26 agosto, 2010

DOURO




Range metal sobre metal numa chiadeira estridente.
Prolongamento de memórias, nostalgia e deslumbramento, suspiros nas curvas apertadas.
A canícula que desaperta os ossos, a encosta da serra, telhados românticos, árvores que cercam o casario, videiras entrelaçadas.

Sombras de nuvens, fantasmas que se demoram em cada traço do caminho que percorres.
A incessante criatura sem rosto que vislumbras ao longe no socalco, imergindo do verde da planície, um caos ilógico na arrumação dos campos.

E tu como relógio, mostradores inquietos, ponteiros pontiagudos como a verve que evaporas boca fora.

Sons do tempo, enevoado e frio, folhas de árvores que se riem a cada passo teu.
A tua sombra do lado esquerdo de encontro ao muro, esmagada de encontro ao muro.
Piadinha entre folhas, risinhos histéricos e a árvore frondosa que as manda calar.

Já falaste com alguma árvore?

A subida da colina serpenteante, carregando um calvário completo. Um remorso vivo, como a dor.
A dor e uma árvore sem galhos, nem folhas, nem diálogos entre elas.
Apenas a dor a apertar, parecendo distante por não a querermos.

Range o som metálico e frases aos solavancos, despovoadas.
Sombras, restos de gente a agitar, misturas de luz, estrelas e vozes.
A voz como o andar da noite, vagarosa, incompleta.

Uma impressão digital a enganar o diabo.
Pinturas ancestrais no povoado, pedras colocadas por defeito, provas de vinhos que afastam maus augúrios, o diabo e as tropelias.

Cestos de vime repletos de morangueiro, uva branca e preta, engalanados com parras de cheiro fresco.

Caminhantes sozinhos, vertigens de cor e paz, refluxos de emoções partilhadas, substitutos de existências por memória.

Metal sobre metal, uma chiadeira de risinhos estúpidos, de folhas assustadas como se o Outono chegasse.

Já falaste com alguma árvore?

19 agosto, 2010

O teu feitiço



O teu segredo… a meiguice sem medida, o destempero em que te soltas, jorro de afectos sem espera.
Alquimia na tua pele que entendo como obra do “Demo” tal a inquietação que provoca. Tanto me tira o ar como me solta o riso.

O teu feitiço
Esse arrastar de mãos, suave e ardente como conhaque velho.
Palavras quebradiças, resignadas à sorte que lhes caberá.

Esgueiras-te entre brechas como refúgio
Afasto-me de mim tantas vezes e observo-me ao longe como Rembrandt os quadros inacabados.

As assistolias, um suporte de vida, apito agudo constante, linha ténue marcando a partida, o sopro final e eis que tropeço no teu olhar e desperto para a vida num trago.

Colo-te palavra por palavra, gesto por gesto, pedaços de corpo em corpo de mulher, o teu feitiço.

Não, não és tu que me baralhas, sou eu que me confundo nesta geometria perfeita de enganos, naufrágio de constelações inteiras.

O teu segredo em ritmos pachorrentos, circuitos entre vielas antigas, a nossa casa de madeira em Hoshinoya /Quioto, candeeiros de bambu e biombos de papel de arroz que se espreguiçam na nossa direcção.
Dias que despojo do corpo estropiado por toques subtis. Os minutos que não temos e o meu cansaço nas tuas costas, confinados a um espaço que se deseja intemporal.

O paradoxo de nos arrastarmos na sombra, embalados por nocturnos silêncios, parágrafos completos, baixos-relevos, heráldica amorosa e delimitas os meus lábios como partitura para orquestra sinfónica.

O teu feitiço
E eu, sem reacção, resposta ou oposição, olhar tosco, palavra siderada, inquietude orgânica, abano de esqueleto, coisa feia, coisa má, coisa minha e coisa tua.

Sou eu afinal… o teu feitiço.