21 março, 2011

AMENO




Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence.

Quando chegares
Não rejubiles nem despertes os vizinhos, traz os teus sonhos que são nossos, e as palavras inteiras preenchidas.

Adoça a boca dos miúdos, lambuza-os com beijos e palavras meigas, seca as lágrimas que te povoam e dá um toque de cor na pele.
Arranja-te corpo, unhas e olhos, os lábios escarlate, roupa aprumada e liberta a alma que tens em ti.

Quando vieres
Invade a casa de perfume, o som suave do teu andar, a textura da tua pele, as coordenadas trocadas, o Norte a Oeste e se faz chuva depressa o Sol.

Não tragas palavras sobrantes, porque o tempo é escasso entre um toque e um beijo, mas enumera os adjectivos e embala-me no teu olhar.

Quando chegares
Uso o meu humor fácil no teu cansaço, uma piada para o sorriso deles, e um garrote nas veias da tua alma para te sentir.

Se entenderes sair,
Vou aos saldos dos telemóveis sem carregamento, anilho mensagens em pombos passantes, uso o telégrafo, o fax ou pedacinhos de papel.

Se nada disto a ti chegar,
Envio-te garrafa meio-cheia com dizeres romanceados no mar solto e inquieto, gargalo ao alto em rolha portuguesa, energia positiva a deambular, oceanos e marés contrafeitos como mira telescópica directa ao coração.

Aí,
Dobradas esquinas e estradas, os mares e o Bojador e inertes as Caravelas, chegar-te-á de mansinho, silêncio prometido, como impulso retraído num beijo, palavras rotas e amachucadas.

Estaremos perto da memória da fibra sintética, o doce e suave perfume, a tessitura do beijo, o toque secreto a meio da noite, o chão frio da cozinha, o candelabro trepidante, a varanda subtil, o elevador da casa alta, o nosso carro dois por um, e o teu interior remexido.

Se tu ou o acaso vierem,
De sorriso largo e pele macia, formas de violoncelo e paixão ardente, encosta-te a mim, como lombada de livro por ler e marca-me a tua página por camadas sobrepostas de mil-folhas, tal a sede de nos lermos.

4 comentários:

Lídia Borges disse...

Arquitectura de um desejo inscrito numa tela de intenções, desejos.
Há uma matriz que define bem o teu modo de escrever. Prende-se com uma espécie de doce/amargo que sempre deixa no leitor um sabor a pouco.

Um beijo

ana disse...

Neste dia mundial da poesia, que belo contributo...
Há ternura, carinho, beleza, sensibilidade e emoção quando as tuas palavras se encontram e escreves desta forma tão envolvente.
Muito bonito!
Bj

luz efemera disse...

SIMPLESMENTE...SOBERBO!!!!!!

Anónimo disse...

"Quando vieres
Traz a tua energia, os gestos simples e o afago,
a voz meiga e suave e o toque que te pertence."

E eu estarei à tua espera...

Esta sua forma de escrever, encanta-nos e leva-nos a querer mais.

Parabéns! Continue.