24 março, 2011

If You Forget Me !




Falavam-se entre novelas, ritmos solares separados, crateras de indiferença e significados ocultos.


Nunca entenderam como mergulharam naquele buraco, ausentes de matéria, incapazes de um olhar, alheios à ausência de respostas, e perguntas inexistentes.

Eram parcos os verbos, inquietos os adjectivos, nem suspiros ou anseios. Era um estar apenas, como as cegonhas residentes, a curva dos olhos, o gaguejar nervoso.

Desagregados os toques, afastados os cheiros e a forretice do sentir, espalhavam ausências diurnas e nocturnas como uma não existência.

Mudanças físicas ou estéticas eram formalidades. Não sabiam do começo, não procuravam saber do silêncio.

Nem à mesa, no sofá ou no leito conjugal.

Por vezes silvos como granadas de mão, mísseis teleguiados em todas as direcções, um rosnar com bater de dentes apocalípticos.

Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos.

… e num desses intervalos a mão quente tingiu de cor o coração do outro. Mais chegados e aconchegados, risos soltos, como se um condenado acabado de libertar, um só programa, toques serenos, ferro a alimentar o sangue, e musica pairando nos olhares antes murchos, agora inquietos brilhando como um bêbado no último copo.

E do diálogo nasce luz e do amor pesado um contrapeso bem medido, como equilíbrio de futebolista na ligeireza do remate frontal para o golo.

Então, como Romanos no banho celestial libertaram-se do peso da mágoa e mergulharam horas e horas, embaciando espelhos, dançando sem máscaras, caídas momentos antes, mas em solfejos de abraços e apitos de beijos em numerosas negociações recíprocas.

Diz-se ainda hoje, que o sofá envelheceu, e no lugar dele molduras felizes, fotos de família, flores e musica e mãos apalpando cheiros e formas.

1 comentário:

Lídia Borges disse...

"Emprestavam-se tempo cobrando-se no imediato, envolvendo-se em surdez recíproca e trocas de olhares amorfos."

Eu também tenho dificuldades em perceber como podem ser tão castradoras as rotinas e como nós, conscientes delas, numa espécie de vingança inconsciente sobre nós próprios nos permitimos a veleidade de deixar que se instalem e permaneçam.
Aqui e ali um oásis... Gotas, com um oceano à mão.

Um beijo