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RELOGIOS DE TODAS AS DEMORAS

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Estalido de fechadura nas minhas costas.
Tu em reticências, um peito de delito a qualquer hora. Pescoço e pernas delgadas como desnorte de náufrago.

Espectro lívido na tua presença. O meu protesto à porta do teu corpo.
Juras de amor sôfregas, promessas e suspiros de devoção. Paixão como semáforo intermitente, beicinhos e choros.

Regresso ao teu corpo diluído, antipartículas, sonho em fragmentos.
Intermitências onde se abriga nocturna a lua pálida e pérfida.

Vês como se aninham parados os relógios de todas as demoras ?

Dá-me medo que a saudade liquidifique, trémulo bambu, beijos melosos percorrendo o caminho sinuoso das tuas costas.

Redime-me. Absolve-me em confissão. Multa-me por engano cósmico, sangra-me a pele, repete-me tresloucada a boca no meu beijo.

Horas, minutos e segundos, que se amontoam na aridez sedenta da pele.
A fonte de todos os males, uma boca de alimento nos frutos dos teus ramos.
Os teus braços.
Braços, sim. Braços de envolver, de embalar meninices e entoar baixin…

Escrutinio do tempo

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A angustia do sentido da vida e o relacionamento com ela,
Defeitos que se afiguram mais nítidos, as insuficiências e os erros.
O caminho da coragem. O sorriso feito coragem.

Caminho apressado para os cinquenta. A idade fica apenas mais nítida e aumenta o encanto.
Nada mais.

E é Dezembro como sempre. Frio, chuvoso, inquietante.
Flores e pétalas avermelhadas, nuvens sujas. Plantas que entortam o muro do quintal.
O gato imóvel

O parvo do gato que quando miava se queixava de mim à minha Mãe...medricas.
- Mariquinhas é o que és.

O tempo embaciado como os óculos do meu tio na ponta do nariz.
Ele, elegante, chapéu aprumado.
- A bênção Tio. – Deus te abençoe, sobrinho.

Livros que não acabam nunca. O cheiro agradável do "after-shave" do meu Pai.
Domingo de nuvens sujas, a tarde triste, um sol escondido sobre o Porto.

Os meus quinze anos. O parvo do gato, ainda imóvel.
As fisgadas nos pássaros, as bochechas rosadas da minha vizinha da frente.
Sombras das árvores no quintal.

Trovoadas e tempestade

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Eu, Tu e as trovoadas. Raios e relâmpagos. Trovões como paquidermes.

A tua Tia carregadinha de cremes, debruçada na varanda.
A minha Avó de bengala. Monogramas nas fronhas que vai cosendo. Fímbrias douradas e azul celeste.

Tu, menina. Tosse rouca que partilhavas num vendaval brônquico qual relâmpago em aguaceiro.

Os dois no entreposto entre as duas portas. Pé aqui, pé ali.
Inocentes de mãos dadas.

Uma reza a Santa Bárbara. O céu iluminado e nós desafiando paquidermes grotescos.

Saltinhos entre quadrados desenhados no chão, voltas e voltas, um beijo na face esquerda, protegida dos olhares certeiros da Tia e o trovão a espreitar.

O frio nas entranhas da casa. Água tépida. Três assoalhadas. Esgares de gente que não conheço em molduras marteladas na parede.

Naperons com argolinhas, afectos em repouso, rugas de mansinho na cara da minha Avó.

Chuva em bátegas na vidraça, o gato fru-fru enrolado nas tuas pernas tentadoras. Eu destemido invasor.

Um tabuleiro de xadrez. Torres derrubadas, cav…

Poções Mágicas e um Sorriso

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Chove imenso neste dia e é quase Dezembro.
Estou em pedaços. Incompleto. Esquartejado em meia-lua ou quarto-minguante.

Falta-me fazer magia para completar o círculo da vida. A magia que tu fazias em azul. Os teus olhos em azul.
E eu piso de novo os meus passos numa procura de alma em labirintos inquietos.

O céu é um lençol pejado de estrelas, e o arco-íris, um caminho para lá chegar.
Resta-nos o caminho.

Vivo em combustão entre a saudade e o devir. Arrumo coisas que julgava terem tido o seu lugar.
Volta-não-volta, desarrumo gavetas onde as deixei.

E no entanto, a sombra da voz e o teu sorriso.
O beijo que envolve, a mão que protege, o grito que abafo, o musculo que absorve.
Parágrafos que deslassam emoções, risos inocentes, enxurradas de sílabas a matarem esta saudade que corrói.
Versos que largaste, o abraço que me deixou e um coração com as cores em agonia.
Frases soltas, que não sei como encaixar. Um espaço sobrante… o teu.

Estou entre lugares que não me pertencem, lugares …

IN MY PLACE...!

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Este é o meu lugar. Um lugar novo.
Um espaço fechado de silêncio e paz.

Pedaços de algodão como flocos de neve. Fiapos de luz tecida num candeeiro bifurcado em complexo de teia.
Almas e gentes, diabretes e aflições, tudo na alma. Tudo numa alma.

