19 julho, 2010

Do I look Alright?




As tuas brincadeiras de criança.

A necessidade que tenho de te puxar “às cordas”, para te abocanhar atenção.
Sempre a tua partitura interior, distraída, um franzir de testa, risquinhos marcados como ondas irrepetíveis.

A minha mão direita na tua calça de ganga, marcada, rasgada e o meu peito no teu e um beijo enregelado, tacteado como cego no teu interior.

A minha boca em espera, ainda.
Beijos de ontem, na espera.

Do I look alright?

E roubo-te aos bocados.
Com as duas mãos, enrolada na ponta dos dedos amassada ao teu desnorte, fundida em mim.
Gestos nos gestos que a mão faz sem contar.
Perímetros em subtracção, volteando corpo, escondida no olhar
Dedos de pintora, modeladora, alquimista da alma,

Fechadura e torniquete no coração, ventos de luz e um dobrar de pálpebras

Conto as palavras que te digo para não exagerar, nem a mais nem a menos.

As minhas mãos que não chegam para tanto de ti, luzes que não se acendem e os fantasmas que nos habitam, que nos acorrentam, que nos secam feridas, que nos sabem caminhos sem mapa nem bússola

Do I look alright?

A minha boca em espera,
Dragões nas curvas do céu, peça por peça para te construir, riscos de chuva, nuvens como telas, pinceladas.

E as mãos macias, ternas, gulosas, vadias.
Uma bolha parada no tempo, um toque amargo nos lábios e nós dentro do tempo a recuperar o doce,

Gaivotas com mensagens de textos alinhados na memória, as tuas brincadeiras de criança, os gestos largos irrepetíveis, as mãos frescas e doces, o teu olhar, alquimia de alma.

Do I look Alright ?
Yes, you look wonderful tonight!

17 julho, 2010

VERGONHAS



Manténs o riso rasteiro a valsar na tua boca envergonhada, enquanto olhas o chão e ruborizas vergonhas como puto mimado.

Estás como que gasto, um amor velho e desmazelado.
Cheio de lamechices, olhos sem auspícios de cama, apenas um franzir de sobrolho que te sobra na memória.

Vejo-te sem mundo, magoado, engelhado, sem pele nem cor dominante onde te agarre interesse, pálpebras caídas, arrepiado.

Pede-se magia, um truque de feira, pomada milagrosa, uma corrida no poço da morte.
Enrola e desenrola, levanta o queixo e aspira saúde, faz a barba a três quartos, espalha rubores pela cara e açoita esse animal.

Ronrona baixinho e compõe geometrias enquanto arqueias papa-léguas e te mostras felino quando os pelos se eriçam.
Faz-te animal bravio, sapato desemparelhado, cueca solta e um fantasma que te habita a espaços.
Abre-te de espanto, liquida silêncios e palavras meias, calibra o riso e o acento tónico, toca polegares no corpo dela e abala-lhe os sentidos.

Fica alerta com punhal afiado, mareando ondas de supetão, ajusta zoom interno e intensifica a voz aguda na face esquerda dela, enquanto lhe cais na direita como futebolista em falta na entrada da área.

Faz-lhe da boca desatenção, contorna-lhe pescoço desabrigado e escorrega-lhe preguiças pelo corpo.

Ris-te da volúpia contorcionista em becos sem saída, num desejo circular e redundante.
Pede-se de novo magia, polegares ao alto, jogada p´ra golo, numa malícia de mãos afogadas nos teus lábios, enquanto te atiras de cabeça para o poço da morte.

Valsa mais firme o sorriso na boca envergonhada.

03 julho, 2010

Memórias



Tenho cinco anos e o meu Avô morreu.
Deitado, despede-se da família, a minha mãe no seu braço, e o silêncio respeitoso por quem parte.
Olho por cima do ombro da minha vista, um suspiro que ninguém ouve, um bater de porta, sapatos de verniz que me alcançam.
A minha avó num movimento estranho, o grito suspenso, a bênção Tio e o anel de família no topo do mundo.

Folhas que abanam o quintal da casa, um som de fundo indefinível, as vozes que se misturavam até não parecerem mais vozes. As que se aproximavam, as que se afastavam.

Os choros contidos, os mais soltos, assim juntos numa melodia, até não serem mais tristeza ou perda, mágoa ou queixume, sequer arrependimento ou culpa.
Não era nenhum e contudo, todos simultaneamente.

Os homens afastavam-se depois de semearem mais diálogos fortuitos, as mulheres de negro junto ao chão da terra revolta em esgar de dor.

O miúdo preferiu adormecer. Sonhar amanhã e imaginar como ontem.
Pés em filas de passos desnecessários, curvas na memória e os dias que morrem em fila, ordenados.

Compêndios de história, cestos de vime, de como se faz das tripas coração, da luta contra Salazar, falado em sussurro inquietante.
O aprumo de marinheiro, porte altivo. Água mole em pedra dura…
Não desaparecias nunca assim, dizias...
Afinal há mil maneiras de morrer.

O fim e o abandono, corpo deitado, e o olhar que ignoro que me olha.
Pedro como eu. Alto, frontal, enérgico., mas doce, muito doce.
Aprendi contigo a fazer a soma de silêncios e a ver o tempo nas pausas, na tal solidão interior.

Até um dia, daqui a muito tempo como um piscar de olhos entre a eternidade e o fim.
É já ali.