23 dezembro, 2011

RELOGIOS DE TODAS AS DEMORAS




Estalido de fechadura nas minhas costas.
Tu em reticências, um peito de delito a qualquer hora. Pescoço e pernas delgadas como desnorte de náufrago.

Espectro lívido na tua presença. O meu protesto à porta do teu corpo.
Juras de amor sôfregas, promessas e suspiros de devoção. Paixão como semáforo intermitente, beicinhos e choros.

Regresso ao teu corpo diluído, antipartículas, sonho em fragmentos.
Intermitências onde se abriga nocturna a lua pálida e pérfida.

Vês como se aninham parados os relógios de todas as demoras ?

Dá-me medo que a saudade liquidifique, trémulo bambu, beijos melosos percorrendo o caminho sinuoso das tuas costas.

Redime-me. Absolve-me em confissão. Multa-me por engano cósmico, sangra-me a pele, repete-me tresloucada a boca no meu beijo.

Horas, minutos e segundos, que se amontoam na aridez sedenta da pele.
A fonte de todos os males, uma boca de alimento nos frutos dos teus ramos.
Os teus braços.
Braços, sim. Braços de envolver, de embalar meninices e entoar baixinho as emoções de outros rios, outros lugares.

Eu, em desuso, noves-fora-nada, raiz quadrada entre nós, oxidação do tempo, esbelta madrugada, querubim que te protege, relógio atrasado na desordem do encontro.

Os teus lábios pretensiosos a morder-me mundo e fundo, mãos no teu vestido cintado, batidas cardíacas em ritmo de samba.

Volúpia de sombra, lábios espelhos de alma, lágrimas secas e sofridas.
Foram parados por nós os relógios de todos as demoras.

Latido de cão, trancas na porta, mímica de silêncio quando me puxas o corpo, abafos de dor, um trilho seguro, camadas de pó em três assoalhadas e uma mansarda.

Mãos entrelaçadas num expirar de prazo, eco sem uso, rascunhos sem preconceito, lua nova mapeada.

A tua vida caligrafada em mim.

Grilhões do tempo, contorno da tua boca, um olhar cristalino e uma língua sem temor num tempo sem demoras.

20 dezembro, 2011

Escrutinio do tempo




A angustia do sentido da vida e o relacionamento com ela,
Defeitos que se afiguram mais nítidos, as insuficiências e os erros.
O caminho da coragem. O sorriso feito coragem.

Caminho apressado para os cinquenta. A idade fica apenas mais nítida e aumenta o encanto.
Nada mais.

E é Dezembro como sempre. Frio, chuvoso, inquietante.
Flores e pétalas avermelhadas, nuvens sujas. Plantas que entortam o muro do quintal.
O gato imóvel

O parvo do gato que quando miava se queixava de mim à minha Mãe...medricas.
- Mariquinhas é o que és.

O tempo embaciado como os óculos do meu tio na ponta do nariz.
Ele, elegante, chapéu aprumado.
- A bênção Tio. – Deus te abençoe, sobrinho.

Livros que não acabam nunca. O cheiro agradável do "after-shave" do meu Pai.
Domingo de nuvens sujas, a tarde triste, um sol escondido sobre o Porto.

Os meus quinze anos. O parvo do gato, ainda imóvel.
As fisgadas nos pássaros, as bochechas rosadas da minha vizinha da frente.
Sombras das árvores no quintal.

O Hospital das “Guelas de Pau” , o porteiro numa caixinha de vidro. Correrias rampa acima aos pontapés na bola.

A vizinha rosadinha que me atira bilhetinhos. Um dia destes vamos comer “fava-rica”. Eu, ela o Almeida e o Chico.

Casas com cheiro a antigo, tarecos nos móveis, naperons com argolinhas, flores de plástico. O Hospital com cheiro a infeção.

Tudo cheira menos o gato... Imóvel.
Só pode estar embalsamado, o parvo!

Dias que se socorrem de outros dias. Percurso encharcado na manhã, e eu, distraído, tocando-te nas margens da pele.
Conversas noite fora, bocejos de fome e diálogos guardados como relíquias.
Não pela verve, sim por nós.

Precisava de tempo a fundo perdido.
Noite como se nunca acabasse. As contas do dia. Cada vez mais contas e menos dia.

Eu, com quinze anos, paixão como cegueira, solidão no meio do mundo, as miúdas como figuras santas, altares engalanados, o frenesim e a dor de barriga na preparação do baile de garagem.

Fingimentos de Princesas de Fábulas a reboque de sete anões.

O caminho sinuoso da paixão. A minha mãe que me olha pelo canto do olho, o nariz torcido da minha avó, e eu, nuvens e pássaros e musicas e bailados e encantos no corpo delas.

Afecções na saúde e uma perda de tempo.

Borbulhas na cara, a clarividência do meu sorriso quando te vejo.
-Criancices... - Dizem uns.

Domingos engalanados na missa das onze.
A noite que se faz escura sem limite de tempo. O seu aconchego que trato por tu.

Escrutínio da vida. Céu sem nuvens. O traço incerto dos teus dedos minúsculos.

As incisões na pele aos cinquenta, memórias e retratos que acompanham.
O prazer do silêncio e a mesma angustia no sentido da vida.
Hoje precisamos de mais caminho para a coragem e um sorriso.

O parvo do gato e o seu miar imóvel.
- Mariquinhas, é o que és!.

02 dezembro, 2011

Trovoadas e tempestade



Eu, Tu e as trovoadas. Raios e relâmpagos. Trovões como paquidermes.

A tua Tia carregadinha de cremes, debruçada na varanda.
A minha Avó de bengala. Monogramas nas fronhas que vai cosendo. Fímbrias douradas e azul celeste.

Tu, menina. Tosse rouca que partilhavas num vendaval brônquico qual relâmpago em aguaceiro.

Os dois no entreposto entre as duas portas. Pé aqui, pé ali.
Inocentes de mãos dadas.

Uma reza a Santa Bárbara. O céu iluminado e nós desafiando paquidermes grotescos.

Saltinhos entre quadrados desenhados no chão, voltas e voltas, um beijo na face esquerda, protegida dos olhares certeiros da Tia e o trovão a espreitar.

O frio nas entranhas da casa. Água tépida. Três assoalhadas. Esgares de gente que não conheço em molduras marteladas na parede.

Naperons com argolinhas, afectos em repouso, rugas de mansinho na cara da minha Avó.

Chuva em bátegas na vidraça, o gato fru-fru enrolado nas tuas pernas tentadoras. Eu destemido invasor.

Um tabuleiro de xadrez. Torres derrubadas, cavalo aos pinotes numa correria de xeque-mate.

A tua Tia carregadinha, lápis de cor no lugar das sobrancelhas e tu, dedos muitos, a atrapalharem-se nos botões. Eu quase em pânico. Os botões atrapalhados também.

Tinha os detalhes do teu corpo ancorado em mim.

Eu com medo que os pulsos disparassem com o batimento sistólico e que as tuas mãos sejam mãos outra vez, ou que a tua geometria baile no espaço entre os nossos pontos convexos.

E no entanto silencio da minha Avó. A quantidade de medo dentro do silêncio da minha Avó.

Mãos e dedos e o teu ar rarefeito no meu lóbulo esquerdo. O ar que não multiplico mas que me falta.

Saltam vidraças num bater de porta aflito... solto as amarras na tua cintura.
A redenção dos pecados nos cremes da tua Tia.
Um lábio acima outro abaixo, pinceladas rupestres e a serenidade da experiência na voz do silêncio que a minha Avó desperta.

- Meninos, cuidado com os trovões. Pode vir aí mau tempo.

29 novembro, 2011

Poções Mágicas e um Sorriso



Chove imenso neste dia e é quase Dezembro.
Estou em pedaços. Incompleto. Esquartejado em meia-lua ou quarto-minguante.

Falta-me fazer magia para completar o círculo da vida. A magia que tu fazias em azul. Os teus olhos em azul.
E eu piso de novo os meus passos numa procura de alma em labirintos inquietos.

O céu é um lençol pejado de estrelas, e o arco-íris, um caminho para lá chegar.
Resta-nos o caminho.

Vivo em combustão entre a saudade e o devir. Arrumo coisas que julgava terem tido o seu lugar.
Volta-não-volta, desarrumo gavetas onde as deixei.

E no entanto, a sombra da voz e o teu sorriso.
O beijo que envolve, a mão que protege, o grito que abafo, o musculo que absorve.
Parágrafos que deslassam emoções, risos inocentes, enxurradas de sílabas a matarem esta saudade que corrói.
Versos que largaste, o abraço que me deixou e um coração com as cores em agonia.
Frases soltas, que não sei como encaixar. Um espaço sobrante… o teu.

Estou entre lugares que não me pertencem, lugares que não conheço, algures entre dois caminhos.
Pedaços que me faltam, vozes em correntes desenfreadas.

E o silêncio da noite. Sempre noite.
A noite e os meus dedos musicais que falam dedilhando.
Dedos que percorrem e revolvem emoções pirateadas

Chove imenso neste dia e é quase Dezembro.

Tenho a idade numa curva mal calculada, um amor que me enrola em mantas de palavras ditas no contorno da boca.

Nós que desato como as dores, uma a uma. Ciclos que não encerrei e sonhos descortinados e repaginados.

Tenho poções mágicas e um sorriso.
Um sorriso dos teus em Dezembro.

04 novembro, 2011

IN MY PLACE...!



Este é o meu lugar. Um lugar novo.
Um espaço fechado de silêncio e paz.

Pedaços de algodão como flocos de neve. Fiapos de luz tecida num candeeiro bifurcado em complexo de teia.
Almas e gentes, diabretes e aflições, tudo na alma. Tudo numa alma.

O teu corpo quente ancorado nos meus lábios, enquanto solfejo palavras perto do ponto final deste texto.
E neste lugar vazio de gente, cheio de mim em ti e de ti em mim, cirandamos descalços pelos trilhos misteriosos da mente.