O teu corpo quente ancorado nos meus lábios, enquanto solfejo palavras perto do ponto final deste texto.
E neste lugar vazio de gente, cheio de mim em ti e de ti em mim, cirandamos descalços pelos trilhos misteriosos da mente.

Os Deuses devem ter enlouquecido e semeiam segredos na voz desavinda das pessoas.
As pessoas enlouqueceram e desafiam os Deuses sem complexo nem voz.

Nos cabelos em cascata dos Anjos, prendemos gestos para esconder a saudade.
As nuvens vistosas repisam desejos e o rio repleto de carisma alonga os seus dedos rodeando os nossos corpos enlaçados e invisíveis.

Sãos os teus sonhos que se fazem.

A lua teima em não se envolver, depositando nas paredes nuas dos prédios a minha sombra.
O eco da fala morde o meu sossego.

O…

SEGREDOS DOS DEUSES

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De dia abraço o Tejo… de noite a madrugada.
Da minha janela a cidade e uma luz esvoaçante.

Do nosso quarto vês a Lua, um rio, espelho de água e uma traineira.

Aí navegam os meus silêncios, enquanto corpos se enlaçam nos beirais, nas pontes à descoberta e nas ameias do castelo.
Tens Lisboa nos lábios, fado inquieto na língua.

Nuvens bailam a céu aberto, pinturas a carvão em tela difusa.
Lisboa de sombra e luz. Partir e ficar. Máscaras caídas após o bater das asas.

Senhoritas como contos de polichinelo, damas de cetim e olhar amendoado.
Lágrimas que apertas no peito. Caderno de partitura com música escondida.

Do jardim abraço o dia, na praia o pôr-do-sol.
Olhos de Anjo em segredos de pássaro.
Saudades com gente dentro. Carótida atiçada. Eufemismos na tua boca.

Deuses em rastos de gente, dentes que sobejam num sorriso.
Olhos na névoa que se dissipa em bando.
Feridas afagadas para que não sangrem, este texto que sai sofrido e uma bátega de chuva no parapeito, esventrando a noite…

Mil poemas na tua voz....

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Acordo da noite mal dormida.

Meu corpo balança suspenso no vácuo dos teus braços e o teu beijo continua ligado por um hífen ao meu coração.
Pedes-me que te ajude a suster o sonho que te denuncia, num registo de inquietação.

O teu vigor em peito arfante num sono que não consegues dormir.
O teu suor que se espalha entre a pele e o cetim que te envolve cama.
Ínfimo cristal numa noite de fantasmas, sombras que se espalham, corpos esvoaçantes de anjos numa sublime elevação.

Nebulosas diatribes que expeles corpo fora num remoinho constante entre lençóis, como se os meus braços te amansassem fúria

Ajuda-me a conter nos pulmões este luar minguante que invade os côncavos e os convexos da minha solidão.

Ilumina a minha alma incorpórea e alva.
Deixa que eu a veja retratada em ti, gémea e doce, antes que os derradeiros esquissos do sonho se apaguem.

Amanheceu, e abandonas-me ao estrépito rotineiro do relógio.
Fugiste no momento em que os meus braços lançam chamas envolventes na tua di…

UMA LUA DE DESEJO

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E surges do nada, como carro em contramão.
Uma língua forrada a tédio, química sem organismo, como placebo à hora certa.

Rebuscas sem sucesso o interior que esquartejas na incessante mansidão dos hábitos.

Baloiças-me entre órgãos, tropeças num pulmão, alcanças brônquios desimpedidos, tentas o coração.

Ergues-te perscrutando a alma, mas não a vês.
Sentes-me trôpego, velho e inquieto, numa sonoridade tangível, melodiosa.

Sais-me pelo ouvido esquerdo e sussurras na direcção do tímpano.
Não sabes como fazer. Se me rebuscas de novo, se modificas a preceito, se aceitas como tal.

Mexes a quarta-parte do lábio superior como um Outono ocre. Pétalas dissolvidas em rosa púrpura. Um corpo de tudo ou quase nada.

Envolves-te no meu perfume, fazes do meu corpo assombração, abraços em desordem e o aproximar do peito numa dança vivificante.

Noite de línguas doces, namoradeiras, saloias, sonhos em golfadas como placenta rompida, num prenuncio de desejo.

Curvas-te em mim. Descompões tessituras bo…

ENQUANTO TOMBAM AS ESTRELAS

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´


Os olhos da terra, as asas do sol e os beijos da lua embriagam
e vergam-nos.

Precisas de locomotivas de afago.
Não na velocidade, mas na intensidade do afecto.

Afecto e ódio.
Onde se rasgam e decapitam corpos num vórtice em espiral.
E tu, dentro de mim... sinapses labirínticas no coração.

Um corpo inerte num caminho longo, alma humana como estrada, caminhos tortuosos, obstáculos perenes, pontos de ligação num único sentido.

O guião da nossa jornada já escrito.
A corrente de água que te refresca, o prazer que não é por acaso, os tropeções colocados no parapeito da vida, e o que é... porque tem de ser.

Encolhes-te no teu interior. Alma bafienta. Nevoeiros cerebrais. Boicotes nas meninges.
Greves e palpitações cardíacas.

