31 março, 2011

FELIZ DIA DO PAI



Feliz Dia do Pai

Sabes,
Ainda aqui estou, nesta esquina onde habitualmente esperava, invariavelmente com chuva ou sol, olhando apenas, analisando também, e claro, divertindo-me como qualquer miúdo daquela idade.

Descobrir-te na multidão apressada, os meus amigos distraídos e a minha atenção objectiva.

Era, nessa esquina entre a paragem do 78 e a frutaria, que prometias surpreender.
Várias vezes o fizeste, com a alegria do teu chegar na doçura do teu olhar.

Hoje, quando raras vezes lá passo, mantenho-me no mesmo local, de pé, saboreando o momento e indiferente aos gracejos das pedras graníticas, do adornar do algeroz e das coscuvilhices das empregadas, espreitando quem passa.

Feliz Dia do Pai.

As palavras saem-me esburacadas e sem nexo. Tenho frases sobrantes que não sei colocar.
Não verbalizo revoltas (tu jamais o deixarias), mas não tenho o pedaço que me falta, roubado a destempo do coração.

E sim, sei do tempo de razões, situações, e das pessoas, e das coisas, e dos anseios, mas não sei como ocupar este espaço em falta. Nunca o saberei.

E aqui, o silêncio nas paredes brancas. Algumas pessoas, viaturas com apitos estridentes, muita pobreza na pele, muita tristeza no olhar.
Os tempos pioraram sem dúvida. Sofre-se.
Não só eu, mas são muitos os que sofrem.

Os prédios que me albergam poiso são os mais antigos, três compostos em fila, uma montra, plantas mirradas, arestas limadas de tanto encosto e a espera que se prolonga como um desafio, até ao momento do arquivo com código de barras.

E era o teu ar de nobreza, a tua verticalidade que eu procurava.

Feliz Dia do Pai.

Percorro num silêncio preguiçoso as fotos e olho-me pelo vidro das janelas.
Apetece-me chorar e sentar no chão, e embalar-me nas rugas dos cantos dos olhos, num prenúncio de acalmia.

E nunca adormeço sem te olhar, a minha admiração na tua escrita, os teus títulos saborosos em papel de jornal, a tua família inteira num braço e num abraço que apertavas juntinho, e a mansidão dos dias que correm e eu desfeito em mil pedaços, centenas de nós por desatar e pedacinhos de luz na noite que quero só minha.

E era a esquina do clube improvisado, riscos de giz, bola sempre no ar, e eu presidia ao grupo dos putos acabados de jogar futebol na Capela Monte Belo, horas antes do banquete medieval e da guerra que se adivinhava amanhã, em brincadeiras de rua.

Ainda hoje, te espero ali, na esquina, enquanto o teu olhar me adocicava final de dia e a tua mão acenava para a minha paz de espírito.

E desenho letras de emoções, como a tua escrita perfeita, com cheiros, cores, ou apenas um olhar.

Tento ser mais hoje, adornando letras, para o teu orgulho encostado em mim, e sorrisos que se rasgam para partilharmos o mundo.

Quero estar assim ainda preso em ti, resolvidos os conflitos que teimam em pairar dentro dos nossos olhos, mas o abraço do desejo de um Feliz Dia do Pai.

E a vida lá segue, já quase sem trilhos, sem estrada infinita e sem luz na história dos afectos, num espaço que não cabe no tempo

Um dia encontramo-nos por aí, talvez com sons de violino, numa inusitada via láctea azul.

Até lá, Feliz Dia do Pai

30 março, 2011

SEI LÁ SE DÁ CERTO...!



Balançavam-se entre choros e risos, abraços apertados, beijos sem fim, lágrimas lambidas, enquanto ela tremia e ele afoito, conduzia-lhe as mãos inquietas.

Damo-nos um tempo, segundo palavras dela. “Sei lá se dá certo…”, solavancos como um carro velho, e logo de seguida, uma voragem.

Humedece língua, afia atenção como a ponta de um lápis e segue vagarosa por caminhos
pendulares, enquanto ele franze sobrolho e inquieto, mexe os nós dos dedos ritmados.

Ela, absorta na pele dele, queria alcançar-lhe os segredos mais íntimos, e ele coração palpitante, desatando nós em rimas silábicas contra o céu-da-boca.

Envolveram-se em palavras e contos ancestrais aquecendo-se e esquecendo-se em cada uma, num ritmo íntimo e atrevido, como só ela sabia ser nesses momentos.

