27 abril, 2011

DUAS METADES DE TI




Duas metades de ti.

Passos que marcam. Curvas que desalinham. Montanhas russas. Fastio e cansaço. Fome e migalhas. Sinos que tocam a rebate. Círculos sem fim. Uma parte de ti sem a outra parte de mim.

Apetece-me outros passos que não os meus, a mansidão dos dias, a luz e a noite, uns dedos distraídos que aninham prazer.

O silêncio nas minhas rugas e nos teus lábios, o vestido translúcido, o peito que bate refilão, o meu coração inquieto... A tua parte sem a outra parte de mim.

Concisa e segura, pernas sem poiso certo, com pudor e contenção.
Fêmea sem cio, os meus olhos como velas, um amor solto como fé pagã, remendado com bocadinhos teus.
Palavras por dizer.

O teu jeito e trejeito que me faz mossa. Corpo e textura. Incenso e paz. Doce e amargo. Olfacto e paladar. As tuas pernas no meu peito sem rasto nem dor.

Queres-me diabo com sushi, obstáculo a ultrapassar, persistência e devoção.
O chão que me falta nas tuas curvas, suspiros e risos nos teus olhos, o equilíbrio nos teus saltos, as asas de borboleta, o entrelaço do meu abraço, as tuas zonas áridas, os glaciares em extinção... A tua metade fixa na minha outra solta.

O sol pelas nuvens, o teu sincero abraço, a exacta medida em que me cabes, o teu ouvido e a minha voz, a tua pele que se dissolve, o meu corpo ancorado, carreirinhos de afectos, sílabas na tua língua em aflição.

Desejo e mansidão. Loucura em três actos. Peça de teatro sem narração. Os teus sinais interiores.
Uma parte de mim nas duas metades de ti.

20 abril, 2011

A NOITE DESEJA E O RIO FAZ






A noite era curta para tanto que dizer.

As luzes madrugadoras tinham sido amantes nas margens do rio e o tempo não permitia avanços, nem recuos.

O espelho de água transformava sombras numa volúpia dançante, com jeitos de bailarina reflectindo cor, tempo, alma e desejo.

Tudo aquilo que a noite deseja e o rio faz.

As trevas embalam-nos num abraço aquecido, interrompido aqui e ali por respiração ofegante, seca, intensa, que trespassa o coração.

O rio gritou, as margens transbordaram e tamanha era a luz que a lua se envergonhou de tanta cor.

O teu corpo ressente-se, aflito.
Nem duas palavras, um ritmo anaeróbico e o espelho da vida na passagem fugaz do tempo.

A clarividência do teu riso de criança, as saudades do enrosco num abraço, o crepitar da tua alma e a boca adocicada.

Barco que se aproxima das margens do rio, num aconchego, e eu a sorver-te calor em gestos curtos.

Metro e meio por meio metro, vaporadas de nevoeiro que se levantam do rio, os teus lábios carmim, como sombras de folhas, e um riso trocista, frenético.

E passavam assim dois, três dias... o eléctrico amarelo, os pingos de chuva, o candeeiro a petróleo da tua avó, e tu, gulosa, imaginando que me habitavas corpo e alma, e eu remexido, esventrado, zangado e misturado.

E mais um dia, talvez três.

Noite ansiosa, bares de fadistas, xaile negro, miradouro e luzes que cintilam na sombra, transfigurando o rio que corre vertiginoso aos pés da lua.

Um abraço safado, o toque da tua na minha pele, o beijo fugidio, dez-para-as-seis, fios de luz nas frestas das persianas, a noite a acordar devagar, pedaços de silêncio com que fiquei.

Regresso ao cais da partida, tempo contado, noite tão curta para te dizer, gaivotas paradas no ar, frases tontas, o teu corpo na penumbra, um adeus até sempre.

Aquilo que a noite deseja e o rio faz.

09 abril, 2011

I NEED



Deixei o livro aberto no chão.
Letras ofegantes procuram saída. O sol poisou na vidraça e queimou-me pele enquanto o voo rasante do pombo anilhado repousa no quintal vizinho.

