09 junho, 2010



Já nada me surpreende em ti, nem nas árvores que não dão fruto e ruas que se cruzam em perpendicular.


Esta onde moro tem nome de gaja, cotovelo curto na encosta. Estatuas fálicas, igrejas grandes, e um tipo qualquer que já morreu e nunca morou aqui.

Despejam gente no arraial da aldeia, farinha frita e filhós, açúcar em carradas de farturas e barrigas inchadas dos achaques da cerveja.

Frios cinzentos de “néons”, almas esquecidas vagueando na correnteza esboroada do prédio de arquitectura mortuária.

A senhora gorda, papuda, de mão na testa como medidor altímetro, e o seu mais que tudo em contornos de corpo arqueando braços e mãos, despejando salinas de suor no vestido carmim, volteando o jornal num aconchego de corpo.

Ruídos timoratos de garotos no alcance da passarada e um sapato desemparelhado em bêbedo de virilhas molhadas e ombros caídos num desdém.

Arrota pelintra a três-quartos, no caminho do jogo da bola, barba por fazer, cançonetismo pimba atirado em doze cordas numa espiral de fumaça pelo canto da boca.

O correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, partida a meio e estreita onde habitam matrafonas gordas do Corso de Torres, sorvedoras de after-shave barato que ele coloca corpo fora e mais nas covas das orelhas, enjoativo e incómodo.

Dedos num esfregaço de médicos alcoviteiros rasgando sorrisos e prazeres avulsos com precisão de bisturi.

Do meu lado, o armário Dona Maria, que veio contigo, presente do teu Pai, onde guardo memórias desfeitas nas gavetas pequenas, nos macramés, os naperons roídos pelo “bolinhas” as rendas desbotadas de noiva que deixaram da tua avó, e as fotos desbotadas dos falecidos com bigode, chapéu e fatiota domingueira.

Já não se me refinam os sentidos como antes, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais o azul atapetado do prédio em frente, onde vivia o Abílio do pão. Sim, os sentidos já se foram, mas ainda sou mulher, apesar das artroses, as rugas emprateleiradas, e o fosso da labuta diária que encolhe a língua de silêncio que me lambuza os domingos.

Tu, com os cremes e desconfianças espalhadas pelo lavatório, eu com toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão, a ver-te de bochecha meia-lua, pelo recanto da boca.

Já nada me surpreende em ti, nem as sopas com pão, nem as prateleiras de sentimentos nem os encostos que ainda me dás, muito menos as tardes de bola ou o tulicreme de barrar por causa da placa.

Já nada me surpreende em ti

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Um "ir descendo" pela encosta da rotina, um cair, de cima para baixo, lento e doloroso por já não doer...
Pedro, o que mais admiro no que escreves é essa "proximidade" com o real, do qual eu fujo sempre para poder escrever...

Um beijo

Pedro Viegas disse...

Olá Lidia.
Tento "trabalhar" as personagens, por isso parecem tão próximas. Pelas vivências e observação, vamos construindo. Não imaginam o trabalho que isto dá....
Obg.