09 abril, 2011

I NEED



Deixei o livro aberto no chão.
Letras ofegantes procuram saída. O sol poisou na vidraça e queimou-me pele enquanto o voo rasante do pombo anilhado repousa no quintal vizinho.

Deixei a boca no livro, página sete, terceiro capítulo.
A boca e o beijo, na esperança vã que me sintas os lábios e os percorras sedenta, lânguida.
O decote que te aperfeiçoa, e as mãos que me percorrem, como segredos imperfeitos.

A astúcia que transportas, o horizonte onde me levas e a linha que transpomos em tsunamis no areal.

A tua figura, uma sombra, dois pedaços, a tua voz, derrapagem interior, espaço que não é nosso, um modo desabrido, areia nos pés, e língua profícua entre becos e avenidas.

Lua cheia.

Adoras morar em mim, como um refluxo qualquer, espalhando-te como brasa paralisando-me movimentos.

És quimera, poema, anjo-da-guarda ou infortúnio. Flagelas-me espírito, ocupas-me espaço, cortas-me veias e serras-me consciências em pedaços indecifráveis de meias-palavras ou palavras meias.

Abates-me como árvore velha e carcomida, tornas-te excesso em tão pouco.

Fomos quase milagre em temperança, quando te era proibido ou desligado, meia rota, pele tisnada, caracóis por lavar.

Somos ferro forjado sem tempero, ostras sem brilho, novos-ricos em espirais fumegantes, doutorados puros na solidão, corpos em azedume, sem compaixão.

Livro no chão, páginas folheadas, cheiro da tinta no papel, esse que é o teu, capitulo quinto, segundo volume.

Quero-te ler, conciso. Centrifugar-te a espaços, suspirar-te pele clara, clamar por falhas e feridas de guerra, exorcizando o estertor violento que te habita.

Quero ter-te em traços incertos, folha branca, escritos ténues, beijos molhados na curva da orelha sede de prazer em rimas imperfeitas.

Quero ter contigo um fim, momento interminável, êxtase puro, embate inevitável, consolo de mágoas, falhas desculpáveis, feridas lambidas e curadas, tempestade em oceano, vias sem rumo e sem norte, livros inteiros por ler e um cataclismo nuclear.

6 comentários:

ana disse...

Emprestas-me este livro?
Fiquei com vontade de ler todos os capítulos e os outros volume....
Parabéns, é mais um texto lindo.
Bj

Maria disse...

Li, reli e tornei a ler!
Lindo!
Bjs

MM disse...

Todos temos livros por fechar, com capítulos que sabem a doces memórias e outros que sabem a recordações menos boas as quais deviam estar esquecidas ou ultrapassadas, ou a desejos não realizados que volta e meia nos dão uma alfinetada!
Mas em todos os livros da vida se aprende e se tiram lições. Este teu parece um belo livro :))))

Eloah disse...

"O sol poisou na vidraça e queimou-me a pele enquanto o voo rasante do pombo anilhado repousa no quintal do vizinho!".Pura poesia!! Descrição perfeita de um momento perfeito aos olhos e alma de um poeta.Parabéns!Abraços

Lídia Borges disse...

Penso que todas as tuas palavras têm uma capacidade ilimitada no acondicionamento das emoções e que, cada uma delas, bem podia ser um mar onde navegam mil barcos à deriva.
Para mim são simplesmente maravilhosas e sempre novas.

Um beijo

Anónimo disse...

"Deixei o livro aberto no Chão"

Depois de o folhear, devagarinho e com carinho...
Mas depois reparei que a história, não acabara ali.

Parabéns...