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A mostrar mensagens de Março, 2011

FELIZ DIA DO PAI

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Feliz Dia do Pai

Sabes,
Ainda aqui estou, nesta esquina onde habitualmente esperava, invariavelmente com chuva ou sol, olhando apenas, analisando também, e claro, divertindo-me como qualquer miúdo daquela idade.

Descobrir-te na multidão apressada, os meus amigos distraídos e a minha atenção objectiva.

Era, nessa esquina entre a paragem do 78 e a frutaria, que prometias surpreender.
Várias vezes o fizeste, com a alegria do teu chegar na doçura do teu olhar.

Hoje, quando raras vezes lá passo, mantenho-me no mesmo local, de pé, saboreando o momento e indiferente aos gracejos das pedras graníticas, do adornar do algeroz e das coscuvilhices das empregadas, espreitando quem passa.

Feliz Dia do Pai.

As palavras saem-me esburacadas e sem nexo. Tenho frases sobrantes que não sei colocar.
Não verbalizo revoltas (tu jamais o deixarias), mas não tenho o pedaço que me falta, roubado a destempo do coração.

E sim, sei do tempo de razões, situações, e das pessoas, e das coisas, e dos anseios, mas …

SEI LÁ SE DÁ CERTO...!

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Balançavam-se entre choros e risos, abraços apertados, beijos sem fim, lágrimas lambidas, enquanto ela tremia e ele afoito, conduzia-lhe as mãos inquietas.

Damo-nos um tempo, segundo palavras dela. “Sei lá se dá certo…”, solavancos como um carro velho, e logo de seguida, uma voragem.

Humedece língua, afia atenção como a ponta de um lápis e segue vagarosa por caminhos
pendulares, enquanto ele franze sobrolho e inquieto, mexe os nós dos dedos ritmados.

Ela, absorta na pele dele, queria alcançar-lhe os segredos mais íntimos, e ele coração palpitante, desatando nós em rimas silábicas contra o céu-da-boca.

Envolveram-se em palavras e contos ancestrais aquecendo-se e esquecendo-se em cada uma, num ritmo íntimo e atrevido, como só ela sabia ser nesses momentos.

Pensaram em ideias selvagens, perscrutando o jardim fronteiro, mas estranha chuva invadia cada letra dos seus apelidos e cada folha de cada árvore em confissões nocturnas.
Era pele entranhada e poros abertos como corridas de carros e…

APENAS PERFIL

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E às tantas, três da tarde, almofadas penas de ganso, suspiro regular e longínquo, a satisfação na tua pele.

Enroscas-te de novo e pedes, num murmúrio, amor resgatado de fundo lamacento. Portas trancadas a três voltas, dizes tu.

Tentas resgatar amor naufragado em manobras de reanimação circense, como se um vestido rasgado pudesse ser reparado com linha, agulha e dedal.
Sentias-te bem no meu desconcerto, arremedos irónicos e afagos na pele com subtileza.

Fatiavas o tempo em segundos, como se esticasses mais a sofreguidão, explorando partes do globo, sem amplitude dos hemisférios, vulcões de desejo e mordeduras no lóbulo sem parcimónia.

E era apenas um perfil.

Nem magnetismo, nem excitação real, nem calor encorajador. Sabiam que o ritmo abrandou, a música não tocava e os acordes não estavam lá.

Tempos houve em que se comiam orelhas, bocas, lábios e sem travão, reluziam candeeiros sem lâmpadas como milagrosos acertos germinados.

Músicas em partituras mal medidas entre um ataque de fel…

O AMOR NESTA IDADE É FACIL

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Pálpebras afirmativas, olhar profundo, beijos roubados e escondidos nas costas da Mãe.
Vestidinhos com laçarotes, cabelo apanhado e cetim que cobria roupa domingueira.

Princesa aos nossos olhos, eternos apaixonados pelas meninas dos bombons e rebuçados de torrão.

E tínhamos distância a separar.

