29 junho, 2010

Já é tarde



Podes até ler na palma da mão, nas linhas da vida e do destino.
Podes querer apenas a cumplicidade dos caminhos, os sorrisos que se cruzam, os teus projectos, as idas e voltas em viagens soalheiras os encontros confidentes que nada trazem.

Podes até dizer-me do novo amor, do encontro/reencontro, dos beijos sabor a sal e saber dos meus neurónios e o que valem.
Podes repetir até dez vezes que o tens como teu até desoras aflitas e nocturnos encantos.

Podes confidenciar-me não ser esta a tua praia, o teu lençol de linho, mas esmagas novidades e sorrisos de felicidade em mim, como percorres caminhos tortuosos e saltas entre nuvens ao meu encontro.

Podes falar-me do teu atraso menstrual, do que ele te confessou, das palavras mal geridas, do olhar dos teus pais e da tua imagem ao espelho.
Podes avançar três casas e recuar quatro no Monopólio entre avenidas, ruas desertas e lojas sem decorador.
Podes retalhar cada pedaço teu na procura da verdade em cada pedaço dele, mas sentes que encontras sempre espaços errados, enganos teus, o teu olhar em mim.

Já me falas em sorrisos cúmplices, que enches o vazio no meu olhar e que te sentes a naufragar em humores bipolares.

E tu um barco ancorado, um mastro torto, nó de marinheiro desfeito.
Mala de mão com o amor lá dentro, guardado, apenas teu, como guarda de elite Inglesa,

Podes até falar em ocupares-te de todos os recantos do meu corpo da inevitabilidade do reencontro tardio, que ainda me cobiças os lábios… mas tarde de mais.

Vou expiar toneladas de suspiros, arredondar minutos de alheamento, horas de concha, interiores de tempestade sem bússola, perdido, cego de ti num desnorte a bom porto.

Vou sentir o segundo que antecede a morte, o resquício do beijo, a mansarda partida, o buraco negro do ozono, a coreografia arrojada, mas não me tens na palma da mão, nem em nocturnos encantos, nem linhas de vida nem destino, nem em remoinhos de dor.

Podes até falar, mas já me saíste da ponta da língua, pelos nós dos dedos, escoada pelas chuvas neste Verão crepitante, curtido e defumado, desintoxicado dos contornos de ti.

Até podes, mas já é tarde.

23 junho, 2010

"Amo-te Maria"



Tens pirateado as emoções e eu, um rancor que me enrola a pele e me faz liquido em combustão a gerir a saudade e o desejo.

Eu sou mais que isso.
O grito que abafo, a mão que protege, o peito que te ampara e o musculo que te absorve.

As plantas, tal como tu, deviam falar. O Sol também. O Mar devia dar opinião, tal como a chuva e o vento. E nós calados, a escutar a reclamação das marés.

No entanto apenas a sombra de uma voz. E o teu sorriso.
Basta sorrires para ser verão.

Mesmo que não cheguem as férias, mesmo que a Cotovia não cante, mesmo que a árvore seque.

No entanto é o teu sorriso que me afasta dos dias amargos, dos relógios gordos, arrebitados, muito gorduchinhos como o Sol ou meia-lua.
E as horas que passam e o Cuco que não sai da gaiola.
As badaladas da Torre dos Clérigos, o raio de Sol que ilumina o Templo de Diana, o teu sorriso na Madragoa com vestes de Santo António.

Tanta gente e no fundo, gente nenhuma.
Nas paredes do Metro, “Amo-te Maria”.
Na parede o spray, conta-gotas de qualquer coisa ou coisa nenhuma mas a frase em spray.
E eu, cauteloso a escrever frases, sem saber o quê.
Quem nunca escreveu uma frase?

E o sorriso que vem a caminho no metro e encontra o Spray na parede e o “Amo-te Maria” escarrapachado, sem mais nada.
E no entanto todos lêem e alguns comentam.
Eu, seguro a opinião nos lábios, enquanto penso, a sombra na voz, a combustão da saudade que me abana o esqueleto.

