23 janeiro, 2011

QUERES QUE TE CONTE?






Quero contar o que és.
O que é este mundo e esta gente.
Como notícias de nascimento ou óbito em primeira página.
Descrição pormenorizada, polissilábica, rebuscada, com excessos de sujeitos e predicados.

Passar a notícia a traço grosso, com independência de cores. Contar e não fazer ressalva, despachar a notícia em três penadas sem analogias.

Traduzir-te em simultâneo, fazer-te figura de estilo, uma frase completa…repleta.
Aligeirar a notícia floreando-te, cheirando-te pele, fazer-te um índice, post-scriptum.

Ter contigo uma muleta linguística, vaguear no teu corpo como Neruda na poesia, ou pintura de Dali.
Ter contigo partituras de solidão, acrescentos de suspiros na cova da orelha, olhar mareado e bússolas decompostas que te percorrem caminhos sem fim.

Que serias tu se despida das palavras que te compõem? Um processo simbiótico? Um defeito de ligação?
O teu sorriso juvenil que me descose sorrisos, o meu instinto na pele, o frio que cose a barriga, o rosto do oceano, voos rasantes num instinto de liberdade.

Existes como quase ausência de intenção, e eu, antídoto de veneno, injectável, rebuscado nas fímbrias da tua pele, trazendo-te à vida.
E tu silêncios, palavras meias, sem exageros de afectos. Por vezes até distante, sem urgência dos Deuses, nem a minha.

Relembramos parágrafos, deslassamos abraços apertados de quem quer ter tudo naquele instante e não largar… jamais.
Soletrar beijos posteriores e sermos melhores do que alguma vez fomos.

Suspiros teus por sopros meus, parcas palavras, silêncios emparedados, relação brumosa.
Guardo-te na memória com cruzes para não me esquecer e bússolas para não te perder.

Desequilibraste na ponta dos dedos, teclas erradas e desconexas, sem intervalos nem horas mortas.
Contar-te dos arrepios deste mundo volátil, desta sociedade que nos fere corpo e alma, que nos suga sangue e nos enterra no corpo facas afiadas, e traz a tiracolo algozes com polegares ferrugentos de notícias de jornal.

Cinzas nos sorrisos dos jovens, silêncios apertados e uma falta de verdade e de afectos, que nos vai moendo e destruindo.

Queres mesmo que te conte deste mundo e desta gente?

07 janeiro, 2011

WINGS



Foi Farol no horizonte, navio de porte, potro selvagem, um quadradinho de marmelada, torrão de açúcar saboreado às colheres.
Quantas vezes oficial sem trato, emérito cavalheiro aprumado, erecto como um soldado em linha de formatura.

Deixou de verbalizar o rancor, o léxico reduziu e passou a reger-se mais por olhares sem matéria aparente.

Encontraram-se anos passados, numa banalidade descartável, catalogando-se mutuamente, palavras rematadas suavemente.

Nunca souberam quando começou o amor e terminou o hábito.
Contagiaram-se mutuamente como virose, arremessando pedacinhos de paixão.

Uns dias puxaram outros… outros contagiaram mais… a névoa entrou... o sol deixou de brilhar como antes.

Agora balança como flor sem caule, haste de uma árvore sem remissão, neurónios atabalhoados sem noção de alinho, de figura ou de sombra.

Habita um espaço dez por dez e uma memória três por dois, ataques de riso e de choro, raiva entrecortada por violência lunar, numa inusitada desgraça.

Tem um prazo por cumprir sem data certa, num tempo que expira, como as cortinas de nevoeiro num exorcismo de medo.

Arremessos de gente que o povoa e seca, resistências carcomidas, já sem memória e pouca capacidade.

As palavras, essas, saíam desconexas e desarrumadas, vazias e despovoadas.

De repente, um dia de solavancos.
Ela olhou-o, e com a ternura na ponta dos dedos acariciou-o uma e outra vez, até sucumbirem entre vértebras num abraço perfeito de aconchego.

Consta... que a meio do percurso, ali entre Neptuno e Plutão, na zona da Via Láctea, encontraram um invólucro com duas pétalas perfumadas e um sorriso a pairar.