03 julho, 2010

Memórias



Tenho cinco anos e o meu Avô morreu.
Deitado, despede-se da família, a minha mãe no seu braço, e o silêncio respeitoso por quem parte.
Olho por cima do ombro da minha vista, um suspiro que ninguém ouve, um bater de porta, sapatos de verniz que me alcançam.
A minha avó num movimento estranho, o grito suspenso, a bênção Tio e o anel de família no topo do mundo.

Folhas que abanam o quintal da casa, um som de fundo indefinível, as vozes que se misturavam até não parecerem mais vozes. As que se aproximavam, as que se afastavam.

Os choros contidos, os mais soltos, assim juntos numa melodia, até não serem mais tristeza ou perda, mágoa ou queixume, sequer arrependimento ou culpa.
Não era nenhum e contudo, todos simultaneamente.

Os homens afastavam-se depois de semearem mais diálogos fortuitos, as mulheres de negro junto ao chão da terra revolta em esgar de dor.

O miúdo preferiu adormecer. Sonhar amanhã e imaginar como ontem.
Pés em filas de passos desnecessários, curvas na memória e os dias que morrem em fila, ordenados.

Compêndios de história, cestos de vime, de como se faz das tripas coração, da luta contra Salazar, falado em sussurro inquietante.
O aprumo de marinheiro, porte altivo. Água mole em pedra dura…
Não desaparecias nunca assim, dizias...
Afinal há mil maneiras de morrer.

O fim e o abandono, corpo deitado, e o olhar que ignoro que me olha.
Pedro como eu. Alto, frontal, enérgico., mas doce, muito doce.
Aprendi contigo a fazer a soma de silêncios e a ver o tempo nas pausas, na tal solidão interior.

Até um dia, daqui a muito tempo como um piscar de olhos entre a eternidade e o fim.
É já ali.

5 comentários:

Anónimo disse...

O momento é de silêncio…
Mais uma vez, as palavras fogem e os pensamentos tolhem-se, perante o esplendor do teu escrito…
Apenas leio e viajo.
Releio e continuo a viagem....agora já num extase total.Perplexa perante esse jeito puro e simples de transportares alguém para o passado, presente e futuro. Para aqui, para ali e até para o ALÉM…

“Simplesmente” extraordinário
AW

Chris disse...

Entre a eternidade e o fim... que bom voltar a ler-te por aqui. Gostei do novo design do teu blogue onde as conversas sabem a poesia...
Um beijo
Chris

Lídia Borges disse...

A morte pelos olhos da criança...

Porque voltará sempre, mesmo quando os olhos já amadureceram?

O texto empurra-nos como folha seca, à toa, no tempo até ao fundo da memória.

Um beijo

antonia disse...

Oi JP
O visual o blog tá lindo.
O texto...nossa!
Fiquei uma eternidade sem aparecer e vc sempre me surpreende. Vc consegue me levar prá além da vida...sem chorar...
Por isso vc é o meu amigo de além mar...tão especial!
Bj

MeuSom disse...

eu tinha 5 anos e numa manhã alguém me tirou da cama e enquanto me vestia dizia: o avozinho morreu...! e eu não entendi nada...! Era um militar, grande de olhar sério e azul e beijo doce. Costumava sentar-me na dobra do braço e ainda sobrava lugar...! Naquela manhã lembro-me de ter desatado num choro convulsivo enquanto o via "sair de casa" de um modo pouco normal, não tinha ainda percebido que não ia voltar a vê-lo! O meu avô! Nunca mais tive outro!