20 setembro, 2010

Esboços



Esboços de memória.
O Sol pintado com um sorriso aberto, uma árvore com frutos e um verde a espraiar-se.
Uma bicicleta, duas rodas dezoito, o mar em ondas, uma expressão estética mal conseguida.
Nunca faço a lápis sempre a tinta, e contorno, modifico, e renovo a textura.
Salto entre sofá e mesa e de novo sofá, numa inquietação sofrida, leis misteriosas do meu corpo.

Quantas vezes soluços de cuco, saídos da portinhola interior. Gemidos como corda acabada de dar no relógio.
Na minha memória um piano de cauda, sons do mesmo, os meus dedos que fervem no dedilhar constante.

Caíste-me num beijo pintado em tons de azul e eu absorvido por ti, nem me dei conta do tempo em que estive.
É a tua sombra que me persegue, laivos fugazes do que foste.
Tenho espaços vazios por preencher e receio da falta de ar ou da sobredosagem, que possa vir.

Deixo a alma, frases, e pele por entre espaços.
Fisgadas nos pássaros, corridas de carros de rolamento avenida abaixo, calções rasgados, memórias dependuradas em mim, às minhas costas, dentro da alma, apertadinho.

Tenho permanente a tua profilaxia nas minhas veias, gotículas do que foste e um vazio na memória que me afasta urdiduras.

Um deslizar sulfuroso pelas tubagens do meu interior numa quebra súbita de tensão.
A minha bica meio-cheia, o teu corpo vazio o nosso guerrear na minudência, e o teu sorriso malandro que me engasga reticências.

1 comentário:

Maria disse...

Lindissimo...como sempre! É um prazer passar por aqui.
Bjinho