Isto do Amor é estranho e esquisito.
Há-de haver quem saiba. O tipo do Spray e a frase na parede. Ninguém sai intacto.
E no entanto tocam acordeão no metro, linha azul.
Estações que passam, uma escuridão no túnel e as luzes que iluminam o “Amo-te Maria”.

E o tempo fatiado, estrelas que pintam o céu como Dali os quadros.
As frases inacabadas, palavras semi-nuas sem sentido e o corpo adormecido de nada.

E vou acordando, sem sonos ritmados, na inquietude da carência que me pinta a cor da alma.

A falta dos doces da minha Avó, do beijo e abraço do meu Pai os olhos dos meus filhos, o teu azul que inquieta, e eu a beber-me em goladas de sílabas a matar esta saudade mafiosa que tenho de ti.
Parágrafos que deslassam os abraços ferozes em gestos mímicos numa vontade ociosa de sermos hoje melhores que amanhã.

Pirateamos emoções, desfazemo-nos em risos inocentes, partilhamos pedaços de maldade nas brechas deste encanto infantil, enquanto sorrateiramente te armazenas em mim.

No Spray da parede do metro, “Amo-te Maria” a conta-gotas, e o sorriso a caminho de nada.

Basta sorrires para ser Verão.

11 junho, 2010

Mesmo aqui ao lado




Estou mesmo ao teu lado.

Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela
cintura adelgaçante. Salta a culpa, esquiva-te da indecisão e solta o
riso que me acolhe.

Não ligues ao vizinho do lado, que rosna a cada bater de porta, nem ao cheiro a fritos do
óleo-três-semanas nas bifanas do Quim-Zé.

Preparo as entradas e ponho a mesa de copo de tinto na mão, encontro de dedos,
o teu queixo, um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca.

Já não tenho jeito para parágrafos nem interrogações. Sou mais linhas curvas, sílabas tónicas
e a tua indiferença que me reduz a pó.

Nunca entendi essa partilha de beijos não trocados, de abraços esquecidos,
e as águas de Abril reluzentes nas poças do caminho.

Sabes-me como colheradas de rícino nas veias latejantes em silêncio murmurado.

Sou invólucro do que já fui, palavras que me escapam entre os dedos,
fogem a sete-pés, e sete palmos de terra que me acolherão lábios
cerrados à força do riso por mim escondido nas paredes da garganta.

Tranco-me de novo a sete-chaves, não vás aparecer, e aguardo na masmorra escura de mim,
o tempo que se apaga.

Ando aqui com perífrases, enxoto alcovitices da vizinha de cima, mais o pão amassado,
o açúcar que falha, e o meu cérebro tosquiado numa colheita Alentejana e violinos de “Bach”.

Já sequei as roseiras e os sorrisos abertos e sinto motins de inferno dentro de mim,
desactivando-me na perfeição.

Não te faço falta, sou-te dispensa vazia, a tua agenda Moleskin, os amigos e o papagaio,
as festas e a aridez do teu discurso.

As paredes de casa espreguiçam de cansaço, tenho a tua sombra em mim e a pele em chagas
de incisões que me fizeste.

Raios-parta-a-velha, mais o latido do cão, os teus passos na varanda, o fígado que me ataca
e o amor espalhado por aí.

Estou mesmo por aqui,

Três quarteirões em redor, duas vielas depois, uma contracurva apertada,
 vendilhões do tempo que me assolam, verdugos de penumbra e gente sem rosto.

Vou fechar gavetas e janelas, portas sem fechadura, afastar as carpideiras que correm
 com vampiros de mão dada, mergulhar no mar salgado e secar-me dos restos de memória.

Finjo não ver a desmesura teatral que me atiras, estado liquido, desfeito,
num gerir de saudade, mal resolvida por partes iguais.

A gulodice no teu olhar, braços apertados no não perder, misturas subversivas
no corredor e a luz que desligas para tacteares o calor que de mim foge.

Já não sorrio no escuro, como na fímbria da manhã, e sim longe, e
nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.

E eu...aqui ao teu lado.

09 junho, 2010



Já nada me surpreende em ti, nem nas árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular.


Esta onde moro tem nome de gaja, cotovelo curto na encosta. Estatuas fálicas, igrejas grandes, e um tipo qualquer que já morreu e nunca morou aqui.

