07 dezembro, 2010

No teu livro, uma linha.



Havia pão acabado de cozer no forno a lenha, tijelas de marmelada na varanda e compotas em cima da mesa.

A lua boiava no céu, o sol espreitava atrevido, o sino tocava e o adro da igreja enchia como domingo.
Mantive os portões abertos, os muros cobertos de heras e o brilho da tua pele franqueava-me um sorriso.

A tua parcimónia de palavras, o teu rosto que se fechava, o conhaque no meu copo aquecido. E no entanto, as mãos dadas, o teu perfume, o gato persa nas tuas pernas o meu ronronar em ti e nem um afago.
O teu afago simples, sensível, vertiginoso em mim.

E eu no teu livro apenas uma linha.
Nem um capítulo, nem uma vírgula, apenas uma linha.

Refugio-me em escapatórias e um raio oblíquo de sol empastela-me, salpicando-me os olhos de lágrimas furtivas.

E vinha nas análises, que me circulas nas veias, enquanto taquicardias evitam correrias extremas por entre a bílis que segregas.
Preciso de me desmontar e reciclar, e adensar com picaretas, cimento armado, areias e marfins, numa reconstrução dolorosa, sem prazo, rebolando pelo interior de mim.
Dislates esquizofrénicos, tremuras diabólicas e pantominices felizes, como um qualquer diabo deve ser.

Aí chegado, requalifico o ar, suspiro como Vinicius e Jobim e cada palavra minha em texto teu, será como golpe no teu rim, emplastro no teu olhar e movimentos embaciados tricotando a alma, enquanto eu adocico a língua, ofereço-me palato lambuzado e repito a dose dessa nata com canela.

Pode até sobrar lençol na tua cama, esfriar a meia de leite a dois e a lua baloiçar no céu.
Vou tocar o sol e resplandecer sorrindo da nuvem que te povoa, enquanto o pão cozido estala na varanda, quente para manteiga, soberbo para compota.

E tu fingimento escarnecido, serás retocada a tinta-da-china, lembrada em papel pardo e atirada ao mar como barquinho de papel dos meus sonhos de criança.

Fechei os portões, as janelas trancadas, o brilho que me espreita pela frincha e a chave do coração encerrado para obras.

3 comentários:

Ana disse...

Há livros que se resumem numa linha...há linhas, que por si só, preenchem um livro!
Deliciosa a forma como escreves...
Lindo, envolvente, perfeito.

OutrosEncantos disse...

Pendurado no trinco da porta, deixei um recado para leres quando voltares
Feliz Ano Novo, Pedro!

Beijo!

Anónimo disse...

"Fechei os portões, as janelas trancadas, o brilho que me espreita pela frincha e a chave do coração encerrado para obras".

Eu, apenas fecho gavetas, e o brilho vai-me guiando, até que um dia, possa abrir uma janela e dizer:

"Cheira um bocadinho a Sol e a flores… e a minha vida toda num ápice.
Maravilhoso... Um abraço Pedro.