Os Deuses devem ter enlouquecido e semeiam segredos na voz desavinda das pessoas.
As pessoas enlouqueceram e desafiam os Deuses sem complexo nem voz.

Nos cabelos em cascata dos Anjos, prendemos gestos para esconder a saudade.
As nuvens vistosas repisam desejos e o rio repleto de carisma alonga os seus dedos rodeando os nossos corpos enlaçados e invisíveis.

Sãos os teus sonhos que se fazem.

A lua teima em não se envolver, depositando nas paredes nuas dos prédios a minha sombra.
O eco da fala morde o meu sossego.

O gato mia no silêncio…. É de ouro, … -dizem!....O gato…-ripostam.

O horizonte é frio e húmido. O teu fôlego aconchegado a mim. Um caos a parir nova ordem.

A tua boca que me faz desordem. Fragmentos inconciliáveis nos desenhos que traçamos.
Rosto acostado em rosto, mão em mão, textura quente do corpo a querer acordar sob o signo de outro tempo.

Este é sem duvida o meu lugar. Um lugar novo.
Feito de silêncios, queixumes atirados ao desconcerto.

Desalinho no tempo, bátegas de chuva, nuvens ritmadas a pousarem lençóis de água em mim.
Preciso do sol neste espaço como amor em drageias bebidas no tempo certo.

Feixes de luz musicados, relâmpagos fluorescentes esbatidos até o tempo fechar.
Frutas maduras, castanhas dissecadas, arrulho de pássaros, lágrimas de calor.

Os teus olhos que buscam lugares, mãos em concha, um caminho de sol entre nuvens entupidas.
O teu coração com asas de fogo, a tua voz, a tua boca...

Este é o meu lugar. Um lugar novo.

25 outubro, 2011

SEGREDOS DOS DEUSES



De dia abraço o Tejo… de noite a madrugada.
Da minha janela a cidade e uma luz esvoaçante.

Do nosso quarto vês a Lua, um rio, espelho de água e uma traineira.

Aí navegam os meus silêncios, enquanto corpos se enlaçam nos beirais, nas pontes à descoberta e nas ameias do castelo.
Tens Lisboa nos lábios, fado inquieto na língua.

Nuvens bailam a céu aberto, pinturas a carvão em tela difusa.
Lisboa de sombra e luz. Partir e ficar. Máscaras caídas após o bater das asas.

Senhoritas como contos de polichinelo, damas de cetim e olhar amendoado.
Lágrimas que apertas no peito. Caderno de partitura com música escondida.

Do jardim abraço o dia, na praia o pôr-do-sol.
Olhos de Anjo em segredos de pássaro.
Saudades com gente dentro. Carótida atiçada. Eufemismos na tua boca.

Deuses em rastos de gente, dentes que sobejam num sorriso.
Olhos na névoa que se dissipa em bando.
Feridas afagadas para que não sangrem, este texto que sai sofrido e uma bátega de chuva no parapeito, esventrando a noite adormecida.

É um tempo de deuses e anjos.
Sonâmbulos ancestrais, o meu doce refeito na tua boca e o teu arranhar ao de leve nas franjas do estuário.

Enrosca-te sem inquietação, prende-lhe post-it´s na roupa e faz-te figurante e narrador.
Aconchega-o no peito, acaricia-lhe o cabelo ao de leve, deixa o teu coração bater no espaço quente do dele.

Anjos de asas coloridas… a terceira cor do arco-íris.

De dia abraço o Tejo, a ponte em sobressalto
De noite a Lua dançando com nuvens a céu aberto, enquanto me fazes adormecer nos teus braços.

Serão estes os segredos dos deuses ?

15 outubro, 2011

Mil poemas na tua voz....




Acordo da noite mal dormida.

Meu corpo balança suspenso no vácuo dos teus braços e o teu beijo continua ligado por um hífen ao meu coração.
Pedes-me que te ajude a suster o sonho que te denuncia, num registo de inquietação.

O teu vigor em peito arfante num sono que não consegues dormir.
O teu suor que se espalha entre a pele e o cetim que te envolve cama.
Ínfimo cristal numa noite de fantasmas, sombras que se espalham, corpos esvoaçantes de anjos numa sublime elevação.

Nebulosas diatribes que expeles corpo fora num remoinho constante entre lençóis, como se os meus braços te amansassem fúria

Ajuda-me a conter nos pulmões este luar minguante que invade os côncavos e os convexos da minha solidão.

Ilumina a minha alma incorpórea e alva.
Deixa que eu a veja retratada em ti, gémea e doce, antes que os derradeiros esquissos do sonho se apaguem.

Amanheceu, e abandonas-me ao estrépito rotineiro do relógio.
Fugiste no momento em que os meus braços lançam chamas envolventes na tua direcção, e o meu corpo resfria num amontoado de desejos retalhados.

São as palpitações que me fazem ser.
Os extra-sístoles que inquietam este corpo sedoso e mole, presente e constante envolto em nuvens de azul neste quarto impiedoso que me faz amar-te às vezes.

Laivos de insanidade. O teu eco. A tua voz e o teu olhar espalhado nos quatro cantos.
Já não permanecemos nas palavras... e este fogo que se extingue.

Deuses e anjos coabitam na mesma existência neste espaço indefinido de inquietude.

Acende-se o dia sobre a cidade. Um manto de frio e nevoeiro que nos encolhe habituação.

E posso ter a Lua e posso ter-te a ti, nesta noite que se fecha de incerteza.
E posso ter tudo e nada, e ser tudo e nada também, religiosamente cronometrado.

Ponto por ponto. Amor em contraluz. A tua ausência.
O desaprender dos gestos, dos nossos corpos encostados, adormecidos, como semi-deuses.

Abro as janelas em par, a brisa que me alcança e afaga ternura e os meus olhos cansados da espera de dobrar saudades.

Porém... no café da manhã, seriam de mel as palavras com que barrávamos a torrada partilhada.

11 outubro, 2011

UMA LUA DE DESEJO



E surges do nada, como carro em contramão.
Uma língua forrada a tédio, química sem organismo, como placebo à hora certa.

Rebuscas sem sucesso o interior que esquartejas na incessante mansidão dos hábitos.

Baloiças-me entre órgãos, tropeças num pulmão, alcanças brônquios desimpedidos, tentas o coração.

Ergues-te perscrutando a alma, mas não a vês.
Sentes-me trôpego, velho e inquieto, numa sonoridade tangível, melodiosa.

Sais-me pelo ouvido esquerdo e sussurras na direcção do tímpano.
Não sabes como fazer. Se me rebuscas de novo, se modificas a preceito, se aceitas como tal.

Mexes a quarta-parte do lábio superior como um Outono ocre. Pétalas dissolvidas em rosa púrpura. Um corpo de tudo ou quase nada.

Envolves-te no meu perfume, fazes do meu corpo assombração, abraços em desordem e o aproximar do peito numa dança vivificante.

Noite de línguas doces, namoradeiras, saloias, sonhos em golfadas como placenta rompida, num prenuncio de desejo.

Curvas-te em mim. Descompões tessituras bordadas ao acaso e aprisionas o meu beijo translúcido na tua boca.

Toques, gestos, medidas em pontos cardeais, metade de um quarto ou tu por inteiro.

Rosto, olhos e mãos.
Tu atirada poros fora, pernas arquitectadas num prenuncio traiçoeiro

Feridas lambidas. Rastilhos e implosão. A minha alma presa nos teus apêndices vários. Mímica dócil no meu silêncio. A tua boca que afaga as curvas da minha orelha em simetria perfeita.

Medos e anseios, epiderme pálida, encontros de sombras, gestos de imaginação fértil.
Sorrisos malandros a destempo.

Paixão confinada a meio canto. Frases meio soturno. Metade pela metade.
O amor arrebatado numa lua de desejo em quarto-minguante, baloiçando suavemente dentro de mim.

09 outubro, 2011

ENQUANTO TOMBAM AS ESTRELAS

´


Os olhos da terra, as asas do sol e os beijos da lua embriagam
e vergam-nos.

Precisas de locomotivas de afago.
Não na velocidade, mas na intensidade do afecto.

Afecto e ódio.
Onde se rasgam e decapitam corpos num vórtice em espiral.
E tu, dentro de mim... sinapses labirínticas no coração.

Um corpo inerte num caminho longo, alma humana como estrada, caminhos tortuosos, obstáculos perenes, pontos de ligação num único sentido.

O guião da nossa jornada já escrito.
A corrente de água que te refresca, o prazer que não é por acaso, os tropeções colocados no parapeito da vida, e o que é... porque tem de ser.

Encolhes-te no teu interior. Alma bafienta. Nevoeiros cerebrais. Boicotes nas meninges.
Greves e palpitações cardíacas.

A perda do tempo, a inquietude no ultimo segundo. O suspiro final.
O tempo que se foi. O abstracto que somos. Um salto no abismo sem rede.

O espelho na memória.
As minhas rugas, os teus papos de Anjo.

As voltas da vida, o minuto seguinte. A voragem do tempo que te deixou imóvel, o desmembrar de tudo, o que não controlas.

Magnitude da vida, a tua Excalibur.
Tu um Lancelote, cavalgando pela eternidade. Rodopios e volteios, e,qual grão de pó no Universo, desfazes-te e nada te resta.

Por isso, deixa que os beijos da lua te embriaguem, agarra os abraços do sol e olha nos olhos da terra.

Esvoaça no amor, aprecia o bater do coração, sente o teu respirar no espelho, adorna as tuas rugas, partilha e dá de ti.

Não traves o teu desejo. Não perpetues a tua angustia, procura mesmo no sitio errado.

Dá a importância que quiseres dar e não te fragilizes.
O valor que deres é o do momento.

