20 outubro, 2010

UMA FOTO




As ruas estão vazias, a aldeia só tem velhos, as crianças não choram, na calçada, quase não há cães.
O musgo acumula-se nas paredes e falta vida neste espaço, temos apenas o tom sépia do tempo.

O meu Pai e a gabardina bege, olhos azuis, perfil estático e imponente, um anjo equilibrado dos dois lados da vida. A cortina que afastamos da janela, uma réstia de sol.

Tu pequenina montada num cavalinho de pau, eu no jogo da bola às vezes perdido entre ramagens.
Já não reconheço paisagem, a Lagoa esbraceja e forma correntes diferentes. A “aberta” mudou de lugar e afeiçoa-se aos novos métodos.
Estranho as correntes, como por vezes me estranho a mim, perfeito solitário no interior da alma.

Não gosto de te olhar quando muda a hora ou o lusco-fusco nos entra pele e olhos, nem gosto dos dias curtos e da indiferença do meu caminhar em ti.

Já não nos alimentamos de rebuçados de amor nem chocolates de paixão, mas sei que nos dias pares te adoro e nos ímpares te duvido e sei da minha inconsciência juvenil e das falanges dos dedos que te povoam cabelo e da imagem que o espelho não traz.

Não gosto do Outono que adivinha almas perdidas, folhas secas, um frio incompleto de agasalho e o cheiro a castanha assada e água-pé.

Mas gosto da foto de ti no cavalinho de pau, cores rebatidas e o meu não sorriso, a tristeza da distância do tempo, das partidas da vida e a minha avó no canto da sala a fazer “naperons”.

A tua foto e a minha memória, a maré que sobe e agasalha a areia matinal, e o meu acordar cansado da madrugada titubeante arrebatada à dureza da noite em diálogos interiores.

A minha Avó ainda no canto da sala, e argolinhas do “naperon

A ciranda em que dançamos, o imaginário, olhos rasos de mil pedaços cruzando silêncios em mãos moldadas. Um papel dobrado em dois, o teu estilo, o meu percurso, a baunilha no teu perfume, uma mesa para um em vez de dois, a toalha branca e o meu prato preferido.

Gosto deste silêncio e deste vazio., como do teu retrato na moldura e a minha avó ainda no canto da sala.

6 comentários:

Ana disse...

E que foto! Um retrato de memórias que nos preenchem alguns momentos mais vazios...
Momentos de nostálgia em tom sépia, que se desvanece com a tua forma de "contar" o que vai dentro das molduras.
Muito bom!

Maria F. Mercês disse...

Gostei!! Uma bela foto. Apesar do quadro nostálgico, apetece ler ate ao fim!!

DIABINHOSFORA disse...

"As ruas estão vazias, a aldeia só tem velhos, as crianças não choram, na calçada, quase não há cães.
O musgo acumula-se nas paredes e falta vida neste espaço, temos apenas o tom sépia do tempo."

Este podia bem ser o início de um belo livro. Tens textos tão lindos que é mesmo pena não estarem ainda publicados!

Pedro Viegas disse...

Obrigado meus amigos.
Diabinhos, eu gostar até gostava, mas ou é falta de qualidade ou as editoras têm outras ideias... se me faço entender...

Mas paciência, pelo menos aqui sei que me leem e fico feliz por isso.


J Pedro Viegas

luz efemera disse...

Cada frase lida e assimilada, interiorizada na consciência, faz-me imaginar que passo as mãos pelas páginas brancas de um livro,feito porta de acesso a um mundo tão rico de sentimentos e estados de alma, em que jamais existe solidão. Porque podemos a cada instante abrir de novo este livro e saborear cada imagem, cada momento de abraços e ternuras num encadeamento repleto de lembranças que se tornam presentes em cada coração que palpita numa abertura genuína aos outros.
E o livro transforma-se em quadros pintados cheios de vida, cor e calor humano.

Gostaria de ter tempo para abrir mais vezes este livro delicioso e impregnado de uma humanidade exemplar.

Lídia Borges disse...

Olá, Pedro! Demoras, mas vale a pena a espera.
Memórias tricotadas em argolas do passado, uma nostalgia de Outono por dourar e uma estética discursiva que nos prende desde a primeira à última palavra.

Obrigada!