A perda do tempo, a inquietude no ultimo segundo. O suspiro final.
O tempo que se foi. O abstracto que somos. Um salto no abismo sem rede.

O espelho na memória.
As minhas rugas, os teus papos de Anjo.

As voltas da vida, o minuto seguinte. A voragem do tempo que…

Apenas os teus olhos… sem palavras

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Já é Outono e as pessoas evoluem em passo lento, resignadas e cansadas.
Os corpos despegados soltam-se a espaços

Há rostos que falam, que contam histórias...olhares brilhantes, sorridentes, outros tristes, marejados discretos.

As palavras perdem-se.

Algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras tentam, mordem, alcançam, cantam-se e ferem, abanam e apoderam-se de nós, enlaçando, remexendo, correndo desabridas sem alcance.

Vivemos suspensos num tempo de nada, tentando derrubes de defesas construídas com cuidado e propriedade.

Leio as tuas histórias sem nome nem rosto, maquetas construídas a preceito, palavras que sublinham desenho, leituras suaves e um deserto de emoções à deriva.

Quando te olho não preciso de palavras.

Mas tu fazes um cerimonial de desacertos e procuras a geometria do meu corpo na voragem dos dias.

Lábios deslumbrados e sangue dos sentidos, lábios com palavras escritas por mim.

Quando te oiço não preciso da tua presença.

Pedaço…

Se um dia não vieres eu compreendo…

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Se um dia não vieres eu compreendo...

O corpo da cidade esventrado. Pracetas dançantes.

As tuas rugas ligeiras. As minhas veias quase mortas. Repouso pueril em edital.

Vadios pelas tascas, becos que não são os mesmos. Trinados de guitarra,
lamuria no teu corpo de mulher.
Malfadados e bairristas na cerca do castelo, predadores encorpados.

O teu ombro que me esconde horas fora depois da armadilha dos abraços.
Os fiéis e os verdugos de Cristo na esperança do perdão.

Se um dia não vieres eu compreendo...

Uma atmosfera de tempo suspenso, mulheres lânguidas, finas, tenebrosas, o grito da varina.

Trégua nas brumas. O beijo namoradeiro numa entrega subtil.
Algodão doce recheado.
Nuvem desfeita e palpável. Ruas em cidades estranhas, um mundo que não conhecem.

Lábios no lóbulo esquerdo, nas curvas dos teus pintados de carmim. No prolongar do pescoço, nos nós dos dedos, e uma torrente de palavras meigas em que me afago.

Meiguice aos pedaços, almas próximas da curva da vida, pele alucinada …

Vai-te saudade

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Palavras e cheiros, caneta e papel, folhagem das árvores, uma parcela de céu,vozes sem se parecerem vozes.
Nem choro, nem angústia.

A saudade e a falta habitam a mesma morada, procuram as mesmas razões,
e empurram-se como balões levados pelo vento.

Balões de saudade que se acumulam nas paredes como musgo, e se condensam,
escorrendo em gotículas visíveis a alguns, invisíveis a nós.

É esta a saudade que se faz parede e não nos deixa derrubar.

Uma nuvem de papel. Algodão doce. Fiapos de luz num candeeiro tosco, palavras sussurradas apenas.

Letras adornadas com laços, melodia e alma dentro. Saudade em bifurcações, a complexidade de uma teia.

Pausas sem tempo. Uma não-pausa, ritmos dilacerados, despidos.
O teu olhar, uma vertigem, beijos inundados de iguarias, uma cópula vibratória.

A transição entre mim e a palavra.
Gestos de medição, imagem de dançarina em ventre liso.

A tua mão em repouso na minha, a celebração das rãs no charco e os meus dedos caligrafando o coração.

Não recl…

Sonhos

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Os candeeiros da cidade brilham na escuridão e na alma das gentes.

É tarde e está escuro. A única coisa que brilha é a solidão. Nem mesmo os faroleiros conseguem rasgar esta noite, e vai chovendo também.

É nestes dias que tu apareces. Sem ruído, cautelosa, sempre com a frase certa, limpando-me teias de aranha inconsequentes que vou deixando ficar.
Tudo o que não sei, desejo e não tenho.

A mensagem que te enviava tinha menos letras do que pretendia. O amor que te imaginei, foi mais longe que os beijos que te deixei.

Agora, agarras estas letras decifradas em papel lacrimejante e resumes para ti, como me deleitava nos teus olhos e como adocicava os meus lábios nos teus.

Vivíamos como a poção mágica nos permitia, inquietos, distendidos, o mar ao fundo, a areia solta nos pés, os bolsos vazios, a paixão como irmã, restos de espaços perdidos entre nós...

... dou-te, na distância, o abraço do Oceano.

Sempre quis enviar esta mensagem. Não tive, nunca tive a tua mão por perto. Porventura já…

Someone Like You

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Janelas às escuras, ruas sem vida, árvores sem folhas ainda.

Um respirar aturdido no balanço lírico das águas, no desejo que se faz palavra ou na palavra que se faz desejo.

Fraquejas como o sol que amansa o vento, o silêncio as palavras, o prazer a melodia, os gestos o ódio, o amor a emoção e quantas das vezes a razão o coração.