A fragilidade vem com a noite e a angústia desacelera na medida da imagem que te deres, dos filmes que fizeres e dos desenhos que imaginares.
Da velocidade assombrosa com que te assaltam os olhos.

Desaperta laços que te prendem.

Beija no minuto seguinte, aperta no peito quem amas, toma banhos de lua e incendeia a vida com o teu sorriso.

27 setembro, 2011

Apenas os teus olhos… sem palavras



Já é Outono e as pessoas evoluem em passo lento, resignadas e cansadas.
Os corpos despegados soltam-se a espaços

Há rostos que falam, que contam histórias...olhares brilhantes, sorridentes, outros tristes, marejados discretos.

As palavras perdem-se.

Algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras tentam, mordem, alcançam, cantam-se e ferem, abanam e apoderam-se de nós, enlaçando, remexendo, correndo desabridas sem alcance.

Vivemos suspensos num tempo de nada, tentando derrubes de defesas construídas com cuidado e propriedade.

Leio as tuas histórias sem nome nem rosto, maquetas construídas a preceito, palavras que sublinham desenho, leituras suaves e um deserto de emoções à deriva.

Quando te olho não preciso de palavras.

Mas tu fazes um cerimonial de desacertos e procuras a geometria do meu corpo na voragem dos dias.

Lábios deslumbrados e sangue dos sentidos, lábios com palavras escritas por mim.

Quando te oiço não preciso da tua presença.

Pedaços de teias, enredos, labirintos, medo de abraços sem antestreia nem ensaio geral.

Tempo sem espaço, dias e noites em desacordo, voragem dos dias.

O âmago da solidão que me invade e me habita,o solfejo em partituras, o teu regresso ao meu sorriso, adjectivos e perífrases prolongadas.

Já é Outono e os corpos a descompasso, olhares profundos, inquietos, a memória da terra, a minha ausência temporal.

Jardins de ódios e afectos, buganvílias e ervas aromáticas, um oceano no teu olhar, Cassiopeia em meu redor, sonhos líricos vertiginosos.

São escritos que concebes e eu acolho, invasão nocturna sem gestos nem afagos.

Apenas os teus olhos sem palavras.

23 setembro, 2011

Se um dia não vieres eu compreendo…




Se um dia não vieres eu compreendo...

O corpo da cidade esventrado. Pracetas dançantes.

As tuas rugas ligeiras. As minhas veias quase mortas. Repouso pueril em edital.

Vadios pelas tascas, becos que não são os mesmos. Trinados de guitarra,
lamuria no teu corpo de mulher.
Malfadados e bairristas na cerca do castelo, predadores encorpados.

O teu ombro que me esconde horas fora depois da armadilha dos abraços.
Os fiéis e os verdugos de Cristo na esperança do perdão.

Se um dia não vieres eu compreendo...

Uma atmosfera de tempo suspenso, mulheres lânguidas, finas, tenebrosas, o grito da varina.

Trégua nas brumas. O beijo namoradeiro numa entrega subtil.
Algodão doce recheado.
Nuvem desfeita e palpável. Ruas em cidades estranhas, um mundo que não conhecem.

Lábios no lóbulo esquerdo, nas curvas dos teus pintados de carmim. No prolongar do pescoço, nos nós dos dedos, e uma torrente de palavras meigas em que me afago.

Meiguice aos pedaços, almas próximas da curva da vida, pele alucinada de carícias.
O teu corpo imenso, tanto corpo... E eu, lobo solitário, uivos flamejantes, um papelão de crenças e rezas escritas.

Olhos semi-cerrados. Um candeeiro solto, sol a cair no horizonte, mulheres de negro e um esgar de dor.
Silêncios que se ampliam, silêncios que conversam, pessoas entediadas com cheiros e cores… e no entanto estalam a língua vigorosa entre palavras indescritíveis.

Se um dia não vieres eu compreendo…

Pingos de chuva que me acolhem. As vozes e o piano. O som que dele emana.
O tic-tac do relógio de sala. O cuco que não sai e a tua imagem reflectida no espelho enquanto me olho.

O teu arranhar nos lençóis que perfumas e um sol de milagre entre almofadas, moldadas de imperfeição.

Se um dia não vieres eu compreendo...

09 setembro, 2011

Vai-te saudade




Palavras e cheiros, caneta e papel, folhagem das árvores, uma parcela de céu,vozes sem se parecerem vozes.
Nem choro, nem angústia.

A saudade e a falta habitam a mesma morada, procuram as mesmas razões,
e empurram-se como balões levados pelo vento.

Balões de saudade que se acumulam nas paredes como musgo, e se condensam,
escorrendo em gotículas visíveis a alguns, invisíveis a nós.

É esta a saudade que se faz parede e não nos deixa derrubar.

Uma nuvem de papel. Algodão doce. Fiapos de luz num candeeiro tosco, palavras sussurradas apenas.

Letras adornadas com laços, melodia e alma dentro. Saudade em bifurcações, a complexidade de uma teia.

Pausas sem tempo. Uma não-pausa, ritmos dilacerados, despidos.
O teu olhar, uma vertigem, beijos inundados de iguarias, uma cópula vibratória.

A transição entre mim e a palavra.
Gestos de medição, imagem de dançarina em ventre liso.

A tua mão em repouso na minha, a celebração das rãs no charco e os meus dedos caligrafando o coração.

Não reclamo da saudade, sim da lucidez.
Doce amargo num recanto. O meu hábito. Pronúncia muda. Silêncios.

A vida num canto ao virar da esquina, e nós por aqui, esquecidos... até um dia, normalmente tarde e já sem tempo.

E no entanto, o que me assusta em ti.
O azul e a vertigem do olhar, o sal de mar no teu corpo, os antípodas em que estamos,

Nevoeiro cerrado nos rebordos da cidade, onde fluem beijos de amantes anoitecidos entre cafés à beira-rio, e o voo elíptico e rasante das aves no espelho de água.

Já só quero controlar o silêncio e a saudade...

No silêncio o pó das entranhas e na saudade a lágrima que habita despida de preconceitos. Resistente, desconexa, partida em mil outras lágrimas furtivas, riacho de encantos, abraços entrelaçados, nuvens de papel e algodão doce.

A minha escrita num laço, e este preso a um balão atirado ao vento.

Vai-te saudade...como palavras e cheiros, luzes e vozes, reis e princesas, palhaços e querubins.
Falsos, funestos e verdadeiros, bailarinos e contorcionistas, jogadores e plebeus, estranhos e conhecidos.

Vai-te saudade...para uma parcela de céu.

16 agosto, 2011

Sonhos



Os candeeiros da cidade brilham na escuridão e na alma das gentes.

É tarde e está escuro. A única coisa que brilha é a solidão. Nem mesmo os faroleiros conseguem rasgar esta noite, e vai chovendo também.

É nestes dias que tu apareces. Sem ruído, cautelosa, sempre com a frase certa, limpando-me teias de aranha inconsequentes que vou deixando ficar.
Tudo o que não sei, desejo e não tenho.

A mensagem que te enviava tinha menos letras do que pretendia. O amor que te imaginei, foi mais longe que os beijos que te deixei.

Agora, agarras estas letras decifradas em papel lacrimejante e resumes para ti, como me deleitava nos teus olhos e como adocicava os meus lábios nos teus.

Vivíamos como a poção mágica nos permitia, inquietos, distendidos, o mar ao fundo, a areia solta nos pés, os bolsos vazios, a paixão como irmã, restos de espaços perdidos entre nós...

... dou-te, na distância, o abraço do Oceano.

Sempre quis enviar esta mensagem. Não tive, nunca tive a tua mão por perto. Porventura já a sonhei, como a silhueta que nos habita meninges, cruel e pura… a sobrevivência da tua imagem romântica, selada em mim, a tua mão que me guardava, os teus olhos que me liam e o teu coração que me alojava.

Tinhas no olhar um medo permanente, uma procura incessante, e rodopiavas como os teus caracóis sustendo sorrisos que incendiavam paixões.

Carregavas o Mundo contigo, permanecendo bastas vezes num Mundo comigo, a cada abraço, a cada olhar, a cada toque, pele na pele, mão na mão.

Em cada sonho, nova descoberta, pedacinhos de ti, distorcidos, incompletos como puzzles que construo avidamente, enquanto te sinto esvoaçando, enchendo o céu de azul, acalmando a noite, negando-me a luxúria de te ter.

E quando acordado encosto o rosto à janela e vejo o silêncio que acaba por ter forma, acaba por ter cor e acaba por ter cheiro.

Só porque alguém um dia se lembrou de te roubar os sonhos, ou só porque alguém um dia, pura e simplesmente, não te deixou sonhar... não te deixes morrer para mim...

porque nesse dia apagar-me-ei contigo... como um sonho.

15 agosto, 2011

Someone Like You





Janelas às escuras, ruas sem vida, árvores sem folhas ainda.

Um respirar aturdido no balanço lírico das águas, no desejo que se faz palavra ou na palavra que se faz desejo.

Fraquejas como o sol que amansa o vento, o silêncio as palavras, o prazer a melodia, os gestos o ódio, o amor a emoção e quantas das vezes a razão o coração.

O amor, é uma bailarina em pontas, num corpo mole e ardente, rodopio acrobático, um salto no vazio, um turbilhão de sentimentos,
antagonismos, revoltas, conceitos e preconceitos, uma luz nocturna
a correr no rio das emoções.

Ruas apenas com um sentido, semáforos abertos, rotinas vazias e o mundo a ruir alheado da vida.

O teu sorriso forçado em mim, amanhã o meu pior receio na tua perda, a minha amargura
A minha pulsão arrumadora, o canto e a leitura, a escrita noutro espaço.
A tristeza pela finitude.

As pessoas de quem gosto, não morrem. Apenas não podem estar presentes. "Bergman" negoceia essa questão, num filme, tentando num jogo de xadrez, ganhar vantagem à morte.

Vivemos em contraponto a essa finitude, esse desígnio.

