08 dezembro, 2010

Da minha varanda vejo o rio...!




Saíamos ao som de todas as musicas e baralhávamo-nos a descompasso, agarrados pele na pele, mão na mão e línguas tocadas como melodias de Bach.

Esbarramos nas esquinas do passado e enfrentamos dolorosamente os trajectos do futuro.
Faço vénias à tua presença em mim, repiso os teus passos, e busco a alma em labirintos traçados a régua e esquadro, pensados ao pormenor, para nos perdermos, inquietos amantes.

O calor do teu corpo no vidro da janela, o sopro no coração que me repela, e ecos de desejo como restos de beijos ao desbarato que deixamos impregnados em nós.

Não adormeço nos teus braços mas ancoro a minha existência no teu porto de abrigo enquanto sonho vigílias da tua ausência.

Da minha varanda vejo o rio.
Barcos ancorados como pranto de criança, rastos de sonhos, e as nossas unhas espetadas arranhando ao de leve na franja do estuário, enquanto gaivotas esvoaçam, trazendo acoplados recadinhos de anúncios em escapadelas de beijos e abraços.

Tenho-te como música enquanto baloiças o teu no meu corpo e me fazes cobardia e coragem, céu e inferno, sol e açúcar, sorrisos e lágrimas.

Tenho a tua na minha boca e arrebanho-me aos bocadinhos na memória e na minúcia de Rembrandt, enchendo-me de palavras para me esvaziar de ti, pecado de quadro perfeito.

Gosto de ti em dose inteira ou meia-dose, aos bocados ou colheradas, com a soberba da ganância ou a ponta dos dedos, lambuzado e digerido, refeito do doce na língua, engalanada do teu sabor.

Da minha varanda vejo o rio, Tejo ao fundo em demasia, adormecido cansado, arritmias inquietas, e o teu abraço, despertador.

Da minha varanda vejo o rio,
Gaivotas agitadas em desatino, barcos sem leme,
O teu sabor na minha pele, o sal da nossa vida, passos teus em labirintos meus e beijos de língua no teu sonho ao de leve, e o meu coração o teu porto-de-abrigo.

07 dezembro, 2010

No teu livro, uma linha.



Havia pão acabado de cozer no forno a lenha, tijelas de marmelada na varanda e compotas em cima da mesa.

A lua boiava no céu, o sol espreitava atrevido, o sino tocava e o adro da igreja enchia como domingo.
Mantive os portões abertos, os muros cobertos de heras e o brilho da tua pele franqueava-me um sorriso.

A tua parcimónia de palavras, o teu rosto que se fechava, o conhaque no meu copo aquecido. E no entanto, as mãos dadas, o teu perfume, o gato persa nas tuas pernas o meu ronronar em ti e nem um afago.
O teu afago simples, sensível, vertiginoso em mim.

E eu no teu livro apenas uma linha.
Nem um capítulo, nem uma vírgula, apenas uma linha.

Refugio-me em escapatórias e um raio oblíquo de sol empastela-me, salpicando-me os olhos de lágrimas furtivas.

E vinha nas análises, que me circulas nas veias, enquanto taquicardias evitam correrias extremas por entre a bílis que segregas.
Preciso de me desmontar e reciclar, e adensar com picaretas, cimento armado, areias e marfins, numa reconstrução dolorosa, sem prazo, rebolando pelo interior de mim.
Dislates esquizofrénicos, tremuras diabólicas e pantominices felizes, como um qualquer diabo deve ser.

Aí chegado, requalifico o ar, suspiro como Vinicius e Jobim e cada palavra minha em texto teu, será como golpe no teu rim, emplastro no teu olhar e movimentos embaciados tricotando a alma, enquanto eu adocico a língua, ofereço-me palato lambuzado e repito a dose dessa nata com canela.

Pode até sobrar lençol na tua cama, esfriar a meia de leite a dois e a lua baloiçar no céu.
Vou tocar o sol e resplandecer sorrindo da nuvem que te povoa, enquanto o pão cozido estala na varanda, quente para manteiga, soberbo para compota.

E tu fingimento escarnecido, serás retocada a tinta-da-china, lembrada em papel pardo e atirada ao mar como barquinho de papel dos meus sonhos de criança.

Fechei os portões, as janelas trancadas, o brilho que me espreita pela frincha e a chave do coração encerrado para obras.