O amor, é uma bailarina em pontas, num corpo mole e ardente, rodopio acrobático, um salto no vazio, um turbilhão de sentimentos,
antagonismos, revoltas, conceitos e preconceitos, uma luz nocturna
a correr no rio das emoções.

Ruas apenas com um sentido, semáforos abertos, rotinas vazias e o mundo a ruir alheado da vida.

O teu sorriso forçado em mim, amanhã o meu pior receio na tua perda, a minha amargura
A minha pulsão arrumadora, o canto e a leitura, a escrita noutro espaço.
A tristeza pela finitude.

As pessoas de quem gosto, não morrem. Apenas não podem estar presentes. "Bergman" negoceia essa questão, num filme, tentando num jogo de xadrez, ga…

FICAR OU PARTIR

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A finitude.
A nossa e a dos outros.
O vazio, a falta, o desaparecimento.
Como será desaparecer, deixar de contar, perder a infalibilidade.

O bom e o amargo.
Quem nos chora, quem nos revê, quem nos sente.

Um batimento de asas, um voo picado, pó de Anjo.
E navegamos em águas turvas, espaços bolorentos, enganos interiores, imagens irreflectidas, virtuosos da incompetência e estupidez. Magnatas da asneira.

E fraquejamos como o sol que amansa o vento, o silêncio as palavras, o prazer a melodia, os gestos o ódio, o amor a emoção.
Conversas esburacadas minadas e vazias, significados ocultos, alheados por inteiro.

Vivemos a espaços na virulência do quotidiano e dissecamos febres hemorrágicas num prenúncio de fim.

Sei que raramente me lês, pouco queres saber e volta-não-volta configuras-te e estendes tapete vermelho à minha passagem.
Como se eu tonto, não te soubesse de antemão.

Vida feita de pantominas, gestos de dança, teatralizações suaves e cronometradas, sustentados em algodão d…

O TEU EXORCISMO

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O teu exorcismo

Entrelaço sentimentos proibidos enquanto exibes letras reprimidas.

Tens válvulas que te escapam, artérias descoordenadas, amores… com dores só tuas, poros dilatados de tristeza acumulada, e um caminho de luz em forma de sonhos musicados.

Respingas os teus desejos através do olhar, do teu corpo às arrecuas, do sorriso malandro entre os dentes.

Sei o que te uniu.
Toques subtis, gestos prosaicos, a tua mão no meu peito, unhas cravadas,
delírio escandalizado, a tua maroteira.

O teu prazer nos entremeios dos lençóis, gritos desalmados no meu interior,
pedras que se mexem dentro de mim, contorções de alma.
O teu exorcismo.

E o tempo flui sonolentamente num retorno à intimidade
Ainda não sei o que te acalma ou o que te rastilha.

Se incendeias fácil, se ris baixinho, se beijas suave,
se resvalas nos lábios apenas… se o meu coração aguenta sustos a desoras.
Farás aí o teu exorcismo.

O meu corpo. Conexões, apêndices vários.
Braços que se prolongam dos teus, a minha alma pr…

FESTAS POPULARES

Cantam pobres, ricos, remediados, salta a fogueira e a sardinha,
vestes engalanadas, pregões de boca em boca,
respinga alto a varina.

Cerveja a rodos, copos de tinto vadio, proxenetas afivelados com roupa multicolor,
- Ó filha estás bem prendada
- É para ti, meu amor…!

Fadistas em dó menor, mulheres fáceis da vida, paixonetas titubeantes,
aqui se abraçam amantes.

Rodopiam na avenida em marchas triunfantes,
velhas ensinam rezas, fazem tranças,
E da Mouraria a Alfama, e do lado do Bugio,
há gente que espreita da Bestega ao Rossio.

Cantam o Fado na Madragoa,
Velhos gaiteiros regados a vinho
Gritam, dançam, rodopiam o manjerico
Corre o Plebeu, discursa o Erudito,
lança a escada o mafarrico,

Fica comigo, então…!

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Ruelas de céu aberto, cicatrizes em espaços esventrados, salpicos de vergonha, mãos pegajosas de algodão doce.

Nós no cinema, frases dramáticas de heróis trágicos.

Mão na mão, consentimento no olhar. A tua pele de galinha…- Sabes que te amo… dizias.

Fica comigo então…!

Corridas no S. João, martelinhos em debandada.
As tuas mentiras que me devastavam a flor da pele, sinapses no coração, estardalhaços mentais e o meu desprezo.

Valsa dançante de vontades no escuro, corpos que se tocam, rodopios frenéticos em simetria perfeita.

Pescoço e boca, costas com costas, volteios... Apenas volteios.

Respiração regular, soberba no olhar e o Douro em fundo. Abraços já circunstanciais, a tua insanidade evidente em gestos contaminados e de repente um pranto… E o teu medo.

Eu… inocuidades gentis, gestos controlados, medo de chocar nos teus olhos. Transfiguro-me.

Um pé dentro outro fora, derrame de ofensas, cãibras na garganta que evitam desaforos, fiapos de simpatia, derrapanço de compaixão.