Despejam gente no arraial da aldeia, farinha frita e filhós, açúcar em carradas de farturas e barrigas inchadas dos achaques da cerveja.

Frios cinzentos de “néons”, almas esquecidas vagueando na correnteza esboroada do prédio de arquitectura mortuária.

A senhora gorda, papuda, de mão na testa como medidor altímetro, e o seu mais que tudo em contornos de corpo arqueando braços e mãos, despejando salinas de suor no vestido carmim, volteando o jornal num aconchego de corpo.

Ruídos timoratos de garotos no alcance da passarada e um sapato desemparelhado em bêbedo de virilhas molhadas e ombros caídos num desdém.

Arrota pelintra a três-quartos, no caminho do jogo da bola, barba por fazer, cançonetismo pimba atirado em doze cordas numa espiral de fumaça pelo canto da boca.

O correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, partida a meio e estreita onde habitam matrafonas gordas do Corso de Torres, sorvedoras de after-shave barato que ele coloca corpo fora e mais nas covas das orelhas, enjoativo e incómodo.

Dedos num esfregaço de médicos alcoviteiros rasgando sorrisos e prazeres avulsos com precisão de bisturi.

Do meu lado, o armário Dona Maria, que veio contigo, presente do teu Pai, onde guardo memórias desfeitas nas gavetas pequenas, nos macramés, os naperons roídos pelo “bolinhas” as rendas desbotadas de noiva que deixaram da tua avó, e as fotos desbotadas dos falecidos com bigode, chapéu e fatiota domingueira.

Já não se me refinam os sentidos como antes, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais o azul atapetado do prédio em frente, onde vivia o Abílio do pão. Sim, os sentidos já se foram, mas ainda sou mulher, apesar das artroses, as rugas emprateleiradas, e o fosso da labuta diária que encolhe a língua de silêncio que me lambuza os domingos.

Tu, com os cremes e desconfianças espalhadas pelo lavatório, eu com toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão, a ver-te de bochecha meia-lua, pelo recanto da boca.

Já nada me surpreende em ti, nem as sopas com pão, nem as prateleiras de sentimentos nem os encostos que ainda me dás, muito menos as tardes de bola ou o tulicreme de barrar por causa da placa.

Já nada me surpreende em ti

05 junho, 2010

HOW WONDERFUL YOU ARE





Atiras com palavras mescladas de sentimentos, em cada nó que em si deslaça, rastro perfumado do teu corpo musical.


A tua língua húmida e um corpo, deserto de mim
Boca forrada de palavras e a culpa do silêncio que me dói, na incerteza de qualquer verdade

Vives reticências cirúrgicas e o nó górdio que impões reflexamente, impedem o alcance desejado.
Cozo-te carne e pele, ato-te a mim e espalho “post-it´s” coloridos no embaraço que sentes quando me tens.

Tento alquimias e feitiços, rezas, bruxarias e candomblé, hologramas de penitências entre Deus e o Divino

Apeteces-me sem protocolos nem palavras vãs, prazos de validade ou preconceito.
E instalas o inferno em ti quando ausente de mim.

Fecho-me em concha, na protecção dos Invernos, marés intensas e lua cheia. Afago as feridas que me deixas com cremes, pinças e algodões.

Guardo os silêncios no meu interior e defino os parágrafos, reticências e ponto final.

Gosto que me confundas com o rebentar das ondas em volúpias do meu corpo encharcado de marés e beijos molhados pelas paredes do teu. Fico assim enredado em ti, como beco sem saída e sem direcção.

Devolve-me o acautelar do riso e a vergonha, noites pacificadas num abraço e a paixão em estado líquido.

Trato a ansiedade, apoplexia, evocações de tragédias, o tremor das pernas e o instante de loucura em sinal de perda, como vísceras que escorregam e estrangulam em morte iminente, e no entanto no enunciado da tragédia, leio analogias nas nuvens e o teu pulsar dentro de mim.

Musica como recompensa, murmúrios de corpos numa entrega sem fim e o desejo nos teus lábios como frágil destino.

