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A mostrar mensagens de Junho, 2010

Já é tarde

Podes até ler na palma da mão, nas linhas da vida e do destino.
Podes querer apenas a cumplicidade dos caminhos, os sorrisos que se cruzam, os teus projectos, as idas e voltas em viagens soalheiras os encontros confidentes que nada trazem.

Podes até dizer-me do novo amor, do encontro/reencontro, dos beijos sabor a sal e saber dos meus neurónios e o que valem.
Podes repetir até dez vezes que o tens como teu até desoras aflitas e nocturnos encantos.

Podes confidenciar-me não ser esta a tua praia, o teu lençol de linho, mas esmagas novidades e sorrisos de felicidade em mim, como percorres caminhos tortuosos e saltas entre nuvens ao meu encontro.

Podes falar-me do teu atraso menstrual, do que ele te confessou, das palavras mal geridas, do olhar dos teus pais e da tua imagem ao espelho.
Podes avançar três casas e recuar quatro no Monopólio entre avenidas, ruas desertas e lojas sem decorador.
Podes retalhar cada pedaço teu na procura da verdade em cada pedaço dele, mas sentes que encon…

"Amo-te Maria"

Tens pirateado as emoções e eu, um rancor que me enrola a pele e me faz liquido em combustão a gerir a saudade e o desejo.

Eu sou mais que isso.
O grito que abafo, a mão que protege, o peito que te ampara e o musculo que te absorve.

As plantas, tal como tu, deviam falar. O Sol também. O Mar devia dar opinião, tal como a chuva e o vento. E nós calados, a escutar a reclamação das marés.

No entanto apenas a sombra de uma voz. E o teu sorriso.
Basta sorrires para ser verão.

Mesmo que não cheguem as férias, mesmo que a Cotovia não cante, mesmo que a árvore seque.

No entanto é o teu sorriso que me afasta dos dias amargos, dos relógios gordos, arrebitados, muito gorduchinhos como o Sol ou meia-lua.
E as horas que passam e o Cuco que não sai da gaiola.
As badaladas da Torre dos Clérigos, o raio de Sol que ilumina o Templo de Diana, o teu sorriso na Madragoa com vestes de Santo António.

Tanta gente e no fundo, gente nenhuma.
Nas paredes do Metro, “Amo-te Maria”.
Na parede o spray, conta-…

Mesmo aqui ao lado

Estou mesmo ao teu lado.

Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela
cintura adelgaçante. Salta a culpa, esquiva-te da indecisão e solta o
riso que me acolhe.

Não ligues ao vizinho do lado, que rosna a cada bater de porta, nem ao cheiro a fritos do
óleo-três-semanas nas bifanas do Quim-Zé.

Preparo as entradas e ponho a mesa de copo de tinto na mão, encontro de dedos,
o teu queixo, um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca.

Já não tenho jeito para parágrafos nem interrogações. Sou mais linhas curvas, sílabas tónicas
e a tua indiferença que me reduz a pó.

Nunca entendi essa partilha de beijos não trocados, de abraços esquecidos,
e as águas de Abril reluzentes nas poças do caminho.

Sabes-me como colheradas de rícino nas veias latejantes em silêncio murmurado.

Sou invólucro do que já fui, palavras que me escapam entre os dedos,
fogem a sete-pés, e sete palmos de terra que me acolherão lábios
cerrados à força do riso por mim escondido nas par…
Já nada me surpreende em ti, nem nas árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular.


Esta onde moro tem nome de gaja, cotovelo curto na encosta. Estatuas fálicas, igrejas grandes, e um tipo qualquer que já morreu e nunca morou aqui.

Despejam gente no arraial da aldeia, farinha frita e filhós, açúcar em carradas de farturas e barrigas inchadas dos achaques da cerveja.

Frios cinzentos de “néons”, almas esquecidas vagueando na correnteza esboroada do prédio de arquitectura mortuária.

