A NOITE DESEJA E O RIO FAZ






A noite era curta para tanto que dizer.

As luzes madrugadoras tinham sido amantes nas margens do rio e o tempo não permitia avanços, nem recuos.

O espelho de água transformava sombras numa volúpia dançante, com jeitos de bailarina reflectindo cor, tempo, alma e desejo.

Tudo aquilo que a noite deseja e o rio faz.

As trevas embalam-nos num abraço aquecido, interrompido aqui e ali por respiração ofegante, seca, intensa, que trespassa o coração.

O rio gritou, as margens transbordaram e tamanha era a luz que a lua se envergonhou de tanta cor.

O teu corpo ressente-se, aflito.
Nem duas palavras, um ritmo anaeróbico e o espelho da vida na passagem fugaz do tempo.

A clarividência do teu riso de criança, as saudades do enrosco num abraço, o crepitar da tua alma e a boca adocicada.

Barco que se aproxima das margens do rio, num aconchego, e eu a sorver-te calor em gestos curtos.

Metro e meio por meio metro, vaporadas de nevoeiro que se levantam do rio, os teus lábios carmim, como sombras de folhas, e um riso trocista, frenético.

E passavam assim dois, três dias... o eléctrico amarelo, os pingos de chuva, o candeeiro a petróleo da tua avó, e tu, gulosa, imaginando que me habitavas corpo e alma, e eu remexido, esventrado, zangado e misturado.

E mais um dia, talvez três.

Noite ansiosa, bares de fadistas, xaile negro, miradouro e luzes que cintilam na sombra, transfigurando o rio que corre vertiginoso aos pés da lua.

Um abraço safado, o toque da tua na minha pele, o beijo fugidio, dez-para-as-seis, fios de luz nas frestas das persianas, a noite a acordar devagar, pedaços de silêncio com que fiquei.

Regresso ao cais da partida, tempo contado, noite tão curta para te dizer, gaivotas paradas no ar, frases tontas, o teu corpo na penumbra, um adeus até sempre.

Aquilo que a noite deseja e o rio faz.

Comentários

Anónimo disse…
Existem palavras que asfixiam...
Bravo Zé Pedro!!
Lídia Borges disse…
Esta prosa - um respirar aturdido no balanço lírico das águas, no desejo que se faz palavra ou na palavra que se faz desejo, luz nocturna a correr no rio das emoções.


Uma Páscoa Feliz
Beijo

L.B.
Anónimo disse…
Lindissimo......
Anónimo disse…
"O espelho de água transformava sombras numa volúpia dançante, com jeitos de bailarina, reflectindo cor, tempo, alma e desejo"

Tal e qual como os seus textos, onde se refletem cor e desejo, de querer sempre ler mais um e depois outro...
Magnífico. Parabéns!

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