17 julho, 2010

VERGONHAS



Manténs o riso rasteiro a valsar na tua boca envergonhada, enquanto olhas o chão e ruborizas vergonhas como puto mimado.

Estás como que gasto, um amor velho e desmazelado.
Cheio de lamechices, olhos sem auspícios de cama, apenas um franzir de sobrolho que te sobra na memória.

Vejo-te sem mundo, magoado, engelhado, sem pele nem cor dominante onde te agarre interesse, pálpebras caídas, arrepiado.

Pede-se magia, um truque de feira, pomada milagrosa, uma corrida no poço da morte.
Enrola e desenrola, levanta o queixo e aspira saúde, faz a barba a três quartos, espalha rubores pela cara e açoita esse animal.

Ronrona baixinho e compõe geometrias enquanto arqueias papa-léguas e te mostras felino quando os pelos se eriçam.
Faz-te animal bravio, sapato desemparelhado, cueca solta e um fantasma que te habita a espaços.
Abre-te de espanto, liquida silêncios e palavras meias, calibra o riso e o acento tónico, toca polegares no corpo dela e abala-lhe os sentidos.

Fica alerta com punhal afiado, mareando ondas de supetão, ajusta zoom interno e intensifica a voz aguda na face esquerda dela, enquanto lhe cais na direita como futebolista em falta na entrada da área.

Faz-lhe da boca desatenção, contorna-lhe pescoço desabrigado e escorrega-lhe preguiças pelo corpo.

Ris-te da volúpia contorcionista em becos sem saída, num desejo circular e redundante.
Pede-se de novo magia, polegares ao alto, jogada p´ra golo, numa malícia de mãos afogadas nos teus lábios, enquanto te atiras de cabeça para o poço da morte.

Valsa mais firme o sorriso na boca envergonhada.

3 comentários:

Eloah disse...

Estive aqui no teu Blog.Lindo!!Fiz um leve sobrevoo e valsei junto ao poema.Um grande abraço

OutrosEncantos disse...

Não há dúvida que és incomparável!
Beijo.

Lídia Borges disse...

Envolvente... Há um quê de desejo incontornável de mudança, apesar do sentido circular do texto, como se não houvesse saída para as angústias do sujeito lírico.

Um beijo