30 março, 2011

SEI LÁ SE DÁ CERTO...!



Balançavam-se entre choros e risos, abraços apertados, beijos sem fim, lágrimas lambidas, enquanto ela tremia e ele afoito, conduzia-lhe as mãos inquietas.

Damo-nos um tempo, segundo palavras dela. “Sei lá se dá certo…”, solavancos como um carro velho, e logo de seguida, uma voragem.

Humedece língua, afia atenção como a ponta de um lápis e segue vagarosa por caminhos
pendulares, enquanto ele franze sobrolho e inquieto, mexe os nós dos dedos ritmados.

Ela, absorta na pele dele, queria alcançar-lhe os segredos mais íntimos, e ele coração palpitante, desatando nós em rimas silábicas contra o céu-da-boca.

Envolveram-se em palavras e contos ancestrais aquecendo-se e esquecendo-se em cada uma, num ritmo íntimo e atrevido, como só ela sabia ser nesses momentos.

Pensaram em ideias selvagens, perscrutando o jardim fronteiro, mas estranha chuva invadia cada letra dos seus apelidos e cada folha de cada árvore em confissões nocturnas.
Era pele entranhada e poros abertos como corridas de carros em asfalto.

Unhas espetadas em carne pura, aconchego de pernas, curvas pintadas e aprumadas em conversa de ocasião, olhos cristais líquidos embaciados no céu, que tocava quando lhe arfava baixinho numa reticência, quase… ponto final.

Espalhava-se nas ravinas das costas musculadas em devoção cega, aguçada por entre centros nervosos, expressão de gozo triunfante.

Fechou os olhos, desbravou sobras na ponta da língua, engoliu palavras uma a uma num suspiro ao contrário, com o ar nos pulmões e corpo mastigado, devorado, sem travo amargo, num gozo de indigestão.

E foi nessas formas de violino sem cordas que se esqueceu do alcance do ouvido, cobrindo-lhe corpo e mente, trinados de gritos humedecidos com frequência monocórdica.

“Sei lá se dá certo…”, e agarrava-o sôfrega, percorrendo corpo em volteio bailarino, locais de inigualável alcance, trepidante para a antiguidade do prédio e os afectos que se revezavam entre frases no espelho, baton esbatido em partes íntimas, e o café da manhã como fogo de artifício.

Paredes meias com contornos sem parede. Fecharam todas as portas a cadeado, taparam frinchas em janelas despidas, trancaram-se em comum para que o amor não fugisse, esconjurando ameaças, patas de coelho, sal refinado e alho sem casca…. Não vá o diabo tecê-las.

1 comentário:

Pensamentos Positivos disse...

Aaaaaa, eu já disse tantas vezes "sei lá de dá certo...!" , e deu, mesmo que por pouco tempo, deu! ;) Gostei muito do texto, muito! =D