Deixei a boca no livro, página sete, terceiro capítulo.
A boca e o beijo, na esperança vã que me sintas os lábios e os percorras sedenta, lânguida.
O decote que te aperfeiçoa, e as mãos que me percorrem, como segredos imperfeitos.

A astúcia que transportas, o horizonte onde me levas e a linha que transpomos em tsunamis no areal.

A tua figura, uma sombra, dois pedaços, a tua voz, derrapagem interior, espaço que não é nosso, um modo desabrido, areia nos pés, e língua profícua entre becos e avenidas.

Lua cheia.

Adoras morar em mim, como um refluxo qualquer, espalhando-te como brasa paralisando-me movimentos.

És quimera, poema, anjo-da-guarda ou infortúnio. Flagelas-me espírito, ocupas-me espaço, cortas-me veias e serras-me consciências em pedaços indecifráveis de meias-palavras ou palavras meias.

Abates-me como árvore velha e carcomida, tornas-te excesso em tão pouco.

Fomos quase milagre em temperança, quando te era proibido ou desligado, meia rota, pele tisnada, caracóis por lavar.

Somos ferro forjado sem tempero, ostras sem brilho, novos-ricos em espirais fumegantes, doutorados puros na solidão, corpos em azedume, sem compaixão.

Livro no chão, páginas folheadas, cheiro da tinta no papel, esse que é o teu, capitulo quinto, segundo volume.

Quero-te ler, conciso. Centrifugar-te a espaços, suspirar-te pele clara, clamar por falhas e feridas de guerra, exorcizando o estertor violento que te habita.

Quero ter-te em traços incertos, folha branca, escritos ténues, beijos molhados na curva da orelha sede de prazer em rimas imperfeitas.

Quero ter contigo um fim, momento interminável, êxtase puro, embate inevitável, consolo de mágoas, falhas desculpáveis, feridas lambidas e curadas, tempestade em oceano, vias sem rumo e sem norte, livros inteiros por ler e um cataclismo nuclear.

07 abril, 2011

SONHO







Fecho a porta que teimosamente se mantém aberta e tapo a alma que razoavelmente se mantém arejada.

Vivo a angústia entre o cais e o navio, e a névoa que me cobre sentimentos.
Faço-me ao sono sem sucesso e, da tua boca, palavras vãs, válvulas entupidas.

Esta quietude.
Passos só os meus, um pássaro na janela e a chuva que escorrega preguiçosa na vidraça.

Por vezes, palavras; outras silêncios, murmúrios também. Gritos lancinantes que percorrem dor ou prazer, mas que não distingo.

Palavras iluminadas também, olhar e carícias, corpo e pele, música harmoniosa, o teu espaço vazio, choro e canto, solfejos teus que não hesito ouvir.

Não sei se durmo, se sonho apenas, ou se é somente um espaço vazio e não o entendo.

Por vezes, no meu interior, um fio de conversa chega de mansinho como quem pede licença para entrar.

As noites estão vazias e eu, só, quase perdido entre mim e algo mais, que não vislumbro, mas sei que sim…. ou não.

Tenho imagens.
Cem ideias e cem imagens.
Folhas arrefecidas nas mãos dos outros, escritos perdidos, letras fugidias, lábios de curvas sôfregas, um sol de milagre, fruto amadurecido entre vírgulas.

O meu corpo vestido em ti e estrelas numa apatia intemporal, e eu aqui parado, não sabendo se algo começa ou acaba em mim.
Uma bola de sabão, uma brisa, tempos próprios que não o meu.

Meio passo para um lado, outro meio para o outro, remexo no interior e tento o reencontro com o que já fui.
Abano a cabeça três vezes, mais três os braços, sacudo veredictos, resultados, fundos desarrumados, amachucados, inquietos.
Uma ruga, duas expressões.

Conteúdos aspirados pelo tempo, algumas escritas, reticências, pouco mais.
E a dor sem tradução, analogia simples, poucas palavras com sentido.

Eu, tu e o candeeiro tosco da rua, o cacilheiro que não parte, sardinha a tostão, realidade, sono ou sonho que acaba aqui?
O cais e o nevoeiro, navio de porte, nós de marinheiro, a saudade à janela, um fado.

O meu fado.