- Sa…

ESTE AMOR É ESQUISITO

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Este amor é esquisito.

Uma porta por fechar. O clique da lingueta, o vento.

Noites mal dormidas, risinhos trocistas no meu sono, bateres de portas e janelas, vozes na minha alma, coração acelerado, cabeça zonza, somatizações.

Um amor de construções na areia, muralhas da China.

Gosto de beber o ar por ti, ficar dormente e distraído. Sofrer por ti, extinguir-me em ti.
e…atiras o barro do teu coração à minha alma. Malabarismos circenses?

Este meu amor é esquisito.
Salta muros e pontes, navega em lombadas de livros e desemboca em areia em vez de mares.

Não tem vestígios de rugas, nem covinhas na face, mas parcimónia de palavras.

Não dura mais que um olhar e, no entanto, mãos dadas, sonhos reluzentes, escravos núbios que nos protegem de fio a pavio.

Este amor é esquisito.
Parece um programa de computador, imagens a 3D, recheado de sinónimos e frases delicodoces, vergonhas e lugares-comuns.

Escrevo e apago rascunhos incertos. Travo amargo de insanidade. Escárnio. Frases cirúrgicas deb…

GUARDO OS TEUS SORRISOS NUMA CAIXA

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O teu sorriso. A covinha na bochecha, dentes de branco imaculado em lábios reluzentes.
Vincos nos recantos da boca.
Azuis os teus olhos, profundos nos meus, alma debicada, intenso e absoluto, eficaz.
Queria poder guardar os teus sorrisos numa caixa.

A minha avó a rezar o terço, voltas e voltas de ladainhas e o fio solto pelas mãos.
A lamparina de azeite sempre acesa em homenagem à Sra. de Fátima.
O raio de sol, qual milagre a enfiar-se pela frincha da porta e a clarabóia do sótão a debitar barulhos de telhas soltas.
O cheiro da sopa com muita couve, a aletria divina, o cabrito de chorar.

A bengala do meu avô, adorno de rei, a bater no soalho, chamando a empregada Conceição... ele que preferia palavras a sorrisos.
Chapéu e fato aprumado, verniz no sapato reluzente, o coração na bengala a descompasso.
O relógio de parede nas suas desoras redondas e um tic-tac infinito.
A gaveta mais baixa do armário com fotos antigas e condecorações de tempos idos.

Os meus passos pequeninos de sa…

CIDADE EM NÓS

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Uma Igreja. Ruas desertas. Casinhas de papel. Um corrupio de gente, deambulando na ribeira.
Equilibristas sem corpo, chuto-na-veia, máscaras sem dentes de tristeza e desalento. Fardo com cicatrizes, desertos de estímulo, desalinhados na vida.

Cidade a acordar devagar.
Cheiros de resina, musgo fresco. Um algeroz que pinga. Café fresco. Um gato que se espreguiça. Roupa no estendal. Papel de cenário na escadaria.

A cidade respira a céu aberto, luz difusa, cacilheiros no cais de embarque, viagens de silêncio.
O teu corpo na gare do desejo e eu ancorado em mim.

Alguidares e caixotes.
O eléctrico da baixa. Uma “bica” aquecida, ossos desalinhados em rostos carcomidos, margens a preto e branco. Silêncios de alma, tristezas no baú da memória.

Igreja sem fiéis, beijos a tiracolo, pontes engalanadas, barbeiros bairristas, varinas ligeiras.

Da minha casa vejo o rio, da janela a cidade, o abraçar do fim do dia, gente composta, sopro de paixão, o piar de pássaros nervosos.

Um vento de gelo, an…

O NOSSO TEMPO

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O nosso tempo é no verão.
Não nesta promessa de cansaço, dias curtos e cinzentos, cheiro a terra, bolorentos, mas no verão, sem estio de cansaço, sol queimando pelas costas, o cheiro a maresia e o calor nos pinos dos trópicos, camisolas curtas e calção sem pudor.

O nosso tempo é praia de areia branca e cristalina, bocas ansiosas do gelado, truques de magia em palanque engalanado e a dancinha das comendas com medalhas no peito pelo Presidente da Junta.

O nosso tempo, é um espaço sideral, flutuante, duas pontas entrelaçadas, nós de marinheiro, trombetas a cada gingar de ancas, traços comuns nas tuas costas, o meu coçar à tua volta, a teimosia que tens atrás da orelha, o crepitar do sangue nas veias, e a ponta dos teus dedos no reflexo do meu palato, mordiscando diabruras.

O nosso tempo são os baixos-relevos trabalhados na tua boca, laivos de donzela, heráldica e pantominices de lábios gordurosos como marca de água, delimitando-me mais por dentro que por fora.

Temos este tempo, de pa…

PÁSSAROS NUM CÉU DE MAIO

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Pássaros num céu de Maio

Palavras coloridas. Esvoaçantes.
Como pássaros alegres num céu de Maio.

Música translúcida dos teus lábios em mim.
Sílabas inauditas e mágicas. Aromas frescos. Beijos colados na pele. Aguarelas de cor. Almas num só gozo. A lucidez na tua voz.
Pedaços de pecado ou pecado aos pedaços.