A distância que mediava o contorno do Pai, a distracção da Mãe e o ladrar do Roxo, o cão labrador irrequieto.

E como nos apetecia a gulodice de um mil-folhas com creme a rebentar-nos na cara.

O amor nesta idade é fácil.

Os braços pedem beliscões, as pernas uma corrida, os olhos e a língua ruborizam a pele, bolos de chantilly na Pastelaria Cunha... o resto nada mais que arrepios.

Neste amor, as gotas de água que alimentam as plantas são território de chuva permanente.

O cinema, tardes de Domingo no Terço, dois berlindes e uma gasosa e um painel de boas vindas com letreiro até ao pescoço.

O gancho do cabelo teimoso e o meu queixo cristalizado quando focava mais intensamente o fundo do olho a…

If You Forget Me !

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Falavam-se entre novelas, ritmos solares separados, crateras de indiferença e significados ocultos.


Nunca entenderam como mergulharam naquele buraco, ausentes de matéria, incapazes de um olhar, alheios à ausência de respostas, e perguntas inexistentes.

Eram parcos os verbos, inquietos os adjectivos, nem suspiros ou anseios. Era um estar apenas, como as cegonhas residentes, a curva dos olhos, o gaguejar nervoso.

Desagregados os toques, afastados os cheiros e a forretice do sentir, espalhavam ausências diurnas e nocturnas como uma não existência.

Mudanças físicas ou estéticas eram formalidades. Não sabiam do começo, não procuravam saber do silêncio.

Nem à mesa, no sofá ou no leito conjugal.

Por vezes silvos como granadas de mão, mísseis teleguiados em todas as direcções, um rosnar com bater de dentes apocalípticos.

Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos.

… e num desses intervalos a mão quente tingiu de cor o coração …

AMENO

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Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence.

Quando chegares
Não rejubiles nem despertes os vizinhos, traz os teus sonhos que são nossos, e as palavras inteiras preenchidas.

Adoça a boca dos miúdos, lambuza-os com beijos e palavras meigas, seca as lágrimas que te povoam e dá um toque de cor na pele.
Arranja-te corpo, unhas e olhos, os lábios escarlate, roupa aprumada e liberta a alma que tens em ti.

Quando vieres
Invade a casa de perfume, o som suave do teu andar, a textura da tua pele, as coordenadas trocadas, o Norte a Oeste e se faz chuva depressa o Sol.

Não tragas palavras sobrantes, porque o tempo é escasso entre um toque e um beijo, mas enumera os adjectivos e embala-me no teu olhar.

Quando chegares
Uso o meu humor fácil no teu cansaço, uma piada para o sorriso deles, e um garrote nas veias da tua alma para te sentir.

Se entenderes sair,
Vou aos saldos dos telemóveis sem carregamento, anilho mensagens em pombos …

Hoje o silêncio !

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Apetece-me só o silêncio.

As janelas embaciadas, água a escorrer no algeroz, a chuva na vidraça, relâmpagos na clarabóia.
Quadros que me olham como se conhecessem, fotos antigas sem cor, a minha preguiça enrolada, as rugas de mansinho, ondas no casco do barco no Tejo.

O Inverno melancólico modifica cores, mantendo o ar doce de ti.
Leio-te em contrapontos jocosos, arremedos irónicos, afectos sem terminação, mágoas entre parêntesis e a vida em reticências.

Apetece-me apenas silêncio.
Bocejos de fome que passam na rua, misérias que atravessam as malhas do cansaço e a indiferença nauseabunda de angústia dorida.

Mantemo-nos no lado oposto ao traço contínuo que segrega códigos sociais, escancaramos desgraças a golpes de sabre, baionetas afiadas e rajadas de discursos sem solução.

Já não sonho
Olho-te ao longe, esperança retardada, sombra de um barco sem quilha e a humidade que me arqueia as costas.

Vejo-te neste silêncio que inquieta, de gente em ritmos diferentes e os teus braços abertos …