Pensaram em ideias selvagens, perscrutando o jardim fronteiro, mas estranha chuva invadia cada letra dos seus apelidos e cada folha de cada árvore em confissões nocturnas.
Era pele entranhada e poros abertos como corridas de carros em asfalto.

Unhas espetadas em carne pura, aconchego de pernas, curvas pintadas e aprumadas em conversa de ocasião, olhos cristais líquidos embaciados no céu, que tocava quando lhe arfava baixinho numa reticência, quase… ponto final.

Espalhava-se nas ravinas das costas musculadas em devoção cega, aguçada por entre centros nervosos, expressão de gozo triunfante.

Fechou os olhos, desbravou sobras na ponta da língua, engoliu palavras uma a uma num suspiro ao contrário, com o ar nos pulmões e corpo mastigado, devorado, sem travo amargo, num gozo de indigestão.

E foi nessas formas de violino sem cordas que se esqueceu do alcance do ouvido, cobrindo-lhe corpo e mente, trinados de gritos humedecidos com frequência monocórdica.

“Sei lá se dá certo…”, e agarrava-o sôfrega, percorrendo corpo em volteio bailarino, locais de inigualável alcance, trepidante para a antiguidade do prédio e os afectos que se revezavam entre frases no espelho, baton esbatido em partes íntimas, e o café da manhã como fogo de artifício.

Paredes meias com contornos sem parede. Fecharam todas as portas a cadeado, taparam frinchas em janelas despidas, trancaram-se em comum para que o amor não fugisse, esconjurando ameaças, patas de coelho, sal refinado e alho sem casca…. Não vá o diabo tecê-las.

28 março, 2011

APENAS PERFIL



E às tantas, três da tarde, almofadas penas de ganso, suspiro regular e longínquo, a satisfação na tua pele.

Enroscas-te de novo e pedes, num murmúrio, amor resgatado de fundo lamacento. Portas trancadas a três voltas, dizes tu.

Tentas resgatar amor naufragado em manobras de reanimação circense, como se um vestido rasgado pudesse ser reparado com linha, agulha e dedal.
Sentias-te bem no meu desconcerto, arremedos irónicos e afagos na pele com subtileza.

Fatiavas o tempo em segundos, como se esticasses mais a sofreguidão, explorando partes do globo, sem amplitude dos hemisférios, vulcões de desejo e mordeduras no lóbulo sem parcimónia.

E era apenas um perfil.

Nem magnetismo, nem excitação real, nem calor encorajador. Sabiam que o ritmo abrandou, a música não tocava e os acordes não estavam lá.

Tempos houve em que se comiam orelhas, bocas, lábios e sem travão, reluziam candeeiros sem lâmpadas como milagrosos acertos germinados.

Músicas em partituras mal medidas entre um ataque de felino e um motor partido.

Queriam-se quase-amigos, quase-amantes, quase tudo e quase nada, casos sem caso, bandeira por desfraldar e um desinteresse sem sobrevivência.

Ele naufrago sem pátria, hino ou porta-estandarte, ela bailarina sem sapatos de pontas.

Tentaram novas sinaléticas, encontros em sms, amiúde um desejo, raros os reencontros, beijos pela calada da noite, metaforicamente enviados com “smiley´s” ruidosos.

Ele não lhe escrevia o amor, ela não o lia.

E às tantas, três da tarde de novo, almofadas dispersas, varandas abertas, uma cama por desfazer, nevoeiro que estala, cacilheiros da vida, pregões de varina, rédea-solta e o meu corpo sem porto de abrigo, caldo verde ou sardinha assada.

Despiu-se dessa roupagem, atirou o interior boca fora, cestos de vime na cozinha, fibras sintéticas no sanitário, duas fotos em algodão, uma camisa lavada, colarinho aprumado e o cão pela trela.

Fechou a conta no banco, não se deu mais crédito nem tempo e vagueou trota mundos por vagas gigantescas de rancores, lembranças, limpando a sal refinado essa sombra na alma.

Esqueleto arrumado, maxilar levantado e peito ardendo de novo.

Despacha o livro meio escrito, centrifugou palavras, um rabisco e três vírgulas, duas notas e uma ressalva.

Deu-se emissão no título “ Já foi tempo meu amor…”, sucesso literário em escaparate sem dor traduzida, excessos ou notícia a traço grosso.

Foi este o seu princípio, analogia simples e um fim sem frase completa, unívoco.