Espelhos cristalinos que nos envolvem, solfejos e rabiscos, aguarelas nuas, pétalas soltas, cheiros e perfumes em forma de desejo.

Palavras que me atiras, inebriantes como o teu corpo de mulher.
Vulcão que se faz lava. Sangue dos sentidos. Renovados desejos. Espaços por preencher. Alma cheia com formas e paletes de cores garridas, em pinceladas suaves.

Fragrância que emanas. Tontices minhas. Mordeduras doces com um cerimonial de palavras incertas, em inseguros voos. Parapeito do abismo, névoa de paixão agrilhoada no ventre. Compostos de carbono, diabruras em dó menor.

Anjos em êxtase, braços, pernas e tronco. Mãos que atam e desatam. Asas que voam em túneis de vento.

Pássaros …

DUAS METADES DE TI

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Duas metades de ti.

Passos que marcam. Curvas que desalinham. Montanhas russas. Fastio e cansaço. Fome e migalhas. Sinos que tocam a rebate. Círculos sem fim. Uma parte de ti sem a outra parte de mim.

Apetece-me outros passos que não os meus, a mansidão dos dias, a luz e a noite, uns dedos distraídos que aninham prazer.

O silêncio nas minhas rugas e nos teus lábios, o vestido translúcido, o peito que bate refilão, o meu coração inquieto... A tua parte sem a outra parte de mim.

Concisa e segura, pernas sem poiso certo, com pudor e contenção.
Fêmea sem cio, os meus olhos como velas, um amor solto como fé pagã, remendado com bocadinhos teus.
Palavras por dizer.

O teu jeito e trejeito que me faz mossa. Corpo e textura. Incenso e paz. Doce e amargo. Olfacto e paladar. As tuas pernas no meu peito sem rasto nem dor.

Queres-me diabo com sushi, obstáculo a ultrapassar, persistência e devoção.
O chão que me falta nas tuas curvas, suspiros e risos nos teus olhos, o equilíbrio nos teus salt…

A NOITE DESEJA E O RIO FAZ

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A noite era curta para tanto que dizer.

As luzes madrugadoras tinham sido amantes nas margens do rio e o tempo não permitia avanços, nem recuos.

O espelho de água transformava sombras numa volúpia dançante, com jeitos de bailarina reflectindo cor, tempo, alma e desejo.

Tudo aquilo que a noite deseja e o rio faz.

As trevas embalam-nos num abraço aquecido, interrompido aqui e ali por respiração ofegante, seca, intensa, que trespassa o coração.

O rio gritou, as margens transbordaram e tamanha era a luz que a lua se envergonhou de tanta cor.

O teu corpo ressente-se, aflito.
Nem duas palavras, um ritmo anaeróbico e o espelho da vida na passagem fugaz do tempo.

A clarividência do teu riso de criança, as saudades do enrosco num abraço, o crepitar da tua alma e a boca adocicada.

Barco que se aproxima das margens do rio, num aconchego, e eu a sorver-te calor em gestos curtos.

Metro e meio por meio metro, vaporadas de nevoeiro que se levantam do rio, os teus lábios carmim, como sombras de …

I NEED

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Deixei o livro aberto no chão.
Letras ofegantes procuram saída. O sol poisou na vidraça e queimou-me pele enquanto o voo rasante do pombo anilhado repousa no quintal vizinho.

Deixei a boca no livro, página sete, terceiro capítulo.
A boca e o beijo, na esperança vã que me sintas os lábios e os percorras sedenta, lânguida.
O decote que te aperfeiçoa, e as mãos que me percorrem, como segredos imperfeitos.

A astúcia que transportas, o horizonte onde me levas e a linha que transpomos em tsunamis no areal.

A tua figura, uma sombra, dois pedaços, a tua voz, derrapagem interior, espaço que não é nosso, um modo desabrido, areia nos pés, e língua profícua entre becos e avenidas.

Lua cheia.

Adoras morar em mim, como um refluxo qualquer, espalhando-te como brasa paralisando-me movimentos.

És quimera, poema, anjo-da-guarda ou infortúnio. Flagelas-me espírito, ocupas-me espaço, cortas-me veias e serras-me consciências em pedaços indecifráveis de meias-palavras ou palavras meias.

Abates-me como …

SONHO

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Fecho a porta que teimosamente se mantém aberta e tapo a alma que razoavelmente se mantém arejada.

Vivo a angústia entre o cais e o navio, e a névoa que me cobre sentimentos.
Faço-me ao sono sem sucesso e, da tua boca, palavras vãs, válvulas entupidas.

Esta quietude.
Passos só os meus, um pássaro na janela e a chuva que escorrega preguiçosa na vidraça.

Por vezes, palavras; outras silêncios, murmúrios também. Gritos lancinantes que percorrem dor ou prazer, mas que não distingo.

Palavras iluminadas também, olhar e carícias, corpo e pele, música harmoniosa, o teu espaço vazio, choro e canto, solfejos teus que não hesito ouvir.

Não sei se durmo, se sonho apenas, ou se é somente um espaço vazio e não o entendo.

