20 setembro, 2010

O meu violino



O meu violino, a musica e o meu anjo-da-guarda,
tudo encorpado e palavras dengosas.
Este meu pranto sem vontade, este sono que não durmo, esta água que não bebo
e esta morte tão perto que a cheiro.

O meu violino.
Esta musica que me povoa e agita e me confunde entre os sons o sono e a memória.
O arrastar do meu corpo para a sombra e esta alma sem sentido.

O meu desdém calcinado, a tabuleta que trago espetada em mim – trespassa-se – o meu corpo sem alinho nem prumo nem remendos.
Esse som que me arrasta, que me traz de novo, que ressuscita uma mente estúpida e povoada de imbecilidades.

O meu violino e tu, e eu aos poucos, desperto, atento, menos surdo, redimido e absolvido em confissão.

Liofilizo-me, vibro com oboés e flautas de bisel, sons no coração espetados com alfinete bebé.

Desempoeiro a alma, dois caminhos sem sentido, um sentido único.
Desconhecimento bíblico, ideia peregrina de sinfonias numa implosão enunciada.

O meu violino que derrapa acordes rateados e o meu passo emplastrado de loucura decepada.
Musica como aritmética de sobrevivência e um texto premonitório, corpos embalados, bolas de fogo, boca fora.

O passar oxidante do tempo, musica e um violino, traços incertos de dedos pequenos.
Tolos desmandos e um arremedo de paz, resgates em mar alto, um sonho agitado, figurinhas encenadas, perfil seráfico e um descanso “gourmet”.

Dias bipolares, ternura pouco-a-pouco, pingando como torneira mal fechada num coração desabrigado, de sonhos indecifráveis.
O meu violino, e eu.

4 comentários:

Lídia Borges disse...

Um violino que entra no texto e toca em crescendo uma revolta contida em notas de solidão.
Fico mais um pouco.


Um Beijo

Maria disse...

A melodia irá mudar...brevemente ouvirei uma valsa nas entrelinhas e de novo um sorriso!
Bjs

Anónimo disse...

que as palavras perturbadoras se mantenham em ti teimosas e irreverentes na dança dos sentires,
muito embora haja "matéria" para ler e reler sem nunca cansar, sempre a deixar uma sensação de sede que obriga a voltar, há uma carência de palavras novas,
sentem-se cada vez mais distantes,

não nos deixes, Pedro.
beijo.

Anónimo disse...

.... uma sede carente de laranjas colhidas no momento... da arvore,
mas a secura perdura...
que vale nascem sempre mais laranjas...
e logo ali ao lado os sons rateados do violino foram se tornando melodiosos...
o sonho venceu o sono... a doçura ao toque dos dedos nas suas cordas soltou uma nova melodia enquanto o sonho perdura e o sono não adormece, outra vez...