E o vazio em que afogo esta paixão que não consigo respirar, no mais solitário dos instantes e a tua alma que vagueia nas asas do condor, tocando harpas e oboés quando me encontras o olhar.

Fecho-me em concha até ao próximo céu numa nova lua de um qualquer planeta estrelado

Atira-me palavras mescladas de sentimentos, sem reticências e respira-me devagar até perderes os sentidos, pontos-cardeais e o mimetismo dócil que me faz criança em ti.

Quero-te de novo, neófito doce entre desamparos de lágrimas que sucumbem na memória que me enjeita, e o teu corpo geométrico no labirinto da minha boca.

03 junho, 2010

AOS BOCADOS



Contigo tem de ser aos bocados.

Umas vezes mais próximo, outras mais distante, mas sempre aos bocados.

Bocados pequenos de cada vez, para que me sintas.

O traço incerto dos teus dedos a tua boca carnívora que me atrai para o seu interior, e a tua sombra chinesa que dança entre cadeiras, poisa nos quadros e estatela-se na parede branca.

A rua onde moras, tal como tu. Outras ruas e outras gentes em ti, como uma geometria de enganos.

Rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, almofada aconchegada e o corpo pousado na memória que tenho de ti.

Aos bocados.

Surges-me já vagamente das cordilheiras dos tempos e memórias irreflectidas e no entanto ainda o teu cheiro a alfazema.

Contigo, tem de ser aos bocados.

Bocados fáceis de engolir, mastigar, saborear, porque tu moves-te entre o tenso e o quebradiço, o geral e a textura, o toque e o arrebatamento, o desgosto e a bulimia.

E o meu corpo em câmara lenta, formato digital e tu como Deusa, um eco, pontas soltas, arritmias. Os teus dedos que se enrolam nos meus, toques subtis de pernas e um desejo intenso como se um Tsunami me invadisse praia e a tua mão em concha.

Leio-te aos bocados enquanto mágicos risquinhos vêem desenhar as minhas palavras, como luz em vitral que refracta um bailado colorido.

E assim vou-te transpirando, soltando dos poros, primeiro o sorriso, depois um braço e uma perna, escoando-te apenas, aos bocados.

E tudo aos bocados. Abraços perdidos em alquimias, noites pacificadas num enrosco, a incisão na pele da tua letra miudinha, e a minha vida.

Os teus becos sem saída, sinais sem sentido, procuras incessantes, e os silêncios que também são meus, semi-breves ou quase nada.

Contigo, tem de ser aos bocados.

FORA DE TEMPO




Vinhas num balão que não era teu, abriam-te mais ou menos ar consoante lhes apetecia, num desassossego cavernoso.

Balbuciavas palavras tuas vendidas por outros e os gestos que procuravas não eram teus mas péssimas imitações.

Passavas horas no tempo que te era imposto e soluçavas lágrimas furtivas sem sal.

Foste transfusão errada de sangue, plaquetas ineficazes voos rasantes de corvos como agoiros sistemáticos.

Um tronco a ceder, mergulhado em água baça, memórias em quarto-minguante, fechado na mudez de palavras rotas.

Um fio de gente, um invólucro, bolas de fogo que cospes como se dona da verdade e uma vida irremediável. Espuma de terror que inventas por ti mesma

Hoje inteira, amanhã pela metade, pedaços de asas de anjo que oxidam no tempo.

Uma sombra fátua que te enfeita e uma profilaxia de sobredosagem que te invade num oco recanto.

O teu desdém calcinado, a tabuleta que me atiras com um “trespassa-se”, bailado de memórias assombradas coração descompassado, liofilizado e turvo.

O passar oxidante do tempo, e a violência feroz que te escorrega em palavras, por não pertenceres a lugar nenhum, habitando espaços emprestados, bafio escuro de uma cama e a luz a refractar-se em bocados partidos de azulejos.

O ar que te falta num balão que não é teu, o âmago de tudo, o trejeito de nada, e a tua mania quezilenta de tese catedrática

Habitas um mundo de cetim, enredada em mantas curtas e rotas que te destapam, num balão que não é teu, numa roupagem de um outro em cenários desmontados à pressa no teatro que inventaste, nudez de palavras rotas.