Por vezes, no meu interior, um fio de conversa chega de mansinho como quem pede licença para entrar.

As noites estão vazias e eu, só, quase perdido entre mim e algo mais, que não vislumbro, mas sei que sim…. ou não.

Tenho imagens.
Cem ideias e cem imagens.
Folhas arrefecidas nas …

FELIZ DIA DO PAI

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Feliz Dia do Pai

Sabes,
Ainda aqui estou, nesta esquina onde habitualmente esperava, invariavelmente com chuva ou sol, olhando apenas, analisando também, e claro, divertindo-me como qualquer miúdo daquela idade.

Descobrir-te na multidão apressada, os meus amigos distraídos e a minha atenção objectiva.

Era, nessa esquina entre a paragem do 78 e a frutaria, que prometias surpreender.
Várias vezes o fizeste, com a alegria do teu chegar na doçura do teu olhar.

Hoje, quando raras vezes lá passo, mantenho-me no mesmo local, de pé, saboreando o momento e indiferente aos gracejos das pedras graníticas, do adornar do algeroz e das coscuvilhices das empregadas, espreitando quem passa.

Feliz Dia do Pai.

As palavras saem-me esburacadas e sem nexo. Tenho frases sobrantes que não sei colocar.
Não verbalizo revoltas (tu jamais o deixarias), mas não tenho o pedaço que me falta, roubado a destempo do coração.

E sim, sei do tempo de razões, situações, e das pessoas, e das coisas, e dos anseios, mas …

SEI LÁ SE DÁ CERTO...!

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Balançavam-se entre choros e risos, abraços apertados, beijos sem fim, lágrimas lambidas, enquanto ela tremia e ele afoito, conduzia-lhe as mãos inquietas.

Damo-nos um tempo, segundo palavras dela. “Sei lá se dá certo…”, solavancos como um carro velho, e logo de seguida, uma voragem.

Humedece língua, afia atenção como a ponta de um lápis e segue vagarosa por caminhos
pendulares, enquanto ele franze sobrolho e inquieto, mexe os nós dos dedos ritmados.

Ela, absorta na pele dele, queria alcançar-lhe os segredos mais íntimos, e ele coração palpitante, desatando nós em rimas silábicas contra o céu-da-boca.

Envolveram-se em palavras e contos ancestrais aquecendo-se e esquecendo-se em cada uma, num ritmo íntimo e atrevido, como só ela sabia ser nesses momentos.

Pensaram em ideias selvagens, perscrutando o jardim fronteiro, mas estranha chuva invadia cada letra dos seus apelidos e cada folha de cada árvore em confissões nocturnas.
Era pele entranhada e poros abertos como corridas de carros e…

APENAS PERFIL

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E às tantas, três da tarde, almofadas penas de ganso, suspiro regular e longínquo, a satisfação na tua pele.

Enroscas-te de novo e pedes, num murmúrio, amor resgatado de fundo lamacento. Portas trancadas a três voltas, dizes tu.

Tentas resgatar amor naufragado em manobras de reanimação circense, como se um vestido rasgado pudesse ser reparado com linha, agulha e dedal.
Sentias-te bem no meu desconcerto, arremedos irónicos e afagos na pele com subtileza.

Fatiavas o tempo em segundos, como se esticasses mais a sofreguidão, explorando partes do globo, sem amplitude dos hemisférios, vulcões de desejo e mordeduras no lóbulo sem parcimónia.

E era apenas um perfil.

Nem magnetismo, nem excitação real, nem calor encorajador. Sabiam que o ritmo abrandou, a música não tocava e os acordes não estavam lá.

Tempos houve em que se comiam orelhas, bocas, lábios e sem travão, reluziam candeeiros sem lâmpadas como milagrosos acertos germinados.

Músicas em partituras mal medidas entre um ataque de fel…

O AMOR NESTA IDADE É FACIL

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Pálpebras afirmativas, olhar profundo, beijos roubados e escondidos nas costas da Mãe.
Vestidinhos com laçarotes, cabelo apanhado e cetim que cobria roupa domingueira.

Princesa aos nossos olhos, eternos apaixonados pelas meninas dos bombons e rebuçados de torrão.

E tínhamos distância a separar.

A distância que mediava o contorno do Pai, a distracção da Mãe e o ladrar do Roxo, o cão labrador irrequieto.

E como nos apetecia a gulodice de um mil-folhas com creme a rebentar-nos na cara.

O amor nesta idade é fácil.

Os braços pedem beliscões, as pernas uma corrida, os olhos e a língua ruborizam a pele, bolos de chantilly na Pastelaria Cunha... o resto nada mais que arrepios.

Neste amor, as gotas de água que alimentam as plantas são território de chuva permanente.

O cinema, tardes de Domingo no Terço, dois berlindes e uma gasosa e um painel de boas vindas com letreiro até ao pescoço.

O gancho do cabelo teimoso e o meu queixo cristalizado quando focava mais intensamente o fundo do olho a…

If You Forget Me !

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Falavam-se entre novelas, ritmos solares separados, crateras de indiferença e significados ocultos.


Nunca entenderam como mergulharam naquele buraco, ausentes de matéria, incapazes de um olhar, alheios à ausência de respostas, e perguntas inexistentes.

