14 novembro, 2010

PEDAÇO DE ALMA



Às vezes a bruma sobe pelo rio e o outro lado desaparece levando com ele barcos ancorados e gente dispersa.

A ponte deixa-se ficar e espraia-se por entre telhados enquanto o comboio vagaroso sublinha reticências, na esperança de chegar ao fim.

Os rabelos dormem pachorrentos e a falésia cor de barro agita as gentes dos guindais.

Um homem gordo de bexigas e ar altaneiro a vociferar, deslumbrado com as miúdas galopantes, tipo ardósia aos guinchos que desaguam pelas vielas.
Ele tisnado, lençinho ao pescoço, cachucho no dedo mindinho e os suores alagados na base da testa.

E nisso, o teu estendal de roupa com molas cores de fruta e o som da cidade a descompasso.
Flashes do presente, sonhos do passado, os mesmos passos em labirinto sem saída.

Os gatafunhos que te lia, o caderno quadriculado com um piano de cauda desenhado, a tua mão destreinada e os tremores que já na altura te agitavam corpo e alma.

As tuas pálpebras caídas sobre o meu rosto cansado, salpicam promessas, enquanto estirada ao sol o calor evapora do teu corpo em golfadas de desejo.

Sabíamos de tudo e quase nada.
Eu e letras, imagens comigo. Frases semi-nuas abandonadas a um canto, preenchia espaços entre elas vestindo-as de roupagens novas.
Criava poesia com tenra idade num coração desabitado, desolado, amarfanhado. Sinapses disparadas e um vazio num amontoado de cicatrizes.
Tu e desenhos mascarados na arquitectura do piolho, café que habitávamos a destempo.

A cidade espreguiça-se e nós temos o amor das coisas simples, estudantes juvenis e inquietos.

As tuas mãos cor de Outono, a linguagem crua do prazer, os amigos comuns e noites de S. João, o teu corpo desprevenido e as amarguras repousadas.
Aparvalhados como garotos, pele de textura única, e o mundo o nosso recreio.

Remendas-te com bocadinhos meus – dizes, e eu a perder-te uma e outra vez.
Madressilvas soalheiras na mercearia de esquina, beijos molhados pelas franjas da madrugada, sonhos encharcados pela fímbria da manhã, as minhas mãos nos recantos do teu corpo.

Gritos imperfeitos na Ribeira, bruma dissipada e barcos encalhados.
A tua despedida, conversas meigas já sem força, resquícios de um suspiro que atravessa as malhas do tempo, o comboio que lento, cedo, atingiu o fim.


Foste na noite e acabou, a pedra tosca da tua casa, os rendilhados da tua mãe, a invernia que espreita, e a esquina onde ainda hoje te espero.

Às vezes a ponte fica mais longe, a ribeira alagada das marés, as varinas num engasgo de sílaba e a juventude num ápice perdida no funicular dos guindais.

Um dia, é isto e quase nada, passado perdido na memória entre espaços de tempo e lembranças penduradas em pedaços de pele, corpo e alma.

4 comentários:

Ana disse...

Hummmm!! Cheira a paixão, a amores de juventude que nunca esquecemos e que não voltamos sentir....
Fica para sempre a ternura das memórias, penduradas em pedaços de pele, alma e corpo.
É sempre um prazer passar por aqui...

Lídia Borges disse...

Não sei se narrativa/descrição ou poema... Poema digo eu, porque há uma transfiguração lírica das imagens do quotidiano nos quadros reais que pintas.

Um beijo

xitilina disse...

Gosto!

Anónimo disse...

Bonito como sempre...


"Pedaço de Alma" que toca na alma da gente!