11 junho, 2010

Mesmo aqui ao lado




Estou mesmo ao teu lado.

Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela
cintura adelgaçante. Salta a culpa, esquiva-te da indecisão e solta o
riso que me acolhe.

Não ligues ao vizinho do lado, que rosna a cada bater de porta, nem ao cheiro a fritos do
óleo-três-semanas nas bifanas do Quim-Zé.

Preparo as entradas e ponho a mesa de copo de tinto na mão, encontro de dedos,
o teu queixo, um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca.

Já não tenho jeito para parágrafos nem interrogações. Sou mais linhas curvas, sílabas tónicas
e a tua indiferença que me reduz a pó.

Nunca entendi essa partilha de beijos não trocados, de abraços esquecidos,
e as águas de Abril reluzentes nas poças do caminho.

Sabes-me como colheradas de rícino nas veias latejantes em silêncio murmurado.

Sou invólucro do que já fui, palavras que me escapam entre os dedos,
fogem a sete-pés, e sete palmos de terra que me acolherão lábios
cerrados à força do riso por mim escondido nas paredes da garganta.

Tranco-me de novo a sete-chaves, não vás aparecer, e aguardo na masmorra escura de mim,
o tempo que se apaga.

Ando aqui com perífrases, enxoto alcovitices da vizinha de cima, mais o pão amassado,
o açúcar que falha, e o meu cérebro tosquiado numa colheita Alentejana e violinos de “Bach”.

Já sequei as roseiras e os sorrisos abertos e sinto motins de inferno dentro de mim,
desactivando-me na perfeição.

Não te faço falta, sou-te dispensa vazia, a tua agenda Moleskin, os amigos e o papagaio,
as festas e a aridez do teu discurso.

As paredes de casa espreguiçam de cansaço, tenho a tua sombra em mim e a pele em chagas
de incisões que me fizeste.

Raios-parta-a-velha, mais o latido do cão, os teus passos na varanda, o fígado que me ataca
e o amor espalhado por aí.

Estou mesmo por aqui,

Três quarteirões em redor, duas vielas depois, uma contracurva apertada,
 vendilhões do tempo que me assolam, verdugos de penumbra e gente sem rosto.

Vou fechar gavetas e janelas, portas sem fechadura, afastar as carpideiras que correm
 com vampiros de mão dada, mergulhar no mar salgado e secar-me dos restos de memória.

Finjo não ver a desmesura teatral que me atiras, estado liquido, desfeito,
num gerir de saudade, mal resolvida por partes iguais.

A gulodice no teu olhar, braços apertados no não perder, misturas subversivas
no corredor e a luz que desligas para tacteares o calor que de mim foge.

Já não sorrio no escuro, como na fímbria da manhã, e sim longe, e
nunca, apesar de tudo, estiveste tão perto.

E eu...aqui ao teu lado.

2 comentários:

annie disse...

“Salta três ruas, uma praceta, acelera o passo e contorna-te pela cintura adelgaçante…
...um olhar penetrante o suave perfume que se desfaz na minha boca…”
E por momentos senti-me lá.
È esta a magia dos teus escritos. Enquanto lidos superam os dias insípidos e ausentes…
A.W

Alda disse...

Bela escrita como sempre Zé!
Já não passava por aqui à uns tempos, e gostei do novo visual do blogue! Espreite o meu, e veja as noivas de Santo António, estão o máximo!!!
Beijinhos