QUERES QUE TE CONTE?






Quero contar o que és.
O que é este mundo e esta gente.
Como notícias de nascimento ou óbito em primeira página.
Descrição pormenorizada, polissilábica, rebuscada, com excessos de sujeitos e predicados.

Passar a notícia a traço grosso, com independência de cores. Contar e não fazer ressalva, despachar a notícia em três penadas sem analogias.

Traduzir-te em simultâneo, fazer-te figura de estilo, uma frase completa…repleta.
Aligeirar a notícia floreando-te, cheirando-te pele, fazer-te um índice, post-scriptum.

Ter contigo uma muleta linguística, vaguear no teu corpo como Neruda na poesia, ou pintura de Dali.
Ter contigo partituras de solidão, acrescentos de suspiros na cova da orelha, olhar mareado e bússolas decompostas que te percorrem caminhos sem fim.

Que serias tu se despida das palavras que te compõem? Um processo simbiótico? Um defeito de ligação?
O teu sorriso juvenil que me descose sorrisos, o meu instinto na pele, o frio que cose a barriga, o rosto do oceano, voos rasantes num instinto de liberdade.

Existes como quase ausência de intenção, e eu, antídoto de veneno, injectável, rebuscado nas fímbrias da tua pele, trazendo-te à vida.
E tu silêncios, palavras meias, sem exageros de afectos. Por vezes até distante, sem urgência dos Deuses, nem a minha.

Relembramos parágrafos, deslassamos abraços apertados de quem quer ter tudo naquele instante e não largar… jamais.
Soletrar beijos posteriores e sermos melhores do que alguma vez fomos.

Suspiros teus por sopros meus, parcas palavras, silêncios emparedados, relação brumosa.
Guardo-te na memória com cruzes para não me esquecer e bússolas para não te perder.

Desequilibraste na ponta dos dedos, teclas erradas e desconexas, sem intervalos nem horas mortas.
Contar-te dos arrepios deste mundo volátil, desta sociedade que nos fere corpo e alma, que nos suga sangue e nos enterra no corpo facas afiadas, e traz a tiracolo algozes com polegares ferrugentos de notícias de jornal.

Cinzas nos sorrisos dos jovens, silêncios apertados e uma falta de verdade e de afectos, que nos vai moendo e destruindo.

Queres mesmo que te conte deste mundo e desta gente?

Comentários

Lídia Borges disse…
Já contaste Pedro, e como contaste!

Um beijo
OutrosEncantos disse…
Sabes Pedro, eu queria não saber deste mundo e desta gente!
Beijo.
Ana disse…
Se fores tu a contar, quero sim, saber deste mundo e desta gente.
Há uma maneira especial de tocares os mundos, as gentes e as magias que neles habitam, ainda que por vezes desenhem realidades mais cruéis, mas que os torna sempre irresistivelmente …apetecíveis de ler!
Bj
Maria disse…
Tão bonito!!! Conta sempre e continua para sempre a contar...estarei aqui para te ler. Um bjinho muito especial.
Anónimo disse…
Post emocionante neste espaço, visões como aqui vemos demonstram valor a quem quer que analisar aqui .....
Realiza mair quantidade do teu web site, a todos os teus amigos.
Anónimo disse…
"Quero contar o que és"

E talvez descobrir "o que é este mundo e esta gente"

"Que serias tu despida das palavras que te compõem?

Talvez e apenas uma alma solidária!

Parabéns...

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