Eram parcos os verbos, inquietos os adjectivos, nem suspiros ou anseios. Era um estar apenas, como as cegonhas residentes, a curva dos olhos, o gaguejar nervoso.

Desagregados os toques, afastados os cheiros e a forretice do sentir, espalhavam ausências diurnas e nocturnas como uma não existência.

Mudanças físicas ou estéticas eram formalidades. Não sabiam do começo, não procuravam saber do silêncio.

Nem à mesa, no sofá ou no leito conjugal.

Por vezes silvos como granadas de mão, mísseis teleguiados em todas as direcções, um rosnar com bater de dentes apocalípticos.

Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos.

… e num desses intervalos a mão quente tingiu de cor o coração …

AMENO

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Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence.

Quando chegares
Não rejubiles nem despertes os vizinhos, traz os teus sonhos que são nossos, e as palavras inteiras preenchidas.

Adoça a boca dos miúdos, lambuza-os com beijos e palavras meigas, seca as lágrimas que te povoam e dá um toque de cor na pele.
Arranja-te corpo, unhas e olhos, os lábios escarlate, roupa aprumada e liberta a alma que tens em ti.

Quando vieres
Invade a casa de perfume, o som suave do teu andar, a textura da tua pele, as coordenadas trocadas, o Norte a Oeste e se faz chuva depressa o Sol.

Não tragas palavras sobrantes, porque o tempo é escasso entre um toque e um beijo, mas enumera os adjectivos e embala-me no teu olhar.

Quando chegares
Uso o meu humor fácil no teu cansaço, uma piada para o sorriso deles, e um garrote nas veias da tua alma para te sentir.

Se entenderes sair,
Vou aos saldos dos telemóveis sem carregamento, anilho mensagens em pombos …

Hoje o silêncio !

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Apetece-me só o silêncio.

As janelas embaciadas, água a escorrer no algeroz, a chuva na vidraça, relâmpagos na clarabóia.
Quadros que me olham como se conhecessem, fotos antigas sem cor, a minha preguiça enrolada, as rugas de mansinho, ondas no casco do barco no Tejo.

O Inverno melancólico modifica cores, mantendo o ar doce de ti.
Leio-te em contrapontos jocosos, arremedos irónicos, afectos sem terminação, mágoas entre parêntesis e a vida em reticências.

Apetece-me apenas silêncio.
Bocejos de fome que passam na rua, misérias que atravessam as malhas do cansaço e a indiferença nauseabunda de angústia dorida.

Mantemo-nos no lado oposto ao traço contínuo que segrega códigos sociais, escancaramos desgraças a golpes de sabre, baionetas afiadas e rajadas de discursos sem solução.

Já não sonho
Olho-te ao longe, esperança retardada, sombra de um barco sem quilha e a humidade que me arqueia as costas.

Vejo-te neste silêncio que inquieta, de gente em ritmos diferentes e os teus braços abertos …

QUERES QUE TE CONTE?

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Quero contar o que és.
O que é este mundo e esta gente.
Como notícias de nascimento ou óbito em primeira página.
Descrição pormenorizada, polissilábica, rebuscada, com excessos de sujeitos e predicados.

Passar a notícia a traço grosso, com independência de cores. Contar e não fazer ressalva, despachar a notícia em três penadas sem analogias.

Traduzir-te em simultâneo, fazer-te figura de estilo, uma frase completa…repleta.
Aligeirar a notícia floreando-te, cheirando-te pele, fazer-te um índice, post-scriptum.

Ter contigo uma muleta linguística, vaguear no teu corpo como Neruda na poesia, ou pintura de Dali.
Ter contigo partituras de solidão, acrescentos de suspiros na cova da orelha, olhar mareado e bússolas decompostas que te percorrem caminhos sem fim.

Que serias tu se despida das palavras que te compõem? Um processo simbiótico? Um defeito de ligação?
O teu sorriso juvenil que me descose sorrisos, o meu instinto na pele, o frio que cose a barriga, o rosto do oceano, voos rasante…

WINGS

Foi Farol no horizonte, navio de porte, potro selvagem, um quadradinho de marmelada, torrão de açúcar saboreado às colheres.
Quantas vezes oficial sem trato, emérito cavalheiro aprumado, erecto como um soldado em linha de formatura.

Deixou de verbalizar o rancor, o léxico reduziu e passou a reger-se mais por olhares sem matéria aparente.

Encontraram-se anos passados, numa banalidade descartável, catalogando-se mutuamente, palavras rematadas suavemente.

Nunca souberam quando começou o amor e terminou o hábito.
Contagiaram-se mutuamente como virose, arremessando pedacinhos de paixão.

Uns dias puxaram outros… outros contagiaram mais… a névoa entrou... o sol deixou de brilhar como antes.

Agora balança como flor sem caule, haste de uma árvore sem remissão, neurónios atabalhoados sem noção de alinho, de figura ou de sombra.

Habita um espaço dez por dez e uma memória três por dois, ataques de riso e de choro, raiva entrecortada por violência lunar, numa inusitada desgraça.

Tem um prazo po…