27 março, 2011

O AMOR NESTA IDADE É FACIL





Pálpebras afirmativas, olhar profundo, beijos roubados e escondidos nas costas da Mãe.
Vestidinhos com laçarotes, cabelo apanhado e cetim que cobria roupa domingueira.

Princesa aos nossos olhos, eternos apaixonados pelas meninas dos bombons e rebuçados de torrão.

E tínhamos distância a separar.

A distância que mediava o contorno do Pai, a distracção da Mãe e o ladrar do Roxo, o cão labrador irrequieto.

E como nos apetecia a gulodice de um mil-folhas com creme a rebentar-nos na cara.

O amor nesta idade é fácil.

Os braços pedem beliscões, as pernas uma corrida, os olhos e a língua ruborizam a pele, bolos de chantilly na Pastelaria Cunha... o resto nada mais que arrepios.

Neste amor, as gotas de água que alimentam as plantas são território de chuva permanente.

O cinema, tardes de Domingo no Terço, dois berlindes e uma gasosa e um painel de boas vindas com letreiro até ao pescoço.

O gancho do cabelo teimoso e o meu queixo cristalizado quando focava mais intensamente o fundo do olho azul.

Risos como fogo de artificio e duas espécies antropologicamente estudadas num desacerto de pescoço e olhos como galinhas tontas em dia de Folar de Páscoa.

O algodão doce na Feira de Sta Clara do Bonfim cirandava entre todos, enquanto o carrossel desafiava clientes com o vendedor de tecidos, atoalhados, facas e alguidares.

E era a mímica do silêncio

O beijo do esquecimento, na passagem secreta entre escolas.

E costas com costas, simetrias perfeitas na altura e no conforto, transpirados em poros honestos e sadios, simulando respiração acertada na inquietude da mão dada.

E era esta ansiedade, cortada pela deslocação de ar que acalmava o zumbido do ouvido dela e o bater do coração.

Cresceram sem abafos de dor, desapertando os nós milimetricamente atados com a precisão de comandante de navio

A acostagem ao cais, perfeita.

Cada um no seu trilho. Línguas secas sem temor, maldade ou ofensa.

Um abafo de dor, um mil-folhas encharcado na cara, o algodão doce que resvala e a Sta Clara costas com costas no Café Piolho.

Viram-se anos depois em terramotos de riso num acaso de toques de pernas, bacias, mãos e cabelos, na discoteca inaugurada.

Alvorada em tom sépia, diálogos secos pelo canto da boca e ruídos de emoções à flor da pele.

Deram-se mãos de açúcar queimado, em lastro de desculpas entre fiapos de luz-sim e luz-não, um estômago a três voltas, sapatos de salto alto e almas embebidas em limão, xarope e algodão doce.

Perfume extrapolado, pescoço agitado, cadelas em volta de focinho alçado e um adeus telepático entre leituras de um olhar que não se conhece, o sorriso desfeito e olhar azul tingido de vida madura.

Saiu espalmado na alma e coração desconcertado, feliz contudo, matraqueado no espírito e reluzindo como salva vidas no naufrágio.

Virou a folha da vida nos confins das veias e atirou o primeiro amor de feições esquecidas ao vento tempestuoso, com milímetros de pele a arder calculadamente macerada e demarcada.

Fechou a porta pelo ouvido esquerdo, desmembrou a saudade e fechou chaveta no fim da frase.

24 março, 2011

If You Forget Me !




Falavam-se entre novelas, ritmos solares separados, crateras de indiferença e significados ocultos.


Nunca entenderam como mergulharam naquele buraco, ausentes de matéria, incapazes de um olhar, alheios à ausência de respostas, e perguntas inexistentes.

Eram parcos os verbos, inquietos os adjectivos, nem suspiros ou anseios. Era um estar apenas, como as cegonhas residentes, a curva dos olhos, o gaguejar nervoso.

Desagregados os toques, afastados os cheiros e a forretice do sentir, espalhavam ausências diurnas e nocturnas como uma não existência.

Mudanças físicas ou estéticas eram formalidades. Não sabiam do começo, não procuravam saber do silêncio.

Nem à mesa, no sofá ou no leito conjugal.

Por vezes silvos como granadas de mão, mísseis teleguiados em todas as direcções, um rosnar com bater de dentes apocalípticos.

Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos.

… e num desses intervalos a mão quente tingiu de cor o coração do outro. Mais chegados e aconchegados, risos soltos, como se um condenado acabado de libertar, um só programa, toques serenos, ferro a alimentar o sangue, e musica pairando nos olhares antes murchos, agora inquietos brilhando como um bêbado no último copo.

