O AMOR NESTA IDADE É FACIL





Pálpebras afirmativas, olhar profundo, beijos roubados e escondidos nas costas da Mãe.
Vestidinhos com laçarotes, cabelo apanhado e cetim que cobria roupa domingueira.

Princesa aos nossos olhos, eternos apaixonados pelas meninas dos bombons e rebuçados de torrão.

E tínhamos distância a separar.

A distância que mediava o contorno do Pai, a distracção da Mãe e o ladrar do Roxo, o cão labrador irrequieto.

E como nos apetecia a gulodice de um mil-folhas com creme a rebentar-nos na cara.

O amor nesta idade é fácil.

Os braços pedem beliscões, as pernas uma corrida, os olhos e a língua ruborizam a pele, bolos de chantilly na Pastelaria Cunha... o resto nada mais que arrepios.

Neste amor, as gotas de água que alimentam as plantas são território de chuva permanente.

O cinema, tardes de Domingo no Terço, dois berlindes e uma gasosa e um painel de boas vindas com letreiro até ao pescoço.

O gancho do cabelo teimoso e o meu queixo cristalizado quando focava mais intensamente o fundo do olho azul.

Risos como fogo de artificio e duas espécies antropologicamente estudadas num desacerto de pescoço e olhos como galinhas tontas em dia de Folar de Páscoa.

O algodão doce na Feira de Sta Clara do Bonfim cirandava entre todos, enquanto o carrossel desafiava clientes com o vendedor de tecidos, atoalhados, facas e alguidares.

E era a mímica do silêncio

O beijo do esquecimento, na passagem secreta entre escolas.

E costas com costas, simetrias perfeitas na altura e no conforto, transpirados em poros honestos e sadios, simulando respiração acertada na inquietude da mão dada.

E era esta ansiedade, cortada pela deslocação de ar que acalmava o zumbido do ouvido dela e o bater do coração.

Cresceram sem abafos de dor, desapertando os nós milimetricamente atados com a precisão de comandante de navio

A acostagem ao cais, perfeita.

Cada um no seu trilho. Línguas secas sem temor, maldade ou ofensa.

Um abafo de dor, um mil-folhas encharcado na cara, o algodão doce que resvala e a Sta Clara costas com costas no Café Piolho.

Viram-se anos depois em terramotos de riso num acaso de toques de pernas, bacias, mãos e cabelos, na discoteca inaugurada.

Alvorada em tom sépia, diálogos secos pelo canto da boca e ruídos de emoções à flor da pele.

Deram-se mãos de açúcar queimado, em lastro de desculpas entre fiapos de luz-sim e luz-não, um estômago a três voltas, sapatos de salto alto e almas embebidas em limão, xarope e algodão doce.

Perfume extrapolado, pescoço agitado, cadelas em volta de focinho alçado e um adeus telepático entre leituras de um olhar que não se conhece, o sorriso desfeito e olhar azul tingido de vida madura.

Saiu espalmado na alma e coração desconcertado, feliz contudo, matraqueado no espírito e reluzindo como salva vidas no naufrágio.

Virou a folha da vida nos confins das veias e atirou o primeiro amor de feições esquecidas ao vento tempestuoso, com milímetros de pele a arder calculadamente macerada e demarcada.

Fechou a porta pelo ouvido esquerdo, desmembrou a saudade e fechou chaveta no fim da frase.

Comentários

Maria disse…
Terno, doce e suave...
Lindoooooo
Bjinho José Pedro
Lídia Borges disse…
Reminiscências de um tempo doce em que o amor é fácil, dizemo-lo, agora que o faríamos fácil que voltássemos a ter essa idade.

Sempre cativante a forma como vais colher os pequenos gestos de um quotidiano simples e os transformas em boa poesia.

Um beijo
Eloah disse…
Lindo! Tão lindo quanto as lembranças de um tempo eterno para o coração.É o amor é fácil nesta idade porque vem revestido de pureza.A vida acolhe, sente e devolve sem o compromisso de acertar , de contentar e de ser heroi.Parabéns! adorei seu texto.Definir sentimentos com esta sensibilidade só uma alma poética pode fazê-lo.Bjs
Eloah disse…
Lindo seu texto!Em suas palavras pude reviver momentos de amor insubstituíveis.Só uma alma poética é capaz de colocar em palavras sentimentos e gestos tão ternos.Parabéns, adorei.
Anita Martins disse…
Tenho pena de não ter vivido um amor destes nesta idade. Tive um amor, sim, mas platónico...e não era fácil!Parceiro da minha carteira do lado, que eu olhava embevecida e sonhava com a pureza dos meus tenros anos, mas que já experimentava a dor do amor!!!Gosto da forma como sentes e passas as emoções para as palavras. Simples e doce. Beijinho.

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