! Mesmo estando alheada, há já algum tempo do prazer desta leitura, é como um regressar a casa...Muito bom...
"Devolve-me o prazer do silêncio, esse que nos abraça e alcança entre risos estridentes, como só nós."

MJ

annie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
annie disse...

E vagueando por alguns blogs, dei por mim aqui chegada.
A leitura iniciou-se, “simplesmente…”
E, continuando, num jogo de palavras e frases soltas, meticulosamente selecionadas, eis que me deparo com a antítese: a realidade e o desejavel .
E, mais uma leitura findou. “Simplesmente …sem reticencias”. Mas esta com o antídoto.
A iminente chegada da bruma matinal e de mais um escrito. Um daquelas que nos fazem esquecer a ausencia dos dias e os fantasmas das noites…

AB

Lídia Borges disse...

Simplesmente, arrebatador!

Fica-se à espera que o entendimento se recomponha.

Um beijo

Anónimo disse...

Eu diria…simplesmente, tu! Com a tua forma singular de escrever, onde podes tirar reticências, conjugações verbais ou advérbios, imaginar silêncios e momentos, acrescentar o “nós” ou retirar o “eu”, sem que a essência da mensagem ou o significado das palavras deixem de continuar perfeitas.
Bj