E do diálogo nasce luz e do amor pesado um contrapeso bem medido, como equilíbrio de futebolista na ligeireza do remate frontal para o golo.

Então, como Romanos no banho celestial libertaram-se do peso da mágoa e mergulharam horas e horas, embaciando espelhos, dançando sem máscaras, caídas momentos antes, mas em solfejos de abraços e apitos de beijos em numerosas negociações recíprocas.

Diz-se ainda hoje, que o sofá envelheceu, e no lugar dele molduras felizes, fotos de família, flores e musica e mãos apalpando cheiros e formas.

21 março, 2011

AMENO




Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence.

Quando chegares
Não rejubiles nem despertes os vizinhos, traz os teus sonhos que são nossos, e as palavras inteiras preenchidas.

Adoça a boca dos miúdos, lambuza-os com beijos e palavras meigas, seca as lágrimas que te povoam e dá um toque de cor na pele.
Arranja-te corpo, unhas e olhos, os lábios escarlate, roupa aprumada e liberta a alma que tens em ti.

Quando vieres
Invade a casa de perfume, o som suave do teu andar, a textura da tua pele, as coordenadas trocadas, o Norte a Oeste e se faz chuva depressa o Sol.

Não tragas palavras sobrantes, porque o tempo é escasso entre um toque e um beijo, mas enumera os adjectivos e embala-me no teu olhar.

Quando chegares
Uso o meu humor fácil no teu cansaço, uma piada para o sorriso deles, e um garrote nas veias da tua alma para te sentir.

Se entenderes sair,
Vou aos saldos dos telemóveis sem carregamento, anilho mensagens em pombos passantes, uso o telégrafo, o fax ou pedacinhos de papel.

Se nada disto a ti chegar,
Envio-te garrafa meio-cheia com dizeres romanceados no mar solto e inquieto, gargalo ao alto em rolha portuguesa, energia positiva a deambular, oceanos e marés contrafeitos como mira telescópica directa ao coração.

Aí,
Dobradas esquinas e estradas, os mares e o Bojador e inertes as Caravelas, chegar-te-á de mansinho, silêncio prometido, como impulso retraído num beijo, palavras rotas e amachucadas.

Estaremos perto da memória da fibra sintética, o doce e suave perfume, a tessitura do beijo, o toque secreto a meio da noite, o chão frio da cozinha, o candelabro trepidante, a varanda subtil, o elevador da casa alta, o nosso carro dois por um, e o teu interior remexido.

Se tu ou o acaso vierem,
De sorriso largo e pele macia, formas de violoncelo e paixão ardente, encosta-te a mim, como lombada de livro por ler e marca-me a tua página por camadas sobrepostas de mil-folhas, tal a sede de nos lermos.

01 março, 2011

Hoje o silêncio !



Apetece-me só o silêncio.

As janelas embaciadas, água a escorrer no algeroz, a chuva na vidraça, relâmpagos na clarabóia.
Quadros que me olham como se conhecessem, fotos antigas sem cor, a minha preguiça enrolada, as rugas de mansinho, ondas no casco do barco no Tejo.

O Inverno melancólico modifica cores, mantendo o ar doce de ti.
Leio-te em contrapontos jocosos, arremedos irónicos, afectos sem terminação, mágoas entre parêntesis e a vida em reticências.

Apetece-me apenas silêncio.
Bocejos de fome que passam na rua, misérias que atravessam as malhas do cansaço e a indiferença nauseabunda de angústia dorida.

Mantemo-nos no lado oposto ao traço contínuo que segrega códigos sociais, escancaramos desgraças a golpes de sabre, baionetas afiadas e rajadas de discursos sem solução.

Já não sonho
Olho-te ao longe, esperança retardada, sombra de um barco sem quilha e a humidade que me arqueia as costas.

Vejo-te neste silêncio que inquieta, de gente em ritmos diferentes e os teus braços abertos na minha direcção.

Tenho dias de areias e conchas, sem luz no horizonte, e gaivotas que debicam os restos, obedecendo ao gargalhar do Mundo.

Reparte-se o tempo em ritmos solares num diálogo de significados ocultos e a água que agita o algeroz, as bátegas na proa a minha janela iluminada pela chuva, desenhando bailarinas em pontas, trapezistas sem arame e as primeiras andorinhas nos beirais.

Um rasgo de calor, o teu olhar e milhares de conversas asas fora.

Hoje, só quero o silêncio!