"Amo-te Maria"



Tens pirateado as emoções e eu, um rancor que me enrola a pele e me faz liquido em combustão a gerir a saudade e o desejo.

Eu sou mais que isso.
O grito que abafo, a mão que protege, o peito que te ampara e o musculo que te absorve.

As plantas, tal como tu, deviam falar. O Sol também. O Mar devia dar opinião, tal como a chuva e o vento. E nós calados, a escutar a reclamação das marés.

No entanto apenas a sombra de uma voz. E o teu sorriso.
Basta sorrires para ser verão.

Mesmo que não cheguem as férias, mesmo que a Cotovia não cante, mesmo que a árvore seque.

No entanto é o teu sorriso que me afasta dos dias amargos, dos relógios gordos, arrebitados, muito gorduchinhos como o Sol ou meia-lua.
E as horas que passam e o Cuco que não sai da gaiola.
As badaladas da Torre dos Clérigos, o raio de Sol que ilumina o Templo de Diana, o teu sorriso na Madragoa com vestes de Santo António.

Tanta gente e no fundo, gente nenhuma.
Nas paredes do Metro, “Amo-te Maria”.
Na parede o spray, conta-gotas de qualquer coisa ou coisa nenhuma mas a frase em spray.
E eu, cauteloso a escrever frases, sem saber o quê.
Quem nunca escreveu uma frase?

E o sorriso que vem a caminho no metro e encontra o Spray na parede e o “Amo-te Maria” escarrapachado, sem mais nada.
E no entanto todos lêem e alguns comentam.
Eu, seguro a opinião nos lábios, enquanto penso, a sombra na voz, a combustão da saudade que me abana o esqueleto.

Isto do Amor é estranho e esquisito.
Há-de haver quem saiba. O tipo do Spray e a frase na parede. Ninguém sai intacto.
E no entanto tocam acordeão no metro, linha azul.
Estações que passam, uma escuridão no túnel e as luzes que iluminam o “Amo-te Maria”.

E o tempo fatiado, estrelas que pintam o céu como Dali os quadros.
As frases inacabadas, palavras semi-nuas sem sentido e o corpo adormecido de nada.

E vou acordando, sem sonos ritmados, na inquietude da carência que me pinta a cor da alma.

A falta dos doces da minha Avó, do beijo e abraço do meu Pai os olhos dos meus filhos, o teu azul que inquieta, e eu a beber-me em goladas de sílabas a matar esta saudade mafiosa que tenho de ti.
Parágrafos que deslassam os abraços ferozes em gestos mímicos numa vontade ociosa de sermos hoje melhores que amanhã.

Pirateamos emoções, desfazemo-nos em risos inocentes, partilhamos pedaços de maldade nas brechas deste encanto infantil, enquanto sorrateiramente te armazenas em mim.

No Spray da parede do metro, “Amo-te Maria” a conta-gotas, e o sorriso a caminho de nada.

Basta sorrires para ser Verão.

Comentários

Anónimo disse…
E lemos e embalamo-nos na tua escrita, serena às vezes, forte outras, ritmadas sempre.
Mas que embalam o leitor e o fazem estar lá como neste metro e nesta pintura de Spray.
Dali pintava quadros, tu pintas historias escritas.
Lindo!
Lídia Borges disse…
Seja Verão, Pedro... Sempre Verão!

Um beijo
OutrosEncantos disse…
Se os sons da natureza pudessem te contar tudo o que desejarias saber, não haveria mais anseios, nem os secretos desejos que fazem o coração bater, o sangue ferver, a raiva rasgar.
Eu gosto de te reler milhentas vezes e de todas elas ver as palavras a saltar como peças de puzzle, sentimentos, cada uma se encaixando em seu sítio numa total ordem/desordenada de sentidos.
É muito bom poder ler-te. Bj.
Anónimo disse…
mas porque é que eu volto sempre por aqui?!
hoje não é verão mas... a alma leu-te e penso que te sorriu
Anónimo disse…
"Basta sorrires para ser verão"
Esta frase é fabulosa.
Parabéns, gostei imenso.

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