26 outubro, 2010

ILUSÃO



Passamos o tempo “ocupados” com pequenos nadas, frenético consumo, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar, carros topo de gama estacionados, roupas de marca, festas e festarolas, conversas de ocasião,

Passam por nós, novos e velhos, desenganados e coitados, cabisbaixos e sujos, melancólicos e doentes, gente de um tempo perdido, numa crueldade que o tempo marcou, indiferentes pela vida, sem sonhos nem fantasias nem esperança no futuro, vegetando em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho, passando e cruzando o nosso caminho, que evitamos a destempo, e saltamos de apeadeiro em apeadeiro enchendo a memória e o olhar, despejando na estação próxima, enquanto no vagão da vida saltam lágrimas em rosto de criança a quem foi prometido um mundo… e deram… nada.

E estendem-nos a mão de conveniência, numa catarse mitigada, sociedade travestida e vazia de valores, tão repleta de indiferença.

E sobram os costumes e as coscuvilhices num linguarejar de vidinhas, enquanto o ordenado é sugado em impostos, o carro na fila que não anda, os diálogos refugiados em monólogos.

Chicanas de café em chás para quatro, argumentos pestilentos sobre os outros, lama espirrada na direcção de alguém, enquanto abanam o seu enlatado e sacodem os fantasmas dos armários na penumbra dos dias.

E é este o jeito de um povo/país, indiferente a tudo e a todos, metido em “umbiguismos” de poder, discursos ofendidos, realçando o seu “EU”, como se a Bastilha tomasse.

Negrume vida, futuro incerto, pacóvios e papalvos, sem trincheira para se esconder, vidas a céu aberto, volantes de couro e tejadilho de cristal, num estado sonolento em sonhos ancorados.

Inquieta vida de mentira, palhaços e ilusionistas, malabaristas e desgarrados, opulentos e miseráveis, sortudos e azarentos, favoráveis e opositores, reis por segundos e povo da vida por inteiro, sem alcance nem valor.

E irás andar em ziguezague, montanha russa da vida, rebuçados oferecidos em colher de latão e a tudo e a todos dirás… nada… num entediante costume de bonança, bonacheirão típico e carácter de brando costume.



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20 outubro, 2010

UMA FOTO




As ruas estão vazias, a aldeia só tem velhos, as crianças não choram, na calçada, quase não há cães.
O musgo acumula-se nas paredes e falta vida neste espaço, temos apenas o tom sépia do tempo.

O meu Pai e a gabardina bege, olhos azuis, perfil estático e imponente, um anjo equilibrado dos dois lados da vida. A cortina que afastamos da janela, uma réstia de sol.

Tu pequenina montada num cavalinho de pau, eu no jogo da bola às vezes perdido entre ramagens.
Já não reconheço paisagem, a Lagoa esbraceja e forma correntes diferentes. A “aberta” mudou de lugar e afeiçoa-se aos novos métodos.
Estranho as correntes, como por vezes me estranho a mim, perfeito solitário no interior da alma.

Não gosto de te olhar quando muda a hora ou o lusco-fusco nos entra pele e olhos, nem gosto dos dias curtos e da indiferença do meu caminhar em ti.

Já não nos alimentamos de rebuçados de amor nem chocolates de paixão, mas sei que nos dias pares te adoro e nos ímpares te duvido e sei da minha inconsciência juvenil e das falanges dos dedos que te povoam cabelo e da imagem que o espelho não traz.

Não gosto do Outono que adivinha almas perdidas, folhas secas, um frio incompleto de agasalho e o cheiro a castanha assada e água-pé.

Mas gosto da foto de ti no cavalinho de pau, cores rebatidas e o meu não sorriso, a tristeza da distância do tempo, das partidas da vida e a minha avó no canto da sala a fazer “naperons”.

A tua foto e a minha memória, a maré que sobe e agasalha a areia matinal, e o meu acordar cansado da madrugada titubeante arrebatada à dureza da noite em diálogos interiores.

A minha Avó ainda no canto da sala, e argolinhas do “naperon

A ciranda em que dançamos, o imaginário, olhos rasos de mil pedaços cruzando silêncios em mãos moldadas. Um papel dobrado em dois, o teu estilo, o meu percurso, a baunilha no teu perfume, uma mesa para um em vez de dois, a toalha branca e o meu prato preferido.

Gosto deste silêncio e deste vazio., como do teu retrato na moldura e a minha avó ainda no canto da sala.