Pessoas feridas na alma, trejeitos de boca e corpo.
Um mar pintalgado de gente, ondas que se confundem com nuvens, olhares profundos, luzes de embarcações, a Berlenga como pano de fundo.

Esta coisa de escrever é uma angustia, mas assim abrandam as dores e a inquietação.
Parafernália de livros e revistas espalhadas, fotos de família, eu, menino sentado num cavalinho, um senhor com uma máquina enorme e um pano preto, "click", já está.
Fotos à "La-Minute", francesismos de época.

Eu em menino, recordações. Um dia ainda vou crescer muito.

Enquanto isso o silêncio
O amor nas ruas desertas, gritos imperfeitos na noite clandestina, uma cidade que respira inquieta, amanhã o meu pior receio, remendos de bocadinhos meus.

Estremeço na madrugada que me colhe memórias, os dias curtos e a tua indiferença em mim.

Barcos no ancoradouro do tempo, o teu abraço, o vento ciclónico na rua deserta, o meu espaço em ti, peças de xadrez que se movem sozinhas, o teu sorriso perfeito e eu em menino, recordações.

Um dia ainda vou crescer muito

19 junho, 2011

FICAR OU PARTIR



A finitude.
A nossa e a dos outros.
O vazio, a falta, o desaparecimento.
Como será desaparecer, deixar de contar, perder a infalibilidade.

O bom e o amargo.
Quem nos chora, quem nos revê, quem nos sente.

Um batimento de asas, um voo picado, pó de Anjo.
E navegamos em águas turvas, espaços bolorentos, enganos interiores, imagens irreflectidas, virtuosos da incompetência e estupidez. Magnatas da asneira.

E fraquejamos como o sol que amansa o vento, o silêncio as palavras, o prazer a melodia, os gestos o ódio, o amor a emoção.
Conversas esburacadas minadas e vazias, significados ocultos, alheados por inteiro.

Vivemos a espaços na virulência do quotidiano e dissecamos febres hemorrágicas num prenúncio de fim.

Sei que raramente me lês, pouco queres saber e volta-não-volta configuras-te e estendes tapete vermelho à minha passagem.
Como se eu tonto, não te soubesse de antemão.

Vida feita de pantominas, gestos de dança, teatralizações suaves e cronometradas, sustentados em algodão doce e água, pó e máscaras.
As nossas máscaras.

Sinaléticas da vida, intermitentes.
Dão passagem e barram o caminho. Acendem e apagam.
São mira telescópica e visão em Braille.

Mas tudo é inconsistência, desejos gelatinosos, exuberância em caminhadas nocturnas ou pujança feita de imagens.
Sentimentos fiados e tecelados dentro de nós. Interior remexido, cozinhados do que somos, pedaços tentaculares.

E nessa busca infrutífera, apenas rendilhados superficiais.
Alguns bilhetes, poucas notas, lembranças algumas, pedaços amachucados de nós e de outros, sorrisos guardados, memórias subtis, alegrias contagiosas e traumas bafientos, rugosidades, hesitações, texturas sintéticas e toques implacáveis.

Mas tudo meio baralhado e espalhado, vazio, oco.
Coisas impossíveis de realizar, outras a fazer.
Algumas que aceitamos como super-importantes, deixarão de ter importância no segundo seguinte.

A finitude plena.
Um zás que se apaga, um tudo que passa a nada, uma existência pueril.
A nossa finitude.
Um nada que somos.

16 junho, 2011

O TEU EXORCISMO




O teu exorcismo

Entrelaço sentimentos proibidos enquanto exibes letras reprimidas.

Tens válvulas que te escapam, artérias descoordenadas, amores… com dores só tuas, poros dilatados de tristeza acumulada, e um caminho de luz em forma de sonhos musicados.

Respingas os teus desejos através do olhar, do teu corpo às arrecuas, do sorriso malandro entre os dentes.

Sei o que te uniu.
Toques subtis, gestos prosaicos, a tua mão no meu peito, unhas cravadas,
delírio escandalizado, a tua maroteira.

O teu prazer nos entremeios dos lençóis, gritos desalmados no meu interior,
pedras que se mexem dentro de mim, contorções de alma.
O teu exorcismo.

E o tempo flui sonolentamente num retorno à intimidade
Ainda não sei o que te acalma ou o que te rastilha.

Se incendeias fácil, se ris baixinho, se beijas suave,
se resvalas nos lábios apenas… se o meu coração aguenta sustos a desoras.
Farás aí o teu exorcismo.

O meu corpo. Conexões, apêndices vários.
Braços que se prolongam dos teus, a minha alma presa,
e uma boca profunda que abriga inconfessáveis desejos.

E…pedaços de mim em lugares recônditos do teu corpo.

Sei que imaginas tentacular-me, mas, no fundo, eu o temerário, o teu despertar… tenho medo.
Medo do sangue quente nas veias, do crepitar do desejo, do coração flamejante, de Neptuno, de Cassiopeia, de Deuses Gregos na passagem pelas trevas.

E tu resistes, às horas de verdade, de mentira, outras de ambiguidade, quantas vezes, um braço de ferro exasperando, e no entanto, volta não volta apareces na memória, ligações 3 D, como uma almofada de penas, confortável, serena e eterna.

Faz lá o teu exorcismo.

15 junho, 2011

FESTAS POPULARES

Cantam pobres, ricos, remediados, salta a fogueira e a sardinha,
vestes engalanadas, pregões de boca em boca,
respinga alto a varina.

Cerveja a rodos, copos de tinto vadio, proxenetas afivelados com roupa multicolor,
- Ó filha estás bem prendada
- É para ti, meu amor…!

Fadistas em dó menor, mulheres fáceis da vida, paixonetas titubeantes,
aqui se abraçam amantes.

Rodopiam na avenida em marchas triunfantes,
velhas ensinam rezas, fazem tranças,
E da Mouraria a Alfama, e do lado do Bugio,
há gente que espreita da Bestega ao Rossio.

Cantam o Fado na Madragoa,
Velhos gaiteiros regados a vinho
Gritam, dançam, rodopiam o manjerico
Corre o Plebeu, discursa o Erudito,
lança a escada o mafarrico,

06 junho, 2011

Fica comigo, então…!



Ruelas de céu aberto, cicatrizes em espaços esventrados, salpicos de vergonha, mãos pegajosas de algodão doce.

Nós no cinema, frases dramáticas de heróis trágicos.

Mão na mão, consentimento no olhar. A tua pele de galinha…- Sabes que te amo… dizias.

Fica comigo então…!

Corridas no S. João, martelinhos em debandada.
As tuas mentiras que me devastavam a flor da pele, sinapses no coração, estardalhaços mentais e o meu desprezo.

Valsa dançante de vontades no escuro, corpos que se tocam, rodopios frenéticos em simetria perfeita.

Pescoço e boca, costas com costas, volteios... Apenas volteios.

Respiração regular, soberba no olhar e o Douro em fundo. Abraços já circunstanciais, a tua insanidade evidente em gestos contaminados e de repente um pranto… E o teu medo.

Eu… inocuidades gentis, gestos controlados, medo de chocar nos teus olhos. Transfiguro-me.

Um pé dentro outro fora, derrame de ofensas, cãibras na garganta que evitam desaforos, fiapos de simpatia, derrapanço de compaixão.

- Sabes que te admiro…!

Fica comigo, então…!

A tua posição fetal, ânsia nas horas da acostagem perfeita.

Risos de artifício como o teu.

O fecho de correr, peito oprimido por memórias, sinais embrulhados em mímicas perfeitas no meu silêncio.

Futilidades nas pestanas loquazes, nos segredos escondidos, no pânico que te enfeitava rosto.

Olhos de amêndoa doce, colónia, creme de noite, beijos surripiados, marcadores de páginas, os meus dedos em ti como régua e esquadro.

Depósito de sonhos, nevoeiro matinal, carente e voraz. Saudades de ti.

Ficas comigo, então?

30 maio, 2011

ESTE AMOR É ESQUISITO





Este amor é esquisito.

Uma porta por fechar. O clique da lingueta, o vento.

Noites mal dormidas, risinhos trocistas no meu sono, bateres de portas e janelas, vozes na minha alma, coração acelerado, cabeça zonza, somatizações.

Um amor de construções na areia, muralhas da China.

Gosto de beber o ar por ti, ficar dormente e distraído. Sofrer por ti, extinguir-me em ti.
e…atiras o barro do teu coração à minha alma. Malabarismos circenses?

Este meu amor é esquisito.
Salta muros e pontes, navega em lombadas de livros e desemboca em areia em vez de mares.

Não tem vestígios de rugas, nem covinhas na face, mas parcimónia de palavras.

Não dura mais que um olhar e, no entanto, mãos dadas, sonhos reluzentes, escravos núbios que nos protegem de fio a pavio.

Este amor é esquisito.
Parece um programa de computador, imagens a 3D, recheado de sinónimos e frases delicodoces, vergonhas e lugares-comuns.

Escrevo e apago rascunhos incertos. Travo amargo de insanidade. Escárnio. Frases cirúrgicas debitadas pelo médico e a enfermeira, com o copinho recheado de bolinhas coloridas que se tomam com água.

Um travo amargo, memórias felizes corrompidas, rastilhos de espanto, sirenes na rua, tranca na porta, barulho de corredor, luzes a meio-termo, louco de poucas-palavras, cerebral.

Encolhido da vida, gestos contaminados, lágrimas em pranto.

Este amor é esquisito.
Ela não me quer. Eu nem sei. As lombadas dos livros não aceitam ninguém, o ar é apenas meu, tenho a alma colorida das bolinhas que me fritam o cérebro.

Gotas flamejantes nos teus olhos.

Continuo a dormir a três quartos, portas com fechaduras velhas, linguetas estridentes. Escrevo gatafunhos que não entendo e as luzes do enorme corredor parecem néons.

