07 janeiro, 2011

WINGS



Foi Farol no horizonte, navio de porte, potro selvagem, um quadradinho de marmelada, torrão de açúcar saboreado às colheres.
Quantas vezes oficial sem trato, emérito cavalheiro aprumado, erecto como um soldado em linha de formatura.

Deixou de verbalizar o rancor, o léxico reduziu e passou a reger-se mais por olhares sem matéria aparente.

Encontraram-se anos passados, numa banalidade descartável, catalogando-se mutuamente, palavras rematadas suavemente.

Nunca souberam quando começou o amor e terminou o hábito.
Contagiaram-se mutuamente como virose, arremessando pedacinhos de paixão.

Uns dias puxaram outros… outros contagiaram mais… a névoa entrou... o sol deixou de brilhar como antes.

Agora balança como flor sem caule, haste de uma árvore sem remissão, neurónios atabalhoados sem noção de alinho, de figura ou de sombra.

Habita um espaço dez por dez e uma memória três por dois, ataques de riso e de choro, raiva entrecortada por violência lunar, numa inusitada desgraça.

Tem um prazo por cumprir sem data certa, num tempo que expira, como as cortinas de nevoeiro num exorcismo de medo.

Arremessos de gente que o povoa e seca, resistências carcomidas, já sem memória e pouca capacidade.

As palavras, essas, saíam desconexas e desarrumadas, vazias e despovoadas.

De repente, um dia de solavancos.
Ela olhou-o, e com a ternura na ponta dos dedos acariciou-o uma e outra vez, até sucumbirem entre vértebras num abraço perfeito de aconchego.

Consta... que a meio do percurso, ali entre Neptuno e Plutão, na zona da Via Láctea, encontraram um invólucro com duas pétalas perfumadas e um sorriso a pairar.

6 comentários:

Lídia Borges disse...

Enquanto os sorrisos aparecerem a pairar e tropeçarmos em invólucros com pétalas perfumadas, nada estará perdido.

Um beijo

ana disse...

Ao princípio...é tão doce!
Depois, sente-se o passar do tempo e torna-se nostálgico...
De repente, percebe-se que há sentimentos que a ausência não pode apagar, bastando um abraço perfeito de aconchego.
Por fim e resumindo...é tão lindo!
Bj

Anónimo disse...

"...Tem um prazo por cumprir sem data certa, num tempo que expira, como as cortinas de nevoeiro num exorcismo de medo...." Todos temos esse prazo numa validade escassa a meu ver, as cortinas de nevoeiro sinto-as quando o ar começa a doer,o exorcismo não passa de um medo apaziguante perante uma via láctea desconhecida, onde quem sabe, e quando o nosso prazo de validade sucumbir, lá mesmo encontraremos um invólucro...com dois torrões de açucar! Beijo...em forma de EstrelA que libertas abraçam dois os torrões de açucar...**

Maria disse...

Sempre fantástico Lindíssimo...Parabéns!
Beijinho grande

Kelvin disse...

E aí Pedro ! Te indiquei entre os 15 blogs com o selo do Projeto Creativité, ok? Depois passa lá no meu blog para pegá-lo. Abração

Anónimo disse...

"Ela olhou-o, e com a ternura na ponta dos dedos acariciou-o uma e outra vez, até sucumbirem entre vértebras num abraço perfeito de aconchego"

E ainda hoje, ela traz consigo a lembrança daquele aconchego maravilhoso, que nunca mais se repetiu...

Parabéns... por mais um texto aconchegante!