07 abril, 2011

SONHO







Fecho a porta que teimosamente se mantém aberta e tapo a alma que razoavelmente se mantém arejada.

Vivo a angústia entre o cais e o navio, e a névoa que me cobre sentimentos.
Faço-me ao sono sem sucesso e, da tua boca, palavras vãs, válvulas entupidas.

Esta quietude.
Passos só os meus, um pássaro na janela e a chuva que escorrega preguiçosa na vidraça.

Por vezes, palavras; outras silêncios, murmúrios também. Gritos lancinantes que percorrem dor ou prazer, mas que não distingo.

Palavras iluminadas também, olhar e carícias, corpo e pele, música harmoniosa, o teu espaço vazio, choro e canto, solfejos teus que não hesito ouvir.

Não sei se durmo, se sonho apenas, ou se é somente um espaço vazio e não o entendo.

Por vezes, no meu interior, um fio de conversa chega de mansinho como quem pede licença para entrar.

As noites estão vazias e eu, só, quase perdido entre mim e algo mais, que não vislumbro, mas sei que sim…. ou não.

Tenho imagens.
Cem ideias e cem imagens.
Folhas arrefecidas nas mãos dos outros, escritos perdidos, letras fugidias, lábios de curvas sôfregas, um sol de milagre, fruto amadurecido entre vírgulas.

O meu corpo vestido em ti e estrelas numa apatia intemporal, e eu aqui parado, não sabendo se algo começa ou acaba em mim.
Uma bola de sabão, uma brisa, tempos próprios que não o meu.

Meio passo para um lado, outro meio para o outro, remexo no interior e tento o reencontro com o que já fui.
Abano a cabeça três vezes, mais três os braços, sacudo veredictos, resultados, fundos desarrumados, amachucados, inquietos.
Uma ruga, duas expressões.

Conteúdos aspirados pelo tempo, algumas escritas, reticências, pouco mais.
E a dor sem tradução, analogia simples, poucas palavras com sentido.

Eu, tu e o candeeiro tosco da rua, o cacilheiro que não parte, sardinha a tostão, realidade, sono ou sonho que acaba aqui?
O cais e o nevoeiro, navio de porte, nós de marinheiro, a saudade à janela, um fado.

O meu fado.

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Momentos a sós, mas não de solidão. Percebe-se uma desarrumação consentida entre o sujeito e o texto.
Consentida ou propositada. Uma desarrumação cuja intencionalidade é remexer as memórias, vivificá-las para que venham preencher, de certo modo, um presente vazio. Um presente que se constrói a partir da palavra (real ou sonhada)

Como não me repetir?
Os teus textos têm gente dentro, pessoas de carne e osso e... coração!

Um beijo

Maria disse...

Fantasticooooooo...
Beijinho