Tenho a enfermeira atrás de mim. Pílulas coloridas como arma de arremesso.
Três mamíferos rastejantes. Gritos na ala B.
Ela que me quer mas não casa.
Olhos amendoados e poucas palavras. Ondas hertzianas no sorriso, informações de guia turístico.

Tenho a porta quase fechada, o cérebro cristalizado, noites mal dormidas e risinhos trocistas dos anõezinhos dentro de mim.

Será o amor esquisito?

17 maio, 2011

GUARDO OS TEUS SORRISOS NUMA CAIXA




O teu sorriso. A covinha na bochecha, dentes de branco imaculado em lábios reluzentes.
Vincos nos recantos da boca.
Azuis os teus olhos, profundos nos meus, alma debicada, intenso e absoluto, eficaz.
Queria poder guardar os teus sorrisos numa caixa.

A minha avó a rezar o terço, voltas e voltas de ladainhas e o fio solto pelas mãos.
A lamparina de azeite sempre acesa em homenagem à Sra. de Fátima.
O raio de sol, qual milagre a enfiar-se pela frincha da porta e a clarabóia do sótão a debitar barulhos de telhas soltas.
O cheiro da sopa com muita couve, a aletria divina, o cabrito de chorar.

A bengala do meu avô, adorno de rei, a bater no soalho, chamando a empregada Conceição... ele que preferia palavras a sorrisos.
Chapéu e fato aprumado, verniz no sapato reluzente, o coração na bengala a descompasso.
O relógio de parede nas suas desoras redondas e um tic-tac infinito.
A gaveta mais baixa do armário com fotos antigas e condecorações de tempos idos.

Os meus passos pequeninos de sala em sala.
O silêncio preguiçoso que se espalha como nevoeiro. A noite que entra livre pela janela.
Olho-me no espelho e sorrio como há 40 anos, neste espaço que não cabe no tempo. Actores de nós.
Por vezes memórias, outras vezes palavras, olhos que exorcizam tempo distante.
O meu coração perdido nos antípodas e o teu sorriso ligeiro.
Um dia guardo os teus sorrisos todos numa caixa.

Este tempo, eterno labirinto de que não encontro saída e nele procuro sombras de abraços, restos de beijos e ecos de palavras murmuradas num assomo de desejo.
Caixinhas soltas, sonhos de vigília e barcaças que arranham a água.

Molhos de trigo por colher, os dedos pequeninos que teimam em alcançar, a lembrança perfeita da tua mão, passos em sentido contrário, costas com costas e bolos de mil-folhas lambidos em catadupa.

Correrias sôfregas no quintal. Joelhos esfolados. Gatos em reboliço. Janelas abertas em contraluz. Uma frase solta no caminho. Os teus olhos numa hora, outra sem te ver.

Sono despejado de sonhos, balanços de mar enjoado, o teu sorriso que guardo em mim…. e de quando em vez escondo numa caixa.

14 maio, 2011

CIDADE EM NÓS





Uma Igreja. Ruas desertas. Casinhas de papel. Um corrupio de gente, deambulando na ribeira.
Equilibristas sem corpo, chuto-na-veia, máscaras sem dentes de tristeza e desalento. Fardo com cicatrizes, desertos de estímulo, desalinhados na vida.

Cidade a acordar devagar.
Cheiros de resina, musgo fresco. Um algeroz que pinga. Café fresco. Um gato que se espreguiça. Roupa no estendal. Papel de cenário na escadaria.

A cidade respira a céu aberto, luz difusa, cacilheiros no cais de embarque, viagens de silêncio.
O teu corpo na gare do desejo e eu ancorado em mim.

Alguidares e caixotes.
O eléctrico da baixa. Uma “bica” aquecida, ossos desalinhados em rostos carcomidos, margens a preto e branco. Silêncios de alma, tristezas no baú da memória.

Igreja sem fiéis, beijos a tiracolo, pontes engalanadas, barbeiros bairristas, varinas ligeiras.

Da minha casa vejo o rio, da janela a cidade, o abraçar do fim do dia, gente composta, sopro de paixão, o piar de pássaros nervosos.

Um vento de gelo, anjos azuis na penumbra... O teu olhar.
Corpo a deslizar na água, a tua pele pegajosa, humidade misturada em mim.

Fado cantado que se evapora da tasca, mulheres de vistas largas, cheiro a terra, ventre parindo cores numa cidade a contraluz.
Manhã de sol rasante, ondas que se espalham lacrimejantes atiradas pelo vento.

Os meus passos e os teus pés descalços, caminho dourado, maré vaza, um abraço apertado.

O estuário do Tejo, piar de gaivotas em mistério de passagem para lugar nenhum.

Choupos adivinhando inverno. A tua na minha mão. Rodopios de beijos molhados. Os teus quadris com ritmo, doce brisa que embaraça o jeito.

Cidade que respira devagar... O teu corpo que me embriaga... Línguas de mar.
O meu nome na tua boca. Sussurro breve num aconchego macio.

08 maio, 2011

O NOSSO TEMPO



O nosso tempo é no verão.
Não nesta promessa de cansaço, dias curtos e cinzentos, cheiro a terra, bolorentos, mas no verão, sem estio de cansaço, sol queimando pelas costas, o cheiro a maresia e o calor nos pinos dos trópicos, camisolas curtas e calção sem pudor.

O nosso tempo é praia de areia branca e cristalina, bocas ansiosas do gelado, truques de magia em palanque engalanado e a dancinha das comendas com medalhas no peito pelo Presidente da Junta.

O nosso tempo, é um espaço sideral, flutuante, duas pontas entrelaçadas, nós de marinheiro, trombetas a cada gingar de ancas, traços comuns nas tuas costas, o meu coçar à tua volta, a teimosia que tens atrás da orelha, o crepitar do sangue nas veias, e a ponta dos teus dedos no reflexo do meu palato, mordiscando diabruras.

O nosso tempo são os baixos-relevos trabalhados na tua boca, laivos de donzela, heráldica e pantominices de lábios gordurosos como marca de água, delimitando-me mais por dentro que por fora.

Temos este tempo, de palavras difíceis, entendimentos vãos, monotonias de reportório, fugas ao vento suão que se perscruta no horizonte.

Tempos de orgulho mal parido, comédias de enganos, segredinhos de alcova e alcoviteiras embrulhadas em papel de rebuçado disfarçadas de virginais com cheiro a ranço.

O nosso tempo é no verão

A tua boca em espera, sorriso rasteiro, prazer escondido em algodão doce, beijos plasmados em televisões futuristas, silêncios ampliados pelo megafone do orgulho.
As tuas mãos, fonte de prazer, espanto de paixão, misericórdia de aflitos, constelação de esperança no fim dos dias.

Tens ausência de cachecol, golas-altas sem medida, frio de trota-mundos, e o fantasma agraciado com cefaleias coloridas.

Deslaço o calor na praia, espasmos de alegria, a tua língua caprichosa, indecências figurativas, horas contadas, interjeições e figuras de estilo, a tua pele e os sinais, o teu corpo agridoce, sem fronteiras, nem inquietude.

O nosso tempo é um mergulho no vazio, tropeção de pés para trás, coração colado às costas, excessos no parapeito, telhados na penumbra, amor adolescente, gritos enrolados no olho do furação.

Tens um ritual provocatório, como o mar ao pôr-do-sol, expedições ao árctico e rolos de carne num vê-se-te-avias.

E o teu beco sem saída, cantos e curvaturas, miudezas e ensaios nocturnos, vícios privados, polegares hirtos na fímbria do teu cabelo e a dedução lógica de não poder viver sem o teu corpo.

E sim, o nosso tempo é no verão.

04 maio, 2011

PÁSSAROS NUM CÉU DE MAIO




Pássaros num céu de Maio

Palavras coloridas. Esvoaçantes.
Como pássaros alegres num céu de Maio.

Música translúcida dos teus lábios em mim.
Sílabas inauditas e mágicas. Aromas frescos. Beijos colados na pele. Aguarelas de cor. Almas num só gozo. A lucidez na tua voz.
Pedaços de pecado ou pecado aos pedaços.

Espelhos cristalinos que nos envolvem, solfejos e rabiscos, aguarelas nuas, pétalas soltas, cheiros e perfumes em forma de desejo.

Palavras que me atiras, inebriantes como o teu corpo de mulher.
Vulcão que se faz lava. Sangue dos sentidos. Renovados desejos. Espaços por preencher. Alma cheia com formas e paletes de cores garridas, em pinceladas suaves.

Fragrância que emanas. Tontices minhas. Mordeduras doces com um cerimonial de palavras incertas, em inseguros voos. Parapeito do abismo, névoa de paixão agrilhoada no ventre. Compostos de carbono, diabruras em dó menor.

Anjos em êxtase, braços, pernas e tronco. Mãos que atam e desatam. Asas que voam em túneis de vento.

Pássaros num céu de Maio.

Noites de línguas doces, namoradeiras, silêncios que entopem.
Gente má, liquefeita, míopes sociais, ultrajantes saltitões.
Varinas, delinquentes, anacrónicos e burlões.

A tua e a minha voz, rosto e mãos, travos de desejo, cordilheiras e pontos cardeais.

Geometria de sombras chinesas. Feridas por suturar. Língua forrada de palavras em boca adormecida. A tua química a horas certas.

Café na baixa pombalina, noite apressada. Orquestras afinadas, entranhas remexidas, espaços a céu aberto, matriz dos dias.
Beijar-te no parapeito. Traduzir-te em simultâneo. Vaguear no teu corpo e fazer-te epílogo.

Jogada aritmética, dois-vezes-um-dois. Muleta linguística. Notícias a traço grosso. Sonoridade tangível. Peito arfante. O caminho do fim.

E os pássaros num céu de Maio.

27 abril, 2011

DUAS METADES DE TI




Duas metades de ti.