A senhora gorda, papuda, de mão na testa como medidor altímetro, e o seu mais que tudo em contornos de corpo arqueando braços e mãos, despejando salinas de suor no vestido carmim, volteando o jornal num aconchego de corpo.

Ruídos timoratos de garotos no alcance da passarada e um sapato desemparelhado em bêbedo de virilhas molhadas e ombros caídos num desdém.

Arrota pelintra a três-quartos, no caminho do jogo da bola, barba por fazer, cançonetismo pimba atirado em doze cordas numa espiral d…

HOW WONDERFUL YOU ARE

Atiras com palavras mescladas de sentimentos, em cada nó que em si deslaça, rastro perfumado do teu corpo musical.


A tua língua húmida e um corpo, deserto de mim
Boca forrada de palavras e a culpa do silêncio que me dói, na incerteza de qualquer verdade

Vives reticências cirúrgicas e o nó górdio que impões reflexamente, impedem o alcance desejado.
Cozo-te carne e pele, ato-te a mim e espalho “post-it´s” coloridos no embaraço que sentes quando me tens.

Tento alquimias e feitiços, rezas, bruxarias e candomblé, hologramas de penitências entre Deus e o Divino

Apeteces-me sem protocolos nem palavras vãs, prazos de validade ou preconceito.
E instalas o inferno em ti quando ausente de mim.

Fecho-me em concha, na protecção dos Invernos, marés intensas e lua cheia. Afago as feridas que me deixas com cremes, pinças e algodões.

Guardo os silêncios no meu interior e defino os parágrafos, reticências e ponto final.

Gosto que me confundas com o rebentar das ondas em volúpias do meu corpo encharca…

AOS BOCADOS

Contigo tem de ser aos bocados.

Umas vezes mais próximo, outras mais distante, mas sempre aos bocados.

Bocados pequenos de cada vez, para que me sintas.

O traço incerto dos teus dedos a tua boca carnívora que me atrai para o seu interior, e a tua sombra chinesa que dança entre cadeiras, poisa nos quadros e estatela-se na parede branca.

A rua onde moras, tal como tu. Outras ruas e outras gentes em ti, como uma geometria de enganos.

Rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, almofada aconchegada e o corpo pousado na memória que tenho de ti.

Aos bocados.

Surges-me já vagamente das cordilheiras dos tempos e memórias irreflectidas e no entanto ainda o teu cheiro a alfazema.

Contigo, tem de ser aos bocados.

Bocados fáceis de engolir, mastigar, saborear, porque tu moves-te entre o tenso e o quebradiço, o geral e a textura, o toque e o arrebatamento, o desgosto e a bulimia.

E o meu corpo em câmara lenta, formato digital e tu como Deusa, um eco, pontas soltas, arritmias. Os teus dedos que s…

FORA DE TEMPO

Vinhas num balão que não era teu, abriam-te mais ou menos ar consoante lhes apetecia, num desassossego cavernoso.

Balbuciavas palavras tuas vendidas por outros e os gestos que procuravas não eram teus mas péssimas imitações.

Passavas horas no tempo que te era imposto e soluçavas lágrimas furtivas sem sal.

Foste transfusão errada de sangue, plaquetas ineficazes voos rasantes de corvos como agoiros sistemáticos.

Um tronco a ceder, mergulhado em água baça, memórias em quarto-minguante, fechado na mudez de palavras rotas.

Um fio de gente, um invólucro, bolas de fogo que cospes como se dona da verdade e uma vida irremediável. Espuma de terror que inventas por ti mesma

Hoje inteira, amanhã pela metade, pedaços de asas de anjo que oxidam no tempo.

Uma sombra fátua que te enfeita e uma profilaxia de sobredosagem que te invade num oco recanto.

O teu desdém calcinado, a tabuleta que me atiras com um “trespassa-se”, bailado de memórias assombradas coração descompassado, liofilizado e turvo.