28 março, 2011

APENAS PERFIL



E às tantas, três da tarde, almofadas penas de ganso, suspiro regular e longínquo, a satisfação na tua pele.

Enroscas-te de novo e pedes, num murmúrio, amor resgatado de fundo lamacento. Portas trancadas a três voltas, dizes tu.

Tentas resgatar amor naufragado em manobras de reanimação circense, como se um vestido rasgado pudesse ser reparado com linha, agulha e dedal.
Sentias-te bem no meu desconcerto, arremedos irónicos e afagos na pele com subtileza.

Fatiavas o tempo em segundos, como se esticasses mais a sofreguidão, explorando partes do globo, sem amplitude dos hemisférios, vulcões de desejo e mordeduras no lóbulo sem parcimónia.

E era apenas um perfil.

Nem magnetismo, nem excitação real, nem calor encorajador. Sabiam que o ritmo abrandou, a música não tocava e os acordes não estavam lá.

Tempos houve em que se comiam orelhas, bocas, lábios e sem travão, reluziam candeeiros sem lâmpadas como milagrosos acertos germinados.

Músicas em partituras mal medidas entre um ataque de felino e um motor partido.

Queriam-se quase-amigos, quase-amantes, quase tudo e quase nada, casos sem caso, bandeira por desfraldar e um desinteresse sem sobrevivência.

Ele naufrago sem pátria, hino ou porta-estandarte, ela bailarina sem sapatos de pontas.

Tentaram novas sinaléticas, encontros em sms, amiúde um desejo, raros os reencontros, beijos pela calada da noite, metaforicamente enviados com “smiley´s” ruidosos.

Ele não lhe escrevia o amor, ela não o lia.

E às tantas, três da tarde de novo, almofadas dispersas, varandas abertas, uma cama por desfazer, nevoeiro que estala, cacilheiros da vida, pregões de varina, rédea-solta e o meu corpo sem porto de abrigo, caldo verde ou sardinha assada.

Despiu-se dessa roupagem, atirou o interior boca fora, cestos de vime na cozinha, fibras sintéticas no sanitário, duas fotos em algodão, uma camisa lavada, colarinho aprumado e o cão pela trela.

Fechou a conta no banco, não se deu mais crédito nem tempo e vagueou trota mundos por vagas gigantescas de rancores, lembranças, limpando a sal refinado essa sombra na alma.

Esqueleto arrumado, maxilar levantado e peito ardendo de novo.

Despacha o livro meio escrito, centrifugou palavras, um rabisco e três vírgulas, duas notas e uma ressalva.

Deu-se emissão no título “ Já foi tempo meu amor…”, sucesso literário em escaparate sem dor traduzida, excessos ou notícia a traço grosso.

Foi este o seu princípio, analogia simples e um fim sem frase completa, unívoco.

3 comentários:

ana disse...

Continuas a pincelar com as palavras quadros de nostalgia, repletos de doucura e de sensibilidade.
"Ele não lhe escrevia o amor, ela não o lia."Talvez por isso, apenas se desenhou um perfil...
Bj

Emoções disse...

Lindo! Voltarei sempre.

So os poetas e os cegos podem ver no escuro.

Fica na paz.

Anónimo disse...

"Ele naufrago sem pátria, hino ou porta-estandarte, ela bailarina sem sapatos de pontas". - que só pode dançar com os pés bem assentes...sem quaisquer rodopios.

Brilhante.