Passos que marcam. Curvas que desalinham. Montanhas russas. Fastio e cansaço. Fome e migalhas. Sinos que tocam a rebate. Círculos sem fim. Uma parte de ti sem a outra parte de mim.

Apetece-me outros passos que não os meus, a mansidão dos dias, a luz e a noite, uns dedos distraídos que aninham prazer.

O silêncio nas minhas rugas e nos teus lábios, o vestido translúcido, o peito que bate refilão, o meu coração inquieto... A tua parte sem a outra parte de mim.

Concisa e segura, pernas sem poiso certo, com pudor e contenção.
Fêmea sem cio, os meus olhos como velas, um amor solto como fé pagã, remendado com bocadinhos teus.
Palavras por dizer.

O teu jeito e trejeito que me faz mossa. Corpo e textura. Incenso e paz. Doce e amargo. Olfacto e paladar. As tuas pernas no meu peito sem rasto nem dor.

Queres-me diabo com sushi, obstáculo a ultrapassar, persistência e devoção.
O chão que me falta nas tuas curvas, suspiros e risos nos teus olhos, o equilíbrio nos teus saltos, as asas de borboleta, o entrelaço do meu abraço, as tuas zonas áridas, os glaciares em extinção... A tua metade fixa na minha outra solta.

O sol pelas nuvens, o teu sincero abraço, a exacta medida em que me cabes, o teu ouvido e a minha voz, a tua pele que se dissolve, o meu corpo ancorado, carreirinhos de afectos, sílabas na tua língua em aflição.

Desejo e mansidão. Loucura em três actos. Peça de teatro sem narração. Os teus sinais interiores.
Uma parte de mim nas duas metades de ti.

20 abril, 2011

A NOITE DESEJA E O RIO FAZ






A noite era curta para tanto que dizer.

As luzes madrugadoras tinham sido amantes nas margens do rio e o tempo não permitia avanços, nem recuos.

O espelho de água transformava sombras numa volúpia dançante, com jeitos de bailarina reflectindo cor, tempo, alma e desejo.

Tudo aquilo que a noite deseja e o rio faz.

As trevas embalam-nos num abraço aquecido, interrompido aqui e ali por respiração ofegante, seca, intensa, que trespassa o coração.

O rio gritou, as margens transbordaram e tamanha era a luz que a lua se envergonhou de tanta cor.

O teu corpo ressente-se, aflito.
Nem duas palavras, um ritmo anaeróbico e o espelho da vida na passagem fugaz do tempo.

A clarividência do teu riso de criança, as saudades do enrosco num abraço, o crepitar da tua alma e a boca adocicada.

Barco que se aproxima das margens do rio, num aconchego, e eu a sorver-te calor em gestos curtos.

Metro e meio por meio metro, vaporadas de nevoeiro que se levantam do rio, os teus lábios carmim, como sombras de folhas, e um riso trocista, frenético.

E passavam assim dois, três dias... o eléctrico amarelo, os pingos de chuva, o candeeiro a petróleo da tua avó, e tu, gulosa, imaginando que me habitavas corpo e alma, e eu remexido, esventrado, zangado e misturado.

E mais um dia, talvez três.

Noite ansiosa, bares de fadistas, xaile negro, miradouro e luzes que cintilam na sombra, transfigurando o rio que corre vertiginoso aos pés da lua.

Um abraço safado, o toque da tua na minha pele, o beijo fugidio, dez-para-as-seis, fios de luz nas frestas das persianas, a noite a acordar devagar, pedaços de silêncio com que fiquei.

Regresso ao cais da partida, tempo contado, noite tão curta para te dizer, gaivotas paradas no ar, frases tontas, o teu corpo na penumbra, um adeus até sempre.

Aquilo que a noite deseja e o rio faz.

09 abril, 2011

I NEED



Deixei o livro aberto no chão.
Letras ofegantes procuram saída. O sol poisou na vidraça e queimou-me pele enquanto o voo rasante do pombo anilhado repousa no quintal vizinho.

Deixei a boca no livro, página sete, terceiro capítulo.
A boca e o beijo, na esperança vã que me sintas os lábios e os percorras sedenta, lânguida.
O decote que te aperfeiçoa, e as mãos que me percorrem, como segredos imperfeitos.

A astúcia que transportas, o horizonte onde me levas e a linha que transpomos em tsunamis no areal.

A tua figura, uma sombra, dois pedaços, a tua voz, derrapagem interior, espaço que não é nosso, um modo desabrido, areia nos pés, e língua profícua entre becos e avenidas.

Lua cheia.

Adoras morar em mim, como um refluxo qualquer, espalhando-te como brasa paralisando-me movimentos.

És quimera, poema, anjo-da-guarda ou infortúnio. Flagelas-me espírito, ocupas-me espaço, cortas-me veias e serras-me consciências em pedaços indecifráveis de meias-palavras ou palavras meias.

Abates-me como árvore velha e carcomida, tornas-te excesso em tão pouco.

Fomos quase milagre em temperança, quando te era proibido ou desligado, meia rota, pele tisnada, caracóis por lavar.

Somos ferro forjado sem tempero, ostras sem brilho, novos-ricos em espirais fumegantes, doutorados puros na solidão, corpos em azedume, sem compaixão.

Livro no chão, páginas folheadas, cheiro da tinta no papel, esse que é o teu, capitulo quinto, segundo volume.

Quero-te ler, conciso. Centrifugar-te a espaços, suspirar-te pele clara, clamar por falhas e feridas de guerra, exorcizando o estertor violento que te habita.

Quero ter-te em traços incertos, folha branca, escritos ténues, beijos molhados na curva da orelha sede de prazer em rimas imperfeitas.

Quero ter contigo um fim, momento interminável, êxtase puro, embate inevitável, consolo de mágoas, falhas desculpáveis, feridas lambidas e curadas, tempestade em oceano, vias sem rumo e sem norte, livros inteiros por ler e um cataclismo nuclear.

07 abril, 2011

SONHO







Fecho a porta que teimosamente se mantém aberta e tapo a alma que razoavelmente se mantém arejada.

Vivo a angústia entre o cais e o navio, e a névoa que me cobre sentimentos.
Faço-me ao sono sem sucesso e, da tua boca, palavras vãs, válvulas entupidas.

Esta quietude.
Passos só os meus, um pássaro na janela e a chuva que escorrega preguiçosa na vidraça.

Por vezes, palavras; outras silêncios, murmúrios também. Gritos lancinantes que percorrem dor ou prazer, mas que não distingo.

Palavras iluminadas também, olhar e carícias, corpo e pele, música harmoniosa, o teu espaço vazio, choro e canto, solfejos teus que não hesito ouvir.

Não sei se durmo, se sonho apenas, ou se é somente um espaço vazio e não o entendo.

Por vezes, no meu interior, um fio de conversa chega de mansinho como quem pede licença para entrar.

As noites estão vazias e eu, só, quase perdido entre mim e algo mais, que não vislumbro, mas sei que sim…. ou não.

Tenho imagens.
Cem ideias e cem imagens.
Folhas arrefecidas nas mãos dos outros, escritos perdidos, letras fugidias, lábios de curvas sôfregas, um sol de milagre, fruto amadurecido entre vírgulas.

O meu corpo vestido em ti e estrelas numa apatia intemporal, e eu aqui parado, não sabendo se algo começa ou acaba em mim.
Uma bola de sabão, uma brisa, tempos próprios que não o meu.

Meio passo para um lado, outro meio para o outro, remexo no interior e tento o reencontro com o que já fui.
Abano a cabeça três vezes, mais três os braços, sacudo veredictos, resultados, fundos desarrumados, amachucados, inquietos.
Uma ruga, duas expressões.

Conteúdos aspirados pelo tempo, algumas escritas, reticências, pouco mais.
E a dor sem tradução, analogia simples, poucas palavras com sentido.

Eu, tu e o candeeiro tosco da rua, o cacilheiro que não parte, sardinha a tostão, realidade, sono ou sonho que acaba aqui?
O cais e o nevoeiro, navio de porte, nós de marinheiro, a saudade à janela, um fado.

O meu fado.

31 março, 2011

FELIZ DIA DO PAI



Feliz Dia do Pai

Sabes,
Ainda aqui estou, nesta esquina onde habitualmente esperava, invariavelmente com chuva ou sol, olhando apenas, analisando também, e claro, divertindo-me como qualquer miúdo daquela idade.

Descobrir-te na multidão apressada, os meus amigos distraídos e a minha atenção objectiva.

Era, nessa esquina entre a paragem do 78 e a frutaria, que prometias surpreender.
Várias vezes o fizeste, com a alegria do teu chegar na doçura do teu olhar.

Hoje, quando raras vezes lá passo, mantenho-me no mesmo local, de pé, saboreando o momento e indiferente aos gracejos das pedras graníticas, do adornar do algeroz e das coscuvilhices das empregadas, espreitando quem passa.

Feliz Dia do Pai.

As palavras saem-me esburacadas e sem nexo. Tenho frases sobrantes que não sei colocar.
Não verbalizo revoltas (tu jamais o deixarias), mas não tenho o pedaço que me falta, roubado a destempo do coração.

E sim, sei do tempo de razões, situações, e das pessoas, e das coisas, e dos anseios, mas não sei como ocupar este espaço em falta. Nunca o saberei.

E aqui, o silêncio nas paredes brancas. Algumas pessoas, viaturas com apitos estridentes, muita pobreza na pele, muita tristeza no olhar.
Os tempos pioraram sem dúvida. Sofre-se.
Não só eu, mas são muitos os que sofrem.

Os prédios que me albergam poiso são os mais antigos, três compostos em fila, uma montra, plantas mirradas, arestas limadas de tanto encosto e a espera que se prolonga como um desafio, até ao momento do arquivo com código de barras.

E era o teu ar de nobreza, a tua verticalidade que eu procurava.

Feliz Dia do Pai.

