27 abril, 2011

DUAS METADES DE TI




Duas metades de ti.

Passos que marcam. Curvas que desalinham. Montanhas russas. Fastio e cansaço. Fome e migalhas. Sinos que tocam a rebate. Círculos sem fim. Uma parte de ti sem a outra parte de mim.

Apetece-me outros passos que não os meus, a mansidão dos dias, a luz e a noite, uns dedos distraídos que aninham prazer.

O silêncio nas minhas rugas e nos teus lábios, o vestido translúcido, o peito que bate refilão, o meu coração inquieto... A tua parte sem a outra parte de mim.

Concisa e segura, pernas sem poiso certo, com pudor e contenção.
Fêmea sem cio, os meus olhos como velas, um amor solto como fé pagã, remendado com bocadinhos teus.
Palavras por dizer.

O teu jeito e trejeito que me faz mossa. Corpo e textura. Incenso e paz. Doce e amargo. Olfacto e paladar. As tuas pernas no meu peito sem rasto nem dor.

Queres-me diabo com sushi, obstáculo a ultrapassar, persistência e devoção.
O chão que me falta nas tuas curvas, suspiros e risos nos teus olhos, o equilíbrio nos teus saltos, as asas de borboleta, o entrelaço do meu abraço, as tuas zonas áridas, os glaciares em extinção... A tua metade fixa na minha outra solta.

O sol pelas nuvens, o teu sincero abraço, a exacta medida em que me cabes, o teu ouvido e a minha voz, a tua pele que se dissolve, o meu corpo ancorado, carreirinhos de afectos, sílabas na tua língua em aflição.

Desejo e mansidão. Loucura em três actos. Peça de teatro sem narração. Os teus sinais interiores.
Uma parte de mim nas duas metades de ti.

4 comentários:

Maria disse...

Lindo, simplesmente magnifico!
Um grande bjinho Zé Pedro

Elsa disse...

Parabéns José Pedro, Adorei... Beijinhos

Ana disse...

Em duas metades, em apenas uma, em dois ou três quartos, por inteiro...
A tua forma de escrever é envolvente, uma delícia!!!
É sempre um prazer passar por aqui...
Muito bom!!
Bjs

Lídia Borges disse...

O texto tem o ritmo apressado de amantes saudosos. As palavras atropelam-se em crescendo num caudal que se faz indomável.

Onde vais buscar tanta vida para dar às palavras é que eu não sei.Dela, resulta a tua magia (como Orpheu).

Um beijo