Percorro num silêncio preguiçoso as fotos e olho-me pelo vidro das janelas.
Apetece-me chorar e sentar no chão, e embalar-me nas rugas dos cantos dos olhos, num prenúncio de acalmia.

E nunca adormeço sem te olhar, a minha admiração na tua escrita, os teus títulos saborosos em papel de jornal, a tua família inteira num braço e num abraço que apertavas juntinho, e a mansidão dos dias que correm e eu desfeito em mil pedaços, centenas de nós por desatar e pedacinhos de luz na noite que quero só minha.

E era a esquina do clube improvisado, riscos de giz, bola sempre no ar, e eu presidia ao grupo dos putos acabados de jogar futebol na Capela Monte Belo, horas antes do banquete medieval e da guerra que se adivinhava amanhã, em brincadeiras de rua.

Ainda hoje, te espero ali, na esquina, enquanto o teu olhar me adocicava final de dia e a tua mão acenava para a minha paz de espírito.

E desenho letras de emoções, como a tua escrita perfeita, com cheiros, cores, ou apenas um olhar.

Tento ser mais hoje, adornando letras, para o teu orgulho encostado em mim, e sorrisos que se rasgam para partilharmos o mundo.

Quero estar assim ainda preso em ti, resolvidos os conflitos que teimam em pairar dentro dos nossos olhos, mas o abraço do desejo de um Feliz Dia do Pai.

E a vida lá segue, já quase sem trilhos, sem estrada infinita e sem luz na história dos afectos, num espaço que não cabe no tempo

Um dia encontramo-nos por aí, talvez com sons de violino, numa inusitada via láctea azul.

Até lá, Feliz Dia do Pai

30 março, 2011

SEI LÁ SE DÁ CERTO...!



Balançavam-se entre choros e risos, abraços apertados, beijos sem fim, lágrimas lambidas, enquanto ela tremia e ele afoito, conduzia-lhe as mãos inquietas.

Damo-nos um tempo, segundo palavras dela. “Sei lá se dá certo…”, solavancos como um carro velho, e logo de seguida, uma voragem.

Humedece língua, afia atenção como a ponta de um lápis e segue vagarosa por caminhos
pendulares, enquanto ele franze sobrolho e inquieto, mexe os nós dos dedos ritmados.

Ela, absorta na pele dele, queria alcançar-lhe os segredos mais íntimos, e ele coração palpitante, desatando nós em rimas silábicas contra o céu-da-boca.

Envolveram-se em palavras e contos ancestrais aquecendo-se e esquecendo-se em cada uma, num ritmo íntimo e atrevido, como só ela sabia ser nesses momentos.

Pensaram em ideias selvagens, perscrutando o jardim fronteiro, mas estranha chuva invadia cada letra dos seus apelidos e cada folha de cada árvore em confissões nocturnas.
Era pele entranhada e poros abertos como corridas de carros em asfalto.

Unhas espetadas em carne pura, aconchego de pernas, curvas pintadas e aprumadas em conversa de ocasião, olhos cristais líquidos embaciados no céu, que tocava quando lhe arfava baixinho numa reticência, quase… ponto final.

Espalhava-se nas ravinas das costas musculadas em devoção cega, aguçada por entre centros nervosos, expressão de gozo triunfante.

Fechou os olhos, desbravou sobras na ponta da língua, engoliu palavras uma a uma num suspiro ao contrário, com o ar nos pulmões e corpo mastigado, devorado, sem travo amargo, num gozo de indigestão.

E foi nessas formas de violino sem cordas que se esqueceu do alcance do ouvido, cobrindo-lhe corpo e mente, trinados de gritos humedecidos com frequência monocórdica.

“Sei lá se dá certo…”, e agarrava-o sôfrega, percorrendo corpo em volteio bailarino, locais de inigualável alcance, trepidante para a antiguidade do prédio e os afectos que se revezavam entre frases no espelho, baton esbatido em partes íntimas, e o café da manhã como fogo de artifício.

Paredes meias com contornos sem parede. Fecharam todas as portas a cadeado, taparam frinchas em janelas despidas, trancaram-se em comum para que o amor não fugisse, esconjurando ameaças, patas de coelho, sal refinado e alho sem casca…. Não vá o diabo tecê-las.

28 março, 2011

APENAS PERFIL



E às tantas, três da tarde, almofadas penas de ganso, suspiro regular e longínquo, a satisfação na tua pele.

Enroscas-te de novo e pedes, num murmúrio, amor resgatado de fundo lamacento. Portas trancadas a três voltas, dizes tu.

Tentas resgatar amor naufragado em manobras de reanimação circense, como se um vestido rasgado pudesse ser reparado com linha, agulha e dedal.
Sentias-te bem no meu desconcerto, arremedos irónicos e afagos na pele com subtileza.

Fatiavas o tempo em segundos, como se esticasses mais a sofreguidão, explorando partes do globo, sem amplitude dos hemisférios, vulcões de desejo e mordeduras no lóbulo sem parcimónia.

E era apenas um perfil.

Nem magnetismo, nem excitação real, nem calor encorajador. Sabiam que o ritmo abrandou, a música não tocava e os acordes não estavam lá.

Tempos houve em que se comiam orelhas, bocas, lábios e sem travão, reluziam candeeiros sem lâmpadas como milagrosos acertos germinados.

Músicas em partituras mal medidas entre um ataque de felino e um motor partido.

Queriam-se quase-amigos, quase-amantes, quase tudo e quase nada, casos sem caso, bandeira por desfraldar e um desinteresse sem sobrevivência.

Ele naufrago sem pátria, hino ou porta-estandarte, ela bailarina sem sapatos de pontas.

Tentaram novas sinaléticas, encontros em sms, amiúde um desejo, raros os reencontros, beijos pela calada da noite, metaforicamente enviados com “smiley´s” ruidosos.

Ele não lhe escrevia o amor, ela não o lia.

E às tantas, três da tarde de novo, almofadas dispersas, varandas abertas, uma cama por desfazer, nevoeiro que estala, cacilheiros da vida, pregões de varina, rédea-solta e o meu corpo sem porto de abrigo, caldo verde ou sardinha assada.

Despiu-se dessa roupagem, atirou o interior boca fora, cestos de vime na cozinha, fibras sintéticas no sanitário, duas fotos em algodão, uma camisa lavada, colarinho aprumado e o cão pela trela.

Fechou a conta no banco, não se deu mais crédito nem tempo e vagueou trota mundos por vagas gigantescas de rancores, lembranças, limpando a sal refinado essa sombra na alma.

Esqueleto arrumado, maxilar levantado e peito ardendo de novo.

Despacha o livro meio escrito, centrifugou palavras, um rabisco e três vírgulas, duas notas e uma ressalva.

Deu-se emissão no título “ Já foi tempo meu amor…”, sucesso literário em escaparate sem dor traduzida, excessos ou notícia a traço grosso.

Foi este o seu princípio, analogia simples e um fim sem frase completa, unívoco.

27 março, 2011

O AMOR NESTA IDADE É FACIL





Pálpebras afirmativas, olhar profundo, beijos roubados e escondidos nas costas da Mãe.
Vestidinhos com laçarotes, cabelo apanhado e cetim que cobria roupa domingueira.

Princesa aos nossos olhos, eternos apaixonados pelas meninas dos bombons e rebuçados de torrão.

E tínhamos distância a separar.

A distância que mediava o contorno do Pai, a distracção da Mãe e o ladrar do Roxo, o cão labrador irrequieto.

E como nos apetecia a gulodice de um mil-folhas com creme a rebentar-nos na cara.

O amor nesta idade é fácil.

Os braços pedem beliscões, as pernas uma corrida, os olhos e a língua ruborizam a pele, bolos de chantilly na Pastelaria Cunha... o resto nada mais que arrepios.

Neste amor, as gotas de água que alimentam as plantas são território de chuva permanente.

O cinema, tardes de Domingo no Terço, dois berlindes e uma gasosa e um painel de boas vindas com letreiro até ao pescoço.

O gancho do cabelo teimoso e o meu queixo cristalizado quando focava mais intensamente o fundo do olho azul.

Risos como fogo de artificio e duas espécies antropologicamente estudadas num desacerto de pescoço e olhos como galinhas tontas em dia de Folar de Páscoa.

O algodão doce na Feira de Sta Clara do Bonfim cirandava entre todos, enquanto o carrossel desafiava clientes com o vendedor de tecidos, atoalhados, facas e alguidares.

E era a mímica do silêncio

O beijo do esquecimento, na passagem secreta entre escolas.

E costas com costas, simetrias perfeitas na altura e no conforto, transpirados em poros honestos e sadios, simulando respiração acertada na inquietude da mão dada.

E era esta ansiedade, cortada pela deslocação de ar que acalmava o zumbido do ouvido dela e o bater do coração.

Cresceram sem abafos de dor, desapertando os nós milimetricamente atados com a precisão de comandante de navio

A acostagem ao cais, perfeita.

Cada um no seu trilho. Línguas secas sem temor, maldade ou ofensa.

Um abafo de dor, um mil-folhas encharcado na cara, o algodão doce que resvala e a Sta Clara costas com costas no Café Piolho.

Viram-se anos depois em terramotos de riso num acaso de toques de pernas, bacias, mãos e cabelos, na discoteca inaugurada.

Alvorada em tom sépia, diálogos secos pelo canto da boca e ruídos de emoções à flor da pele.

Deram-se mãos de açúcar queimado, em lastro de desculpas entre fiapos de luz-sim e luz-não, um estômago a três voltas, sapatos de salto alto e almas embebidas em limão, xarope e algodão doce.

Perfume extrapolado, pescoço agitado, cadelas em volta de focinho alçado e um adeus telepático entre leituras de um olhar que não se conhece, o sorriso desfeito e olhar azul tingido de vida madura.

Saiu espalmado na alma e coração desconcertado, feliz contudo, matraqueado no espírito e reluzindo como salva vidas no naufrágio.

Virou a folha da vida nos confins das veias e atirou o primeiro amor de feições esquecidas ao vento tempestuoso, com milímetros de pele a arder calculadamente macerada e demarcada.

Fechou a porta pelo ouvido esquerdo, desmembrou a saudade e fechou chaveta no fim da frase.

24 março, 2011

If You Forget Me !




Falavam-se entre novelas, ritmos solares separados, crateras de indiferença e significados ocultos.


Nunca entenderam como mergulharam naquele buraco, ausentes de matéria, incapazes de um olhar, alheios à ausência de respostas, e perguntas inexistentes.

Eram parcos os verbos, inquietos os adjectivos, nem suspiros ou anseios. Era um estar apenas, como as cegonhas residentes, a curva dos olhos, o gaguejar nervoso.

Desagregados os toques, afastados os cheiros e a forretice do sentir, espalhavam ausências diurnas e nocturnas como uma não existência.

Mudanças físicas ou estéticas eram formalidades. Não sabiam do começo, não procuravam saber do silêncio.

Nem à mesa, no sofá ou no leito conjugal.

Por vezes silvos como granadas de mão, mísseis teleguiados em todas as direcções, um rosnar com bater de dentes apocalípticos.

Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos.

… e num desses intervalos a mão quente tingiu de cor o coração do outro. Mais chegados e aconchegados, risos soltos, como se um condenado acabado de libertar, um só programa, toques serenos, ferro a alimentar o sangue, e musica pairando nos olhares antes murchos, agora inquietos brilhando como um bêbado no último copo.

E do diálogo nasce luz e do amor pesado um contrapeso bem medido, como equilíbrio de futebolista na ligeireza do remate frontal para o golo.

Então, como Romanos no banho celestial libertaram-se do peso da mágoa e mergulharam horas e horas, embaciando espelhos, dançando sem máscaras, caídas momentos antes, mas em solfejos de abraços e apitos de beijos em numerosas negociações recíprocas.

Diz-se ainda hoje, que o sofá envelheceu, e no lugar dele molduras felizes, fotos de família, flores e musica e mãos apalpando cheiros e formas.

21 março, 2011

AMENO




Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence.

Quando chegares
Não rejubiles nem despertes os vizinhos, traz os teus sonhos que são nossos, e as palavras inteiras preenchidas.

Adoça a boca dos miúdos, lambuza-os com beijos e palavras meigas, seca as lágrimas que te povoam e dá um toque de cor na pele.
Arranja-te corpo, unhas e olhos, os lábios escarlate, roupa aprumada e liberta a alma que tens em ti.

Quando vieres
Invade a casa de perfume, o som suave do teu andar, a textura da tua pele, as coordenadas trocadas, o Norte a Oeste e se faz chuva depressa o Sol.

Não tragas palavras sobrantes, porque o tempo é escasso entre um toque e um beijo, mas enumera os adjectivos e embala-me no teu olhar.

Quando chegares
Uso o meu humor fácil no teu cansaço, uma piada para o sorriso deles, e um garrote nas veias da tua alma para te sentir.

Se entenderes sair,
Vou aos saldos dos telemóveis sem carregamento, anilho mensagens em pombos passantes, uso o telégrafo, o fax ou pedacinhos de papel.

Se nada disto a ti chegar,
Envio-te garrafa meio-cheia com dizeres romanceados no mar solto e inquieto, gargalo ao alto em rolha portuguesa, energia positiva a deambular, oceanos e marés contrafeitos como mira telescópica directa ao coração.

Aí,
Dobradas esquinas e estradas, os mares e o Bojador e inertes as Caravelas, chegar-te-á de mansinho, silêncio prometido, como impulso retraído num beijo, palavras rotas e amachucadas.

Estaremos perto da memória da fibra sintética, o doce e suave perfume, a tessitura do beijo, o toque secreto a meio da noite, o chão frio da cozinha, o candelabro trepidante, a varanda subtil, o elevador da casa alta, o nosso carro dois por um, e o teu interior remexido.

Se tu ou o acaso vierem,
De sorriso largo e pele macia, formas de violoncelo e paixão ardente, encosta-te a mim, como lombada de livro por ler e marca-me a tua página por camadas sobrepostas de mil-folhas, tal a sede de nos lermos.

01 março, 2011

Hoje o silêncio !



Apetece-me só o silêncio.

As janelas embaciadas, água a escorrer no algeroz, a chuva na vidraça, relâmpagos na clarabóia.
Quadros que me olham como se conhecessem, fotos antigas sem cor, a minha preguiça enrolada, as rugas de mansinho, ondas no casco do barco no Tejo.

O Inverno melancólico modifica cores, mantendo o ar doce de ti.
Leio-te em contrapontos jocosos, arremedos irónicos, afectos sem terminação, mágoas entre parêntesis e a vida em reticências.

Apetece-me apenas silêncio.
Bocejos de fome que passam na rua, misérias que atravessam as malhas do cansaço e a indiferença nauseabunda de angústia dorida.

Mantemo-nos no lado oposto ao traço contínuo que segrega códigos sociais, escancaramos desgraças a golpes de sabre, baionetas afiadas e rajadas de discursos sem solução.

Já não sonho
Olho-te ao longe, esperança retardada, sombra de um barco sem quilha e a humidade que me arqueia as costas.

Vejo-te neste silêncio que inquieta, de gente em ritmos diferentes e os teus braços abertos na minha direcção.

Tenho dias de areias e conchas, sem luz no horizonte, e gaivotas que debicam os restos, obedecendo ao gargalhar do Mundo.

Reparte-se o tempo em ritmos solares num diálogo de significados ocultos e a água que agita o algeroz, as bátegas na proa a minha janela iluminada pela chuva, desenhando bailarinas em pontas, trapezistas sem arame e as primeiras andorinhas nos beirais.

Um rasgo de calor, o teu olhar e milhares de conversas asas fora.

Hoje, só quero o silêncio!

23 janeiro, 2011

QUERES QUE TE CONTE?






Quero contar o que és.
O que é este mundo e esta gente.
Como notícias de nascimento ou óbito em primeira página.
Descrição pormenorizada, polissilábica, rebuscada, com excessos de sujeitos e predicados.

Passar a notícia a traço grosso, com independência de cores. Contar e não fazer ressalva, despachar a notícia em três penadas sem analogias.

Traduzir-te em simultâneo, fazer-te figura de estilo, uma frase completa…repleta.
Aligeirar a notícia floreando-te, cheirando-te pele, fazer-te um índice, post-scriptum.

Ter contigo uma muleta linguística, vaguear no teu corpo como Neruda na poesia, ou pintura de Dali.
Ter contigo partituras de solidão, acrescentos de suspiros na cova da orelha, olhar mareado e bússolas decompostas que te percorrem caminhos sem fim.

Que serias tu se despida das palavras que te compõem? Um processo simbiótico? Um defeito de ligação?
O teu sorriso juvenil que me descose sorrisos, o meu instinto na pele, o frio que cose a barriga, o rosto do oceano, voos rasantes num instinto de liberdade.

Existes como quase ausência de intenção, e eu, antídoto de veneno, injectável, rebuscado nas fímbrias da tua pele, trazendo-te à vida.
E tu silêncios, palavras meias, sem exageros de afectos. Por vezes até distante, sem urgência dos Deuses, nem a minha.

Relembramos parágrafos, deslassamos abraços apertados de quem quer ter tudo naquele instante e não largar… jamais.
Soletrar beijos posteriores e sermos melhores do que alguma vez fomos.

Suspiros teus por sopros meus, parcas palavras, silêncios emparedados, relação brumosa.
Guardo-te na memória com cruzes para não me esquecer e bússolas para não te perder.

Desequilibraste na ponta dos dedos, teclas erradas e desconexas, sem intervalos nem horas mortas.
Contar-te dos arrepios deste mundo volátil, desta sociedade que nos fere corpo e alma, que nos suga sangue e nos enterra no corpo facas afiadas, e traz a tiracolo algozes com polegares ferrugentos de notícias de jornal.

Cinzas nos sorrisos dos jovens, silêncios apertados e uma falta de verdade e de afectos, que nos vai moendo e destruindo.

Queres mesmo que te conte deste mundo e desta gente?

07 janeiro, 2011

WINGS



Foi Farol no horizonte, navio de porte, potro selvagem, um quadradinho de marmelada, torrão de açúcar saboreado às colheres.
Quantas vezes oficial sem trato, emérito cavalheiro aprumado, erecto como um soldado em linha de formatura.

Deixou de verbalizar o rancor, o léxico reduziu e passou a reger-se mais por olhares sem matéria aparente.

Encontraram-se anos passados, numa banalidade descartável, catalogando-se mutuamente, palavras rematadas suavemente.

Nunca souberam quando começou o amor e terminou o hábito.
Contagiaram-se mutuamente como virose, arremessando pedacinhos de paixão.

Uns dias puxaram outros… outros contagiaram mais… a névoa entrou... o sol deixou de brilhar como antes.

Agora balança como flor sem caule, haste de uma árvore sem remissão, neurónios atabalhoados sem noção de alinho, de figura ou de sombra.

Habita um espaço dez por dez e uma memória três por dois, ataques de riso e de choro, raiva entrecortada por violência lunar, numa inusitada desgraça.

Tem um prazo por cumprir sem data certa, num tempo que expira, como as cortinas de nevoeiro num exorcismo de medo.

Arremessos de gente que o povoa e seca, resistências carcomidas, já sem memória e pouca capacidade.

As palavras, essas, saíam desconexas e desarrumadas, vazias e despovoadas.

De repente, um dia de solavancos.
Ela olhou-o, e com a ternura na ponta dos dedos acariciou-o uma e outra vez, até sucumbirem entre vértebras num abraço perfeito de aconchego.

Consta... que a meio do percurso, ali entre Neptuno e Plutão, na zona da Via Láctea, encontraram um invólucro com duas pétalas